04 março 2013

"Dangerous"

Capítulo 3 - Say ok

Voltamos aos nossos dormitórios e eu aproveitei para fazer minha lição de química. Quando terminei de fazer, me espreguicei e procurei meu celular para ver as horas. Eu não o encontrei em lugar nenhum, e lembrei de ter filmado Chay e Maker cantando com ele.

- Que horas são, Sophia? – eu perguntei levantando e colocando de novo o casaco por cima do uniforme.
- Quinze para as onze – ela informou. – E aonde você pensa que vai?
- Buscar meu celular – eu disse indo em direção à porta. – Minha mãe ficou de me ligar hoje.
Eu saí do quarto e me apressei pelo corredor antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa. Quinze minutos era tempo suficiente.
- O que você tá fazendo aqui? – Maker perguntou assustado por me ver ali quando abriu a porta do quarto.
- Não consegui ficar tanto tempo longe de você – eu brinquei e ele me deu passagem para entrar. Suede estava deitado embalado em um cobertor felpudo. – Chay, você tá parecendo uma bala. – eu o zoei, que acompanhou meus passos com a testa franzida. Eu peguei o celular e mostrei a eles. – Melhor me apressar, faltam oito minutos. Até amanhã, dudes. – Eu mandei beijos no ar e saí do quarto, mexendo distraidamente no celular.
Eu esbarrei em alguém, e antes que pudesse sequer respirar, me senti puxada e meu corpo bateu com força contra a parede do corredor.
- Oi, boneca – a pessoa que me segurava sussurrou em meu ouvido e segurou meus pulsos. – Se estiver perdida, meu quarto é logo ali.
- Me solta – eu disse, tentando manter a voz firme, mas ela já estava falhando, eu já era puro desespero.
- Ah, vamos lá, boneca – ele prensou os lábios contra os meus, e eu comecei a chorar. – Vamos nos divertir.
- SO... – eu tentei gritar com todo o fôlego que eu ainda tinha, mas ele tapou minha boca antes que eu pudesse continuar. Foi então que eu consegui ver o rosto dele. Ele estava furioso, tinha as feições encovadas e olhos extremamente pretos.
- Vai ficar de gracinha? – ele disse e em seguida me arrastou até um dos quartos ali por perto, ainda tapando minha boca. Ele fechou a porta e começou a me agarrar e eu tentava me debater e gritar, mas não tinha mais ar em meus pulmões. Eu comecei a sufocar e a me sentir tonta. Minhas mãos, braços, rosto, tudo formigava. Eu não raciocinava mais direito, só tentava a qualquer custo gritar, sem muito sucesso. Eu senti as mãos dele percorrerem meu corpo e irem para debaixo da minha saia enquanto ele me beijava forçadamente. Eu mordi a língua dele e aproveitei quando ele se afastou o bastante para eu conseguir gritar antes dele voltar a tapar minha boca.
Foi tudo rápido em seguida. Eu ouvi um estrondo e ele me soltou, deixando meu corpo cair no chão.
- Tira ela daqui – eu ouvi uma voz furiosa, e que eu sabia que conhecia, gritar. Em seguida alguém me pegou no colo e me levou para outro lugar.
- Não sai daqui – quem me carregava disse me deixando sentada no chão, e em seguida saiu dali. Eu abracei minhas pernas e continuei chorando sem parar, vendo tudo embaçado, tentando respirar a qualquer custo. Eu não sei quanto tempo havia se passado até alguém acender a luz e me abraçar.
- Hey, hey, calma – eu ouvi aquela voz que conhecia dizer calmamente. Eu abracei ele forte e escondi meu rosto na curva de seu pescoço. – Respira, isso. Eu estou aqui.
Foi então que eu reconheci a voz. Era Arthur.
- Life is getting harder day by day – ele começou a cantar baixinho, fazendo carinho em meu cabelo. - And I don't know what to do or what to say, yeah
And my mind is growing weak, every step I take
It's uncontrollable, now they think I'm fake, yeah
'Cos I'm not alone
But I'm not alone
I'm not alone
And you’re not alone…

- Estou aqui com você, pequena – ele sussurrou, parando de cantar.
Eu já conseguia respirar e chorava menos agora. Tudo estava calmo novamente. Ele se afastou e me encarou com aqueles olhos Castanhos, me dando toda a paz que eu precisava. Passou a mão por minhas bochechas, limpando as lágrimas que ainda estavam ali.
- Vem, vamos limpar esse rosto lindo – ele sorriu e eu sorri de volta, cessando meu choro. Passei a mão por meu olhos e foi então que percebi que um filete de sangue escorria do canto de sua boca.
- Meu Deus! – eu disse desesperada. – Você está machucado!
- Hey, pequena – ele se levantou e estendeu a mão para me ajudar a levantar. – Calma, isso não é nada.
- Não mesmo – e só então eu percebi que Micael estava deitado em uma das camas, e que nós estávamos em um dos dormitórios. – Arthur simplesmente desmontou aquele cara!
Eu estremeci por lembrar dele. Arthur me guiou até o banheiro e eu joguei água no meu rosto.
- Quer um calmante? – ele ofereceu enquanto eu encarava minha imagem no espelho. Eu neguei com a cabeça e comecei a vasculhar as gavetas. Gel pra cabelo, sabonetes, camisinhas...
- O que você tá procurando? – ele perguntou intrigado.
Eu não respondi, finalmente achando algodão.
- Tem mertiolate, água oxigenada, alguma coisa do tipo? – eu perguntei e ele pegou em uma das gavetas água oxigenada e me entregou.
Eu olhei a embalagem. “Volume 10”, serve. Molhei o algodão com aquilo e me aproximei dele.
- O que você vai fazer? – ele perguntou olhando o algodão em minha mão.
- Cuidar de você – eu disse limpando o filete de sangue do rosto dele.
- Não precisa se preocupar comigo – ele disse com uma careta.
Ignorei e peguei mais um punhado de algodão e molhei com água oxigenada novamente. Passei em cima do corte no canto da boca dele e ele se afastou um pouco reclamando baixinho de dor.
- Fica quieto, Arthur – eu disse passando o algodão de leve novamente. Eu comecei a me sentir culpada pela dor dele. Era como se doesse em mim. – Obrigada por me salvar – eu agradeci sorrindo e tentando distrair ele.
- Por falar nisso – ele de repente fechou a cara. – O que você estava fazendo a essa hora aqui e com aquele cara?
- É verdade! – eu me lembrei da hora e saí do banheiro rápido, indo em direção a porta.
- Aonde você pensa que vai? – Arthur perguntou, segurando meu pulso, e eu senti uma dor latejante.
- Embora. E Arthur, tá doendo!
Ele soltou meu pulso rapidamente e olhou-os. Eles estavam roxos. De repente, eu fiquei com medo da cara que ele fez.
- Todas as portas já foram trancadas a essa hora – informou Micael.
- E agora? – eu perguntei tentando pensar em como voltar ao meu dormitório.
- Você dorme aqui – Arthur disse com as sobrancelhas erguidas como se aquilo fosse óbvio.
- Pirou?
- Você não tem muitas opções – informou Micael.
Ouvi uma batida na porta. Arthur me empurrou para trás dela antes de abrir.
- Cadê a Lu? – eu ouvi a voz preocupada de Chay, e saí de trás da porta. – Você está bem? O que aconteceu? Desculpa, a gente devia ter te levado até lá embaixo...
- É, deviam – Arthur o cortou grossamente. Eu olhei torto para ele.
- Tá tudo bem, Chay – eu murmurei olhando para o chão.
- Vem, você pode dormir lá com a gente – ofereceu Maker.
- Ela vai dormir aqui – sibilou Arthur, a cara fechada para eles. Chay abriu a boca para protestar, mas eu o impedi.
- Eu vou dormir aqui – eu disse meio sem pensar, tentando evitar outra briga. Chay olhou confuso para mim, franzindo a testa. – Tá tudo ok.
- Certeza? – Chay perguntou.
- Tenho – eu afirmei e Arthur bateu a porta na cara deles em seguida. – Não precisava ser tão grosso com os meus amigos! – Eu disse brava com Arthur. Esvaziei uma sacola plástica que encontrei e fui em direção ao frigobar.
- Você tem noção do perigo que correu hoje? – ele perguntou igualmente bravo.
- Mais do que você pensa – eu lancei um olhar furioso para ele. Ele ficou em silêncio e eu coloquei alguns cubos de gelo na sacola. Depois enrolei a sacola em um pano e voltei para perto dele.
- E o que você estava fazendo aqui? – ele perguntou em um tom ainda um pouco bravo.
- Vim buscar meu celular no quarto do Chay e do Maker – eu respondi já impaciente com aquele assunto. – Eu e as meninas passamos a tarde lá. Aí quando eu tava indo embora, aquele maluco me atacou.
- Você não deveria...
- Não enche o saco, Aguiar – eu o interrompi e coloquei o gelo em cima do inchaço que estava se formando na lateral da boca dele. Ele me encarou e então sua expressão relaxou. Colocou uma de suas mãos por cima da minha que segurava o gelo.
- Obrigado – ele agradeceu e aqueles olhos Castanhos me hipnotizaram. Dei um beijo leve em sua outra bochecha e me afastei. Meu celular começou a tocar e só então eu percebi que não estava com ele. Micael, deitado na cama próxima a porta com um travesseiro na cabeça, levantou a mão com o celular nela.
- Oi, mãe – eu atendi e fui para o banheiro fechando a porta para ter mais privacidade.
A conversa durou apenas dez minutos, já que ligar do Brasil para Londres saía meio caro. Eu me animei quando ela disse que mandaria o dinheiro para eu comprar o laptop que eu tanto queria. Assim que ela desligou, eu liguei para Sophia e contei por cima o que tinha acontecido.
Saí do banheiro e Arthur estava deitado no chão assistindo TV, apenas com um cobertor e um travesseiro. Tadinho, eu estava dando trabalho a ele. A cama próxima a janela estava feita, esperando por mim.
- Eu posso dormir no chão – eu ofereci. Ele negou com a cabeça.
- Quer uma roupa pra dormir? – ele ofereceu tirando o gelo da boca e indo até o guarda-roupa. É, dormir com o uniforme não seria exatamente confortável. – Que saco, acho que não devo ter nada do seu tamanho – ele reclamou vasculhando o guarda-roupa.
- Arthur – eu chamei e ele me olhou, parando de vasculhar. – Tira a camisa? – eu pedi e ele me olhou com uma expressão confusa. Eu encarei ele de volta e ele tirou a camisa. – Valeu – eu agradeci arrancando a camisa da mão dele e voltando para o banheiro.
Troquei meu uniforme pela blusa dele, apenas permanecendo com o shortinho por baixo da camisa, que cobria metade da minha coxa. Voltei ao quarto e ele me acompanhou com o olhar até eu me deitar e cobrir. Desligou a TV e a luz, deixando a escuridão tomar conta dali. Eu fechei os olhos e as lembranças do meu dia voltaram a minha mente. A imagem daquele garoto era vívida, fazendo com que eu me encolhesse e agarrasse o cobertor.

- Arthur? – eu chamei com a voz embargada. Senti uma lágrima escorrer até o travesseiro. Aquela sensação de pavor me dominando novamente.
- Calma – Arthur estava agachado ao lado da cama e começou a fazer carinho em meu cabelo. Eu comecei a chorar e ele se juntou a mim debaixo dos cobertores, me abraçando carinhosamente. – Eu estou aqui, e nada vai te acontecer mais. Eu te protejo – ele sussurrou em meu ouvido. – Eu prometo – ele deu um beijo em minha testa. Eu continuei chorando baixinho, mas seus braços me davam sensação de segurança, me acalmavam, até que eu adormeci.

Continua..

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