Capítulo 17 - We’re broken
E naquele fim de semana, quando finalmente achei que iria ter um pouco de descanso e poderia passar um tempo de qualidade com a minha “família britânica”, meu celular tocou pela terceira vez naquele sábado. Não era Arthur ou Mel, como mais cedo. Em plena cinco horas da tarde de um nublado sábado, descobri ser Micael quem me ligava.- Coloca uma camiseta e um casaco por cima, vou passar aí em vinte minutos – ele disse e eu demorei uns segundos para assimilar.
Abaixei a TV e empurrei a cabeça de Lauren de meu colo para poder me levantar.
- Você não consegue me deixar em paz nem no fim de semana? – perguntei irritada. – Qual é, Micael, segunda-feira a gente...
- É mais casual irmos no fim de semana – ele me cortou. Eu bufei. – Vou passar aí, não me faça tocar a campainha quando chegar.
- Eu não vou... – mas ele já havia desligado. –... sair – completei para o nada.
- Vamos sair para jantar hoje – avisou Lauren, se sentando no sofá. – Se for sair, não demore. Vamos sair oito horas.
- Tá bom, maninha - murmurei subindo vagarosamente as escadas.
- Aproveita e traz um lenço pra mim quando descer – ela pediu.
Eu começara a chamar Lauren assim desde que ela me abraçara ontem, dizendo que estava morrendo de saudades da irmã – no caso, eu era a irmã. Definitivamente pessoas doentes ficavam mais carentes. E nojentas, pois, apesar de ela já estar melhorando, ainda não parava de assuar o nariz.
Já eu, não vomitava desde quinta, e isso era realmente bom.
Peguei uma babylook qualquer preta e um dos meus novos agasalhos. Calça jeans e os cabelos presos em um rabo de cavalo alto que deixava algumas mechas aparecendo nas laterais da cabeça. Ouvi uma buzina e olhei rápido pela janela, vendo que Micael me esperava lá embaixo em um carro prata. Sai pelos corredores pulando em um pé só tentando calçar os All Star pelo caminho e jogando o lenço que Lauren tinha pedido ao seu lado no sofá.
- Casual o bastante para você? – perguntei abrindo a porta do carona e entrando.
- Entra logo – ele me apressou.
Micael deve sentir certo prazer em me irritar, não é possível.
- Que foi, a Sophia te deixou na mão e você veio descontar em mim? – retruquei, batendo a porta.
Bater a porta do impecável carro dele pareceu ter surtido efeito quanto a irritá-lo.
- Não, vamos sair mais tarde – ele arrancou o carro de uma vez na ruazinha tranquila.
- Onde afinal estamos indo? – perguntei depois de alguns minutos.
- Você vai ver – ele disse com um sorrisinho de lado.
Isso me assustou um pouco, admito.
- Qual é o problema que as pessoas têm em me dizer onde estamos indo? – reclamei em voz alta cruzando os braços e afundando no banco.
Ele ligou o rádio, passando as estações até parar em “Misery”, do Good Charlotte. Paramos em um sinal fechado e ele cantarolava e batucava no volante conforme a música. Mas não como eu, ou a maioria das pessoas fazia, eu reparei. Ele tinha ritmo na batucadas.
- Você toca bateria? – perguntei quando o sinal abriu e ele fez o carro voltar a andar.
- Toco – ele respondeu olhando para os carros à frente. – Por quê?
- Nada – murmurei me virando para a janela.
O resto do caminho foi acompanhado apenas pelas músicas que continuavam a tocar na rádio. Ele estacionou o carro e eu o segui pela calçada até ele parar em frente a um lugar mal cuidado de paredes cinzentas manchadas e portas de ferro.
- Segure minha mão – ele pediu, eu o olhei confusa. – Anda, segura – eu fiz o que ele pediu e ele entrelaçou nossos dedos. – Pra qualquer efeito você é minha namorada. E ignore se mexerem com você, certo?
Concordei com a cabeça.
Ele adentrou o lugar e uma barulheira vinda de algum lugar lá dentro era alta devido aos ecos nas paredes. Eu conseguia discernir alguns xingamentos e frases conforme nos aproximávamos mais do balcão, mas havia algum som que eu não conseguia identificar. As paredes estavam lotadas de armas, me fazendo encolher ligeiramente.
- Namorada? – um homem com a barba branco-acinzentada malfeita e uma barriga estufada para frente nada bonito perguntou ao .
- Pois é – ele disse parecendo descontraído, passando o braço por cima de meus ombros. – Achei que estava na hora dela aprender algumas coisas.
- Ela parece meio jovem para entrar aqui – ele lustrava uma arma com um pano e eu tentei não parecer assustada com o tamanho dela. – Está com os documentos aí?
Claro, todo mundo sempre me achava com cara de pré-adolescente. Realmente ter cara de mais jovem ajuda, mas quando você é mais velha... Nesses casos só me causava o constrangimento de sempre ter que mostrar a porra dos documentos. E é por isso que, como sempre, eu estava com eles em meu bolso.
- Ah, qual é – Micael disse persuasivo para o homem me fazendo parar com a mão na metade do caminho para o bolso – desde quando você pede documentos?
O cara respirou fundo, largando a arma em cima do balcão de vidro. “Certo, podem entrar” ele disse parecendo de repente de bom humor.
- Duas horas – Micael o disse fazendo sinal de dois com os dedos e me puxando para os fundos da loja. Uma porta estava aberta ali, entre algumas estantes – É por isso que está essa barulheira, algum idiota deixou a porta aberta – ele comentou.
Ele fechou a porta atrás de nós e passamos por um corredor mal iluminado, os barulhos se tornando cada vez mais altos. Somente quando adentramos um amplo espaço eu descobri o que era aquele som que não tinha conseguido identificar. Tiros.
Ali estava lotado de gente – a maioria homens – gritando para serem ouvidos devido aos grandes tampões nos ouvidos ou simplesmente xingando alto para descontar a raiva. Alguns poucos estavam encostados nas paredes esperando sua vez, eu acho; todos os outros estavam posicionados em suas cabines, atirando nos alvos no lado oposto na parede.
Micael logo providenciou tampões para nós com um dos caras que estavam encostados na parede, me aliviando consideravelmente daquele barulho. Micael me passou um par de luvas pretas de couro, enquanto ele mesmo vestia as suas. Ele me levou até mais adiante e uma das últimas cabines estava vazia. Ele pegou uma arma e dispensou o cara que nos acompanhava.
Eu cruzei os braços e fiquei encarando Micael, esperando uma resposta.
Ele se aproximou e puxou um dos meus tampões, para que pudesse escutá-lo direito. “Atirar é mais eficiente do que bater.”
Eu puxei um dos lados do seu tampão para que ele também pudesse me escutar. “Isso é mesmo necessário?”
Ele assentiu com a cabeça. “Você vai acabar achando divertido.”
Eu estava em meu tranquilo e preguiçoso sono de domingo, sonhando que caminhava com Arthur ao meu lado, que carregava uma linda criança em cima dos ombros, que ria de felicidade.
Mas claro, a sociedade de hoje em dia não dá mais valor a pequenos momentos felizes como esses, mesmo que fosse um sonho. E nem respeitam coisas sagradas como meu sono de domingo.
Despertei contra minha vontade com o irritante toque do meu celular, o qual eu ainda não havia conseguido trocar, e que parecia furar meus tímpanos de tão estridente.
Estiquei minha mão e tateei pela cabeceira a procura do celular.
- Alô – atendi grogue.
- Vou te buscar mais cedo hoje – eu demorei para assimilar o que a voz falava.
- Micael, eu tô dormindo – eu disse tolamente.
- Que horas você prefere? Depois do almoço, claro – ele ignorou o fato de que eu estava dormindo.
- Qualquer hora depois que eu acordar – respondi mal-humorada.
- Ótimo, duas horas eu passo aí – ele não se deixou abalar por estar me ligando tão cedo de jeito nenhum.
- Sério, Micael, eu te odeio – reclamei.
- Duas horas, não esquece, ou te arrasto da cama porta afora – ele ameaçou e desligou.
- Vai se ferrar – retruquei para a linha muda.
Deixei o celular ao meu lado mesmo e me ajeitei na cama.
E eu já estava quase caindo no sono de novo quando meu celular voltou a tocar. Aquela maldita musiquinha me enlouquecendo novamente.
- Que droga, me dá um descanso! – reclamei praticamente gritando assim que atendi, deixando a raiva por estar sendo acordada de novo fluir.
- Foi mal, não achei que estivesse sendo tão pegajoso – a voz de Arthur do outro lado da linha me fez sentir como se uma faca estivesse me cortando por tê-lo deixado tão sem jeito sem motivo.
- Não, amor – me apressei a desculpar –, achei que fosse outra pessoa, desculpe.
- Ah... devo ter te acordado né? – ele ainda estava sem jeito. - Desculpa, eu...
- Não, não, tudo bem querido – eu o cortei. – Você não me acordou, ainda não tinha voltado a dormir, pode falar.
- Ah... estava pensando em fazer alguma coisa... Sabe, domingos podem ser extremamente entediantes sem você.
Eu dei uma risadinha, sorrindo.
- Tudo bem, o que você quer fazer? – afastei as cobertas e me sentei na cama. A cama de Lauren estava vazia, mas ainda bagunçada. Eu não me acostumava com a ideia de outra adolescente acordar antes das onze em um domingo.
- Não sei... Podemos assistir a um filme, passear, ir ao cinema, patinar... Você decide.
- Patinar – vibrei animada. – Que horas?
- Posso passar umas cinco horas pra te pegar.
- Sete horas – corrigi, lembrando-me de Micael.
- Ok... O que vai fazer à tarde? – perguntou descontraído.
- Passar algum tempo com Lauren – menti descaradamente. Como eu poderia falar: Ah Arthur, vou sair com o seu melhor amigo, atirar um pouco... Sabe como é, já que estamos sob ameaça de morte repentina, é bom me prevenir como puder.
- Eba! – Lauren entrou no quarto com o cabelo bagunçado e seu pijama de moletom.
- Eba o quê? – perguntei tampando o celular.
- Você vai ficar um pouco comigo – ela disse com um sorrisinho feliz.
Ah, ótimo. Eu precisava de mais uma para enrolar agora.
- Ela já melhorou? – Arthur perguntou.
- Ah, é, está quase boa – respondi fazendo sinal para que Lauren saísse do quarto. Ela emburrou a cara e saiu. – Como está indo no futebol? – mudei de assunto.
- Para onde vamos mana? – Lauren perguntou animada quando desci para a cozinha, desistindo de dormir até o meio-dia.
- Lugar nenhum – respondi enchendo um copo de leite.
- Mas você disse a Arthur que ia sair comigo – me virei para ela que estava encostada na bancada fazendo uma carinha de cachorro sem dono. – Estou enfiada em casa há uma semana!
- Primeiro: Essa carinha de coitada você aprendeu comigo, não venha usar contra mim – alertei e ela emburrou a cara, toda bravinha. – Segundo: Nós saímos para jantar ontem.
- Mas sair com a família não conta!- ela reclamou parecendo indignada.
- Ahá! – apontei para ela. – Se eu sou irmã, sou da família, então você se ferrou.
- Mas Lu...
- Hoje não dá amore – peguei biscoitos dentro do pote em cima da bancada onde estava comendo. – Outro dia, pode ser?
Ela revirou os olhos. “Pode né. Mas por que não dá? Você não vai sair com o Arthur e pelo jeito está mentindo para ele” Ela me observou atenta.
Engasguei um pouco com o leite. “Não estou mentindo pra ninguém” me apressei a dizer.
Ela me olhou desconfiada. “Você está, sim.”
- Não estou – insisti mesmo sabendo que era inútil.
- Ah, você está – ela veio para perto de mim, apoiando as mãos na bancada e me olhando de um modo penetrante. – Pode ir contando.
- Bom dia, querida – para meu alívio Lauren se afastou assim que a mãe entrou na cozinha. – Caiu da cama?
- Não mãe, agora ela é pop – respondeu Lauren antes de mim. Eu fiz cara feia pra ela. – Recebe ligações logo pela manhã.
- Estranho, nem ouvi o telefone da sala tocar – ela abriu a geladeira e começou a vasculhá-la.
- Foi meu celular – respondi sem pensar.
- Achei que ele tivesse sido roubado semana passada – Rachel espiou por cima da porta da geladeira. – Conseguiu recuperá-lo?
É claro que ela sabia que eu não tinha dinheiro para comprar um, pois em geral era ela quem pegava o dinheiro que minha mãe depositava no banco – mesmo sendo a minha conta. Mas Lauren foi mais rápida do que a minha capacidade de inventar uma desculpa.
- Foi presente do namorado dela.
Sorri sem graça, desviando o olhar para meu copo de leite, mesmo sabendo que Rachel ainda me observava.
- Namorado? – ela perguntou. – Você já tem um namorado e nem me contou?
- É que não faz muito tempo – eu disse sem graça olhando timidamente para ela.
Rachel fechou a porta da geladeira e me encarou com uma mão na cintura. “Não faz muito tempo, mas ele já te deu um celular?”
Isso porque ela não viu as roupas, pensei.
- Nós nos apegamos meio rápido – eu disse com um meio sorriso.
- Sei – ela respondeu desconfiada voltando a abrir a geladeira. Mas meu alivio não durou. – Quero conhecê-lo.
Olhei feio para Lauren e sinalizei um corte em meu pescoço, transmitindo a mensagem de que iria matá-la assim que pudesse.
Ela deu de ombros para mim. “Da próxima vez você sai comigo” ela deu um sorrisinho saindo da cozinha, me deixando pasma.
Às duas horas estava esperando Micael, já posicionada atrás do sofá da sala para ficar mais próxima da porta assim que ouvisse a buzina. Se eu fosse rápida pouparia explicações e mentiras desastrosas sobre onde ia e com quem. Eu ri ao comparar a situação com alguém que tem um amante, isso era ridículo.
Logo ouvi a buzina soar lá fora e sai rápido para a porta, mandando beijos no ar para a agora indignada Lauren perguntando aos gritos onde eu estava indo. Minha resposta foi o cantar de pneus do carro de Micael assim que adentrei o veículo. Qual é, Lauren não podia só ter calado a boca hoje? Malditas segundanistas.
Quando adentramos novamente aquele lugar malcuidado e cheio de armas nas paredes, Micael disse que não sabia quanto tempo passaríamos ali e o cara apenas assentiu com a cabeça. Mais uma vez, ele me ensinou os melhores jeitos para atirar. Conforme eu ia pegando o jeito, ia conseguindo acertar com mais frequência o alvo que queria.
- Dá próxima vez, vamos ao paintball, para você tentar fazer isso em movimento – ele avisou, passando o braço por meus ombros enquanto saíamos dali. Eu sorri com a ideia.
- Vai ser divertido – eu disse entrando no carro e observando ele dar ré para sair da vaga.
Já eram seis horas quando cheguei em casa e eu precisava urgentemente de um banho antes de começar a me arrumar.
Mas assim que saí do meu relaxante banho quente para o quarto lá estava Lauren no computador e começou a disparar por cima da música que o computador reproduzia perguntas como: “Quem veio te buscar? O vidro era muito escuro. Onde você foi? Por que eu não podia simplesmente ir com você? Por que demorou tanto?”
- Agora eu entendo por que as pessoas costumam odiar os irmãos – foi minha resposta.
Ela continuou tagarelando, mas minha mente foi para longe quando comecei a escolher o que vestir para sair com Arthur. Com certeza uma calça jeans era o mais apropriado. Escolhi uma de lavagem escura. Mas que camisa? Vasculhei o guarda-roupa até achar uma das novas, vermelha estilo polo, cheia de escritos brancos. Como o vermelho era forte seria mais apropriado um casaco escuro ou...
- Uma tal de “Mari” está perguntando por você – Lauren finalmente chamou minha atenção pelo nome que mencionou. – Por que ela tem meu e-mail?
- Eu passei para caso de emergência – disse indo até o computador para espiar. – Será que dá pra abaixar essa música?
- Belanova é legal, vai – ela reclamou mas mesmo assim abaixou o volume.
- Manda uma resposta avisando que mais tarde falo com ela – pedi me apoiando no encosto da cadeira dela. – E avisa que estou bem e viva.
Voltei para o armário e coloquei um colete de lavagem escura para combinar com a calça. Eu podia colocar o mesmo casaco que havia usado a tarde e que estava pendurado perto da porta da sala.
As sete e cinco meu celular tocou, o nome de Arthur constando no visor.
- Oi amor – atendi carinhosa.
- Estou te esperando aqui fora – ele avisou. – E o que você está querendo?
- Ahn... como assim? – perguntei desconcertada.
- Sempre que você faz essa voz e eu sei que carinha você deve estar usando, é porque quer alguma coisa – ele respondeu em tom normal.
É, talvez eu tivesse sido carinhosa demais ao atender.
- Não é que eu queira alguma coisa – me defendi dando os últimos retoques da maquiagem na frente do espelho. – Na verdade é a Rachel.
- Quem? – Arthur perguntou.
- Rachel – repeti impaciente. – A mãe da Lauren. Te disse isso na sexta.
- Ah, é – ele respondeu. Eu rolei os olhos para minha própria imagem. – O que ela quer, que você volte cedo?
- Ahn... é um pouco pior – fiz uma careta.
- Fala logo, Lu – agora ele quem estava impaciente.
- Ela quer conhecer você – eu avisei. – E o pai de Lauren já deve ter chegado da viagem de trabalho do fim de semana, então...
Houve um minuto de silêncio, no qual eu esperei ouvir os pneus de seu carro cantarem como os de Micael, anunciando que ele estava positivamente desistindo de mim. Como eu consegui adicionar a palavra “positivamente” nesta frase eu não entendi, mas vamos à parte importante.
Houve um suspiro do outro lado da linha.
- Foi culpa da Lauren, não minha – me antecipei a defender.
O ruim daquele quarto é que a janela era virada para os fundos da casa, e não para a entrada, então eu não tinha como saber se ele já estava indo embora silenciosamente.
- Ok – ele disse e desligou o telefone.
- Arthur, Arthur – chamei inutilmente para a linha muda.
Corri escada abaixo desesperada pela possibilidade de ele realmente ter ido embora. Mas antes que chegasse ao primeiro degrau, a campainha tocou. Meu alivio enfraqueceu minhas pernas por um instante, me fazendo desequilibrar por um segundo no corredor. Me recompus rapidamente e fui para a sala atender a porta. Mas Rachel foi mais rápida do que eu.
Eric, o pai de Lauren, que estava sentado no sofá, virou a cabeça para olhar quem estava cumprimentando tão educadamente sua esposa.
- Ah, você está ai – Eric disse se virando para mim. – Já estava começando a achar que tinha voltado para o Brasil – ele brincou.
Eu dei uma risadinha.
- Entre, entre – Rachel convidava fervorosamente Arthur.
Lauren apareceu pelo corredor.
- Veio assistir ao show? – sussurrei brava.
- Hey, maninha, relaxa – ela colocou a mão nos meus ombros e me balançou de leve.
- Boa noite, senhor – Arthur estendeu a mão para Eric que a apertou.
- Esse é o seu namorado? – Eric perguntou-me. Estremeci com seu olhar profundo, eu não estava acostumada com autoridade de pai em casa. Assenti com a cabeça, engolindo em seco. – Vão lá pra cima, gostaria de ter uma conversinha com ele.
- Vamos, meninas – Rachel me deu um sorrisinho e foi nos empurrando pelo corredor.
Lancei um olhar nervoso para Arthur antes de continuar e subir as escadas.
Tudo que eu pude ouvir foi ele pedindo a Arthur para sentar-se. Achei que iria ser ruim, mas nem tanto. Rachel nos deixou no quarto e voltou a descer para juntar-se ao marido. Comecei a roer minhas unhas e descascar o esmalte azul nelas.
- Lu, aproveita para falar com suas amigas – ofereceu Lauren nervosamente apontando para o computador.
- Ser boazinha agora não vai concertar as coisas – murmurei brava para ela.
Certo, eu estava estressada, mas também não era para menos. Mas eles também não podiam achar que eu iria ficar ali deitada na cama pensando na vida enquanto eles interrogavam ou sei-lá-o-que meu namorado, não é?
Girei cuidadosamente a maçaneta da porta, puxando-a vagarosamente. Ela deu um rangido curto, e fechei os olhos com medo. Mas os murmúrios lá embaixo continuaram, então concluí que não tinham me ouvido. Soltei o ar aliviada, puxando um pouco mais a porta para que pudesse passar. Dessa vez ela não rangeu, e eu passei me encolhendo por ela e seguindo na ponta dos pés pelo corredor até a ponta das escadas.
Lauren me seguiu e eu fiz sinal para que ela voltasse, mas ela ignorou. Desci três degraus, sentando encolhida ali e finalmente podendo escutar parte da conversa, mesmo com o maldito comentarista do jogo que passava na TV me atrapalhando.
Arthur iria ficar furioso com aquilo. Mesmo que eu soubesse que ele era educado o bastante para não demonstrar isso na frente deles, eu sabia que ele devia estar mais que desconfortável tendo que falar sobre sua vida para Eric e Rachel, que não paravam de lhe fazer perguntas. Se já era difícil para ele falar comigo, imagina com eles? Tomara que ele ainda olhe na minha cara quando sairmos. Quer dizer, se ele ainda quiser sair comigo.
- E o que você faz além de estudar? – perguntou Eric.
Eu quase ri ao pensar em uma resposta atrevida: como sua filha.
- Sou do time de futebol da escola, toco música e estou na equipe do decatlo acadêmico – ouvi a voz rouca de Arthur contar.
Ha, ha. Decatlo acadêmico? Eric não iria cair nessa nunca.
- Muito bem, meu jovem – ele parabenizou. – Atividades extracurriculares como essas são importantes. Deve ser difícil fazer tudo isso e ainda estudar, afinal as provas de lá não são nada fáceis.
- Mas se ele faz parte do decatlo quer dizer que ele consegue dar conta do resto – Rachel se manifestou.
Não acredito, alguém me explica como eles caíram nessa, pelo amor de Deus? Por acaso Arthur tinha cara de nerd? Qual é, ele colava de quem estivesse mais perto, fora que ele era repetente, então já conhecia a matéria. Ou pelo menos um pouco dela. E espera aí, eu tenho cara de quem namoraria um nerd? Diziam às vezes que eu era estranha, mas isso já era demais.
- Há quanto tempo vocês estão juntos? – Rachel perguntou.
- Um mês – ele respondeu com facilidade.
Eu me assustei. Estávamos juntos há tanto tempo assim? Eu nem tinha percebido o tempo passar... Ainda podia lembrar perfeitamente do nosso primeiro beijo, com todos os detalhes. De repente eu me senti com um calor que não batia com a temperatura fria daquele corredor e escada.
- E como é a relação de vocês? – Rachel perguntou e eu prendi o ar. Onde ele estava tentando chegar? Isso era invasão de privacidade!
Mas nessa hora o comentarista do jogo começou a falar mais alto, e eu não conseguia mais ouvir direito o que eles falavam. Desci cuidadosamente mais um degrau, tentando escutar o que pudesse, com Lauren em minha cola. Mas Lauren não foi tão cuidadosa quanto eu, pois escorregou e fez um barulho. E por mínimo que tivesse sido, pude escutar Eric pedir a Rachel que nos verificasse. Olhei com urgência para Lauren, fazendo sinais desesperados para que ela subisse rápido. Ela parecia não estar entendendo meus sinais, então passei por ela e corri o mais silenciosamente que pude para o quarto, tendo que esperar que ela entrasse para fechar a porta.
Corri para o computador, mexendo desesperadamente no mouse, abrindo o primeiro joguinho que vi. Lauren se largou na cama, olhando para o teto, como se estivesse fazendo isso há horas.
Alguns segundos depois, ouvi passos no corredor seguidos pelo rangido da porta se abrindo. Olhei para trás como se estivesse surpresa.
- Pronto, já podemos descer? – perguntei a Rachel.
A expressão em seu rosto não era brava, mas também não era feliz.
- Não – ela respondeu. – E esperem aqui até eu vir chamar ou teremos problemas, mocinhas – e fechou a porta novamente.
Esperei até que os passos no corredor sumissem para poder voltar à porta e girar cuidadosamente a maçaneta de novo.
- Está maluca? – perguntou Lauren se sentando na cama. – Não ouviu a mamãe?
- Ouvi – eu disse dando de ombros. – E você ouviu as perguntas que estão fazendo a ele, eu tenho que saber o que está acontecendo lá!
- Você não vai querer ver a mamãe brava – avisou Lauren. – Os castigos dela não são nada agradáveis, é sério.
- E que você quer que eu faça, espere sentada? – perguntei, minha voz começando a ficar alterada devido ao meu nervosismo.
- É sua única opção – Lauren levantou as sobrancelhas.
Eu estava desesperada, mas talvez ela estivesse certa. Ficar de castigo por aqui não seria legal. Voltei ao computador para poder falar com minhas amigas.
Mari: Finalmente! Achei que você tinha morrido!
Mari, a exagerada.
Lu: Mas você recebeu um e-mail avisando que eu estava viva.
Mari: Mas isso só faz alguns minutos! E talvez estivessem só tentando me consolar.
Lu: ¬¬
Liz: Oi, oi, oi!
Era isso que amava na Liz, seu jeito alegre e despreocupado.
Lu: Oi! Saudades!
Liz: Hey, achei que tivesse nos esquecido :(
Lu: Desculpa, estou realmente sem tempo. Quando entro na internet é só pra fazer trabalho.
Mari: Imagino, aí deve ser difícil.
Liz: Aposto que deve ser divertido.
Lu: Divertido? Meu namorado está lá embaixo sendo interrogado, como isso poderia ser divertido?
Elas demoraram a responder.
Liz: Se ferrou.
Lu: Valeu aí pela força.
Mari: Que bom, pelo menos ele vai te respeitar como deve.
Lu: Falando nisso... ahn, vocês têm visto aquela pessoa por aí?
Mais um silêncio, dessa vez tão longo que achei que elas haviam desconectado.
Liz: Você quer realmente saber disso? Eu não acho uma boa ideia tocar no assunto...
Lu: Fala aí.
Era desconfortável, mas eu queria saber. Eu era curiosa demais para não querer.
Mari: Lu... pelo jeito você não tem visto minha página, né...
Lu: Como assim?
Liz: Você não deve ficar chateada com isso, quero dizer... Nós... nós não pudemos evitar... ele foi se aproximando de nós... e, ele é tão sincero e carinhoso com ela...
Mari: Lu, eu sinto muito. Mas ele não é tão ruim quanto parece, sabe... só precisava de uma chance para...
Lu: Vocês entenderam de quem estou falando? Estou falando do Jack.
O nome dele não tinha nada a ver com o apelido, mas todos insistiam que meu ex-namorado tinha a cara do Leonardo DiCaprio, por isso colocaram o apelido do personagem mais famoso que ele havia interpretado. As imagens de nós dois juntos voltaram à minha mente, mas elas eram automaticamente manchadas de sangue. Senti como se a cicatriz em minha perna formigasse.
Mari: Nós entendemos.
Levei um choque, relendo nossa conversa. Se aproximando? Do que elas estavam falando? Como assim?
Abri mais uma pagina na internet, procurando pelo site pessoal da Mari. Mariana Queiroz, a página foi se abrindo vagarosamente, carregando as fotos mais chocantes que eu nunca poderia ter imaginado ver novamente. Eles estavam juntos.
Mari, Jack e Liz. Constava na legenda da primeira foto, onde Jack estava com os braços em cima dos ombros das duas, e todos sorriam.
Meu ar sumiu, mas continuei a rolar a página para baixo.
Liz e Rafael. Eles não são um casal lindo?
A foto era dos dois juntos, dando um selinho em meio a um sorriso.
Rafael? O cara que tinha nos emprestado a casa e que encobriu tudo o que o amigo havia feito, e que mesmo sabendo o que havia acontecido, tinha ficado calado? Não pode ser, eu devo estar em um pesadelo.
Mari e Jack. Estava escrito na legenda de outra foto, em que os dois estavam se beijando, quase se engolindo. Senti o nó que havia se formado em minha garganta piorar ao continuar a ler a legenda. Eu te amo.
Voltei à janela em que conversava com as duas.
Lu: Por que vocês estão fazendo isso? O que são aquelas fotos?
Mari: Lu, me desculpa! Ele tentou de todo o jeito ter contato com você e... bom, nós acabamos juntos, foi inevitável. Entenda, nós nos amamos.
Liz: Lu, eu sei que vocês não se deram bem, mas eles estão felizes juntos.
Eu funguei, desesperada. Aquilo era um pesadelo, tinha que ser. Minhas melhores amigas me traindo? Não, não podia ser.
Mais uma vez as imagens com as quais eu lutava há tanto tempo para desaparecerem de minha mente estavam lá, vividas e dolorosas.
Lu: Vocês duas estão malucas? Eu tive que mudar de país por causa dele, porque ele me perseguia, porque ele...
Mari: Lu, pare de exagerar. Nós entendemos que tenha aparecido essa oportunidade maravilhosa para você sair do país e que coisas horríveis haviam acontecido entre vocês... mas você estava alcoolizada naquele dia, pode ter misturado um pouco as coisas.
Lu: O quê? Eu tinha bebida uma lata de cerveja, e você sabe que eu não fico bêbada fácil. Eu sei muito bem o que aconteceu, e vocês também. Mari, se toca, ele é perigoso!
Mari: Não, ele não é. Sabemos que você tinha usado coisas naquele dia Lu, não adianta fingir que não. Ele gostava realmente de você, você sabe disso, ele seria incapaz de te fazer mal.
Liz: Mari, para.
Lu: Que tipo de coisas? Do que você está falando.
Mari: Drogas Lu, é disso que estou falando.
Liz: Mari, chega.
Mari: Não Liz. Ele nos contou. Lu, nós somos suas amigas, não deveria esconder essas coisas da gente.
Lu: Mari, você está vendo o que está dizendo? Ele está fazendo isso com vocês, a mesma coisa que fez comigo. Ele está te cegando. Isso não é certo, não entendo por que estão fazendo isso comigo! Você sabe que ele só está perto de vocês para me achar! Pelo amor de Deus, você tem que ficar longe dele.
Mari: Não, Lu. Durante quase um ano eu fiquei quieta, assistindo a felicidade de vocês dois. Estou cansada disso, de ainda ter que ouvir ele chamar seu nome quando dorme. Será que você não pode parar com isso e nos deixar ser feliz? Você devia ter vergonha de si mesma, inventando tudo aquilo.
Liz: Por favor, parem com isso!
Lu: Mariana, você viu como eu fiquei machucada, como ele acabou comigo! Por que isso agora? Não estou te entendendo, você não é mais a amiga que eu conheci.
Liz: Mari, é verdade, você viu como ela ficou.
Mari: Liz, você está tão próxima dele quanto eu, então nem venha. E ele disse que ela se cortou quando caiu.
Lu: Nossa, meu rosto ficou com aquele hematoma por que eu caí também? Eu imaginei tudo aquilo, então? Você não sabe pelo que eu passei, sua cretina.
Mari: Não me importa. O que quer que tenha sido, passou, é passado. Ele mudou, ele nunca foi violento comigo. Pare de tentar estragar a minha felicidade.
Liz: Lu, me desculpa.
Lu: Vão se ferrar. Vocês duas estão merecendo a companhia que tem. Só não me entreguem, por favor. Quero viver minha vida aqui em paz e, pelo jeito, não tenho mais motivos para voltar ao Brasil se puder evitar. E não venham chorar mais tarde, quando acontecer alguma coisa ruim, pois eu não vou querer escutar. Vocês merecem o inferno em que logo estarão.
Desconectei antes que pudesse ouvir mais, pois não podia suportar. Lauren correu até mim, quando comecei a soluçar alto, com dificuldade para respirar e minha visão totalmente embaçada. Ela me abraçou desesperada com um braço e mexeu no computador com o outro.
- É ele, não é? – ela sussurrou para mim, vendo a página ainda aberta com as fotos. Assenti com a cabeça, o choro se intensificando. – E quem é ela?
- Minha – solucei. – Minha melhor – solucei novamente. – A-amiga.
Eu não conseguia respirar direito, tudo parecia sufocante.
O ar sempre está ali, lembrei das palavras de Micael, você só tem que puxá-lo.
Eu tentei sugar o ar com todas as minhas forças para dentro dos pulmões.
Lauren se desesperou e correu para fora do quarto, gritando no corredor que eu estava passando mal e que precisava de ajuda.
Ótimo, agora eu iria ser expulsa por ser uma maluca.
Eu ainda não conseguia puxar o ar para dentro dos pulmões e tudo a minha volta só ficava mais e mais turvo. Houve barulho de passos rápidos e fortes pelo corredor.
- O que houve? – perguntou Arthur colocando seus braços a minha volta, e de repente eu senti como se um escudo me protegesse, me senti em segurança.
- Aquele cara do Brasil, o que atacou ela – Lauren falava rápido e eu não tinha forças para mandá-la calar a boca. – Ele está com a melhor amiga dela.
Ele olhou para a tela do computador, suas feições de repente assustadoramente duras, mas eu me aconcheguei em seu peito sem medo. Eu sabia que ele era a última pessoa na Terra que me faria mal.
Ele passou as mãos por meus cabelos, acariciando-os.
- Estou aqui meu amor – ele sussurrou em meu ouvido. – Estou aqui com você. Só respire.
Eu fiz força para puxar o ar, e dessa vez estava dando certo. Minhas mãos e rosto formigavam, mas eu estava voltando a conseguir respirar.
- Ela está bem? – ouvi a voz preocupada de Rachel, mas continuei de olhos fechados, encostada no peito largo e confortável de Arthur. – O que aconteceu?
Lauren repetiu a explicação, mas eu não dei atenção. Tudo o que me importava era que Arthur estava ali para me proteger.
Fiquei assim até me acalmar totalmente, só então levantando a cabeça e secando as lágrimas.
- Viva a maquiagem a prova d’água – brinquei, admirando o rosto lindo de Arthur, apesar da dor disfarçada nele.
- Você já está realmente bem? – ele perguntou me encarando sério e preocupado.
Assenti com a cabeça, dando um sorriso franco. “Preciso de um pouco de ar fresco, vamos sair logo”, pedi.
- Certeza? – ele ainda estava preocupado comigo.
- Tenho – confirmei e ele dei um beijo em minha testa.
- Não acho uma boa ideia você sair – protestou Rachel cruzando os braços.
- Com certeza não – Eric apoiou.
- Eu só quero esquecer tudo isso – pedi a Rachel, usando minha carinha de cachorrinho sem dono. – Por favor? – insisti com uma vozinha persuasiva.
- Não sei... – ela refletiu, mordendo o lábio inferior.
- Prometo tomar conta dela – disse Arthur, continuando a me abraçar enquanto eu levantava.
- Podem ir – Eric foi quem se manifestou, para minha surpresa.
Eu sorri, e Rachel não protestou dessa vez. Puxei Arthur para fora do quarto antes que eles desistissem de deixar.
BÔNUS!Capítulo 18 - The Only Exception
[n/a: Baixem We’ll be together – Ashley Tisdale]
Colocamos nossos patins e entramos no ringue de gelo, Arthur segurando minha mão. Eu mal conseguia me manter de pé sozinha e não queria largar de jeito nenhum a barra que ficava nas laterais, por mais que ele insistisse.
- Você nunca vai aprender, se não soltar da barra – ele insistiu mais uma vez, enquanto eu tentava deslizar desajeitada adiante, ainda segurando a barra como se minha vida dependesse daquilo. – Vamos, baby, eu te ajudo.
- Não, Arthur, estou acostumada com praias, mesmo que não goste delas – reclamei, escorregando um pouco e me agarrando ainda mais firmemente ao ferro. – Isso daqui é perigoso demais, eu posso cair e quebrar alguma coisa.
- É por isso que falei pra você continuar de casaco – ele deslizou com facilidade à minha frente e me prendeu, colocando um braço de cada lado meu na barra. – Vem, Lu, você tem que tentar. Eu te ensino, é super fácil.
- Fácil pra quem está acostumado – reclamei com a respiração falhando. Isso estava acontecendo com maior frequência cada vez que Arthur chegava muito perto de mim. – Eu nunca vou conseguir fazer isso.
Ele bufou irritado e tirou seus braços do meu redor, me virando as costas e patinando para longe. Eu continuei a observá-lo, fascinada pela facilidade com a qual ele deslizava pelo gelo, por entre as outras pessoas. Ele voltou a se aproximar espirrando um pouco de gelo em mim e voltando a me trancar com seus braços.
- Você não confia em mim? – ele penetrou minha alma com aquele par de olhos castanhos, fazendo meu coração dar solavancos. Ele segurou minhas duas mãos, me puxando devagar com ele. – Deslize um pé de cada vez, fazendo uma pequena abertura para fora – eu continuava hipnotizada por seus olhos, fazendo o que ele orientava. – Viu, amor, não é tão difícil – ele sorriu.
Eu não pude conter um sorriso de volta, e essa distração me rendeu um belo escorregão, no qual eu podia dizer que o casaco que ainda estava vestindo, por insistência de Arthur, me salvou de qualquer arranhão. Ele riu de mim, me ajudando a levantar, depois continuou me puxando pela pista de gelo por mais uma meia hora, como se estivéssemos dançando. Não que eu já não conseguisse patinar sozinha, mas agora simplesmente não queria. Ele deu uma mordida forte em minha bochecha, e de repente me deixou xingando sozinha enquanto deslizava para longe. Eu fiquei estática no lugar, com medo de continuar sozinha.
- Que foi, tá com medo de cair? – ele provocou de um modo infantil.
- Não! – retruquei mais infantilmente ainda, começando a deslizar para ele, mesmo sem muita velocidade.
Ele mostrou a língua para mim e continuou a deslizar, enquanto eu o seguia. Ele não acelerou tanto quanto eu sabia que conseguia, apenas o bastante para me fazer continuar a persegui-lo. Quando finalmente cheguei até ele, pronta para revidar a mordida de alguma forma, ele me levantou no ar e me beijou, encostando um pouco na barra logo atrás dele como apoio. Sem demora, permiti a passagem de sua língua para encontrar com a minha, sentindo o calor predominar sobre o frio, como se fosse capaz de derreter o gelo abaixo de nós.
Ele quebrou o beijo, me deixando desesperada por mais, mas eu me controlei.
- Tenho uma coisa pra você – ele disse com um sorriso carinhoso, afastando uma mecha de cabelo minha do rosto.
Eu franzi a testa, brava. “Achei que você tinha prometido que não ia comprar mais nada pra mim.”
- Eu já tinha quando te prometi, então não estou quebrando a promessa – ele deu um sorriso maroto. – E é especial, pelo menos pra mim – continuei com a testa franzida, o encarando. – Vem aqui – ele me puxou pela mão novamente para a pista, sem quebrar o contato visual. [n/a: Coloquem pra tocar!] Eu reconheci a música que tocava nos alto-falantes espalhando pela pista “We’ll be together”, da Ashley Tisdale. Eu amava aquela música, e ela fez com que minha raiva diminuísse. Quando chegamos ao meio da pista, ele se abaixou, se apoiando com apenas um joelho no chão. Fiquei sem reação enquanto ele tirava do bolso uma caixinha aveludada e a levantava. – Mesmo que já estejamos namorando – ele abriu a caixinha, revelando duas alianças pratas –, achei isso uma coisa importante.
Eu o olhei estática, e abrir a boca foi minha única reação. Ele voltou a se levantar, sorrindo, e eu sorri derretida para ele.
- Mas eu achei que – ele pegou minha mão e eu levantei os dedos, para que ele pudesse colocar a aliança, que se encaixou perfeitamente – com aquela coisa toda de estarem atrás de você, e do barco, você me mandaria embora.
Meu coração doía insuportavelmente só de pensar nisso.
- Eu tentei – ele confessou com um suspiro. Eu peguei a outra aliança na caixinha e coloquei em seu dedo devagar. – Passei noites pensando em como fazer isso. Mas descobri que nunca iria conseguir. Eu não entendo como pode doer tanto só pensar nisso. Sabe, eu não tinha muitos motivos para sorrir antes de te conhecer – ele me deu um selinho. – Agora eu descobri que não teria motivos para viver se ficasse longe de você. – Só percebi que uma lágrima havia escapado de meus olhos quando Arthur passou as costas da mão em minha bochecha, secando-a. – Eu te amo.
- Eu também te... – mas antes que pudesse terminar, seus lábios calaram os meus em um beijo árduo.
O som da música foi transposta por outro barulho: palmas. Eu tentei me separar dele para que pudesse ver o que estava havendo. Estavam nos assistindo e eu nem percebi? Mas ele não deixou, apenas me segurou forte pela cintura, me fazendo esquecer o que quer que pudesse estar acontecendo em volta. Nós continuaríamos juntos, acontecesse o que fosse, e isso era tudo o que eu poderia desejar.
Eu não sabia se considerava que minha semana havia começado bem ou se havia começado mal. Se eu considerasse que ela começou no domingo, isso me deixava mais confusa ainda, pois aquele dia havia sido terrível, e ao mesmo tempo lindo e inesquecível. Se eu considerasse que ela havia começado na segunda, eu diria que não seria a semana dos meus sonhos, pois Brooklie simplesmente estava de volta à escola. Que tipo de suspensão dura um dia? Isso era ridículo. Ela merecia passar o resto do ano suspensa, se pedissem minha opinião.
Micael continuava a sugar o pouco de energia que eu ainda tinha depois dos treinos e dos ensaios, mas eu já estava notando uma grande melhora de minha parte. Quando eu fosse realmente boa nesse negócio de bater nos outros, a primeira pessoa que eu iria acertar seria ele. Depois eu o agradeceria. Agradeceria porque tudo aquilo era o escape perfeito para tudo o que havia acontecido de ruim no fim de semana. Eu deixava que aquelas imagens malditas viessem à minha cabeça, e isso me dava mais determinação para aprender.
Eu só queria ficar perto de Arthur, mas cada vez que isso acontecia, tínhamos livros e cadernos em mãos para fazer algum trabalho estúpido que algum professor mais estúpido ainda havia nos passado.
De quarta para quinta, troquei de quarto com Micael para poder pelo menos dormir. Bom, sinceramente, eu achei realmente que iríamos apenas dormir, de tão cansada que eu estava. Meus olhos já estavam se fechando pesadamente quando Arthur saiu do banho e deitou ao meu lado, balançando os cabelos e espirrando água na minha cara. Saí de baixo das cobertas para reclamar, e quando o fiz, parei no meio de alguma palavra impossível de ser recordada, notando que ele estava somente com uma toalha branca enrolada na cintura; foi a oportunidade perfeita que ele aproveitou para me beijar e depois partir para meu pescoço. Cansaço nenhum seria suficiente para me fazer pedi-lo para que parasse.
Isso era uma coisa que eu não entendia, pensei ao acordar na quinta-feira e passar uma mão pelos cabelos de Arthur, observando-o dormir tão profundamente quanto uma criança. Como eu queria sexo tanto quanto ele, como eu havia cedido tão fácil, tão rápido. Olhando sua face tranquila, eu sabia que seria impossível tentar resistir a ele, mesmo que eu quisesse. Mas não era só pela beleza, afinal, meu ex-namorado não era nada feio. Se eu fui tão aos poucos com Jack, se eu não realmente desejava transar com ele mesmo antes de ele ter me machucado daquela maneira, como é que não conseguia ter medo de Arthur?
Jack me tratava de maneira romântica e tudo mais, mas talvez eu já soubesse como ele realmente era, no fundo. Talvez eu soubesse por tamanha convivência que nós tínhamos, talvez eu pudesse apenas ter sentido o que estava por vir. Ou talvez eu só não estivesse pronta, talvez ele não fosse o cara para mim, de qualquer jeito. Ele tinha um jeito estranho de demonstrar seu amor, às vezes.
Com uma lágrima solitária escapando de meus olhos, me lembrei daquela noite, encarando o rosto de Arthur, mas não o vendo mais, realmente. Aquilo não havia sido tão repentino quanto eu achei que havia sido. Jack estava me tratando de um modo autoritário já havia algumas semanas, mas eu achei que era simplesmente estresse...
- Lu? – Arthur me chamou, e eu levei um susto ao ser arrancada de minhas lembranças. Ele me observava com a testa franzida, e limpou as lágrimas de meu rosto com as costas das mãos. – Hey, pequena, não chora. Não te faz bem pensar nisso.
- Como você sabe no que estava pensando? – dei um sorrisinho para ele, feliz por me concentrar em seu rosto novamente.
Seus olhos se aprofundaram nos meus.
- Está através de seus olhos – ele disse me puxando para mais perto e me dando um beijo na testa.
- Eu ainda vou descobrir o que você me esconde, Arthur – eu disse, me aconchegando em seu peito.
- Como assim? – eu podia ouvir sua voz rouca reverberava dentro de seu peito.
- Você não me pressionar a te contar nada – me apoiei nos cotovelos e virando para enxergar seu rosto confuso. – Você não me pressiona nem um pouco, e eu gosto disso. Sua paciência comigo é tão... não sei, confortadora. Mas eu sei que por trás dela tem alguma coisa que você não quer me contar.
Ele se mexeu desconfortavelmente na cama e me encarou por um longo minuto.
- Não é que eu não queira – eu podia ver um resquício de dor em sua expressão.
- Desculpe, eu formulei a frase errada – dei um sorrisinho triste. – Não estamos prontos para detalhes, pois nós dois sabemos do que se trata.
Ele assentiu lentamente com a cabeça, olhando para algum ponto além de mim.
- Hey – um sorriso pervertido insistia em meu rosto enquanto passava a mão por seu tórax descoberto por baixo da coberta. Ele me observou com uma expressão indistinta. – O que você acha de matarmos a primeira aula? – minhas unhas fizeram um leve contato com sua pele e eu o senti contrair a região e seus olhos fecharam por breve segundo. Antes que fosse possível contar o tempo, ele já estava em cima de mim, me beijando arduamente.
O resto dos dias passou tão rápido que me assustei quando Mel surtou porque eu ainda não tinha uma fantasia. Pra que eu iria querer uma fantasia? Pra uma maldita festa de Halloween para a qual Chay havia nos convidado. É claro que eu estava ouvindo comentários sobre festa e as discussões sobre as fantasias fazia umas duas semanas, mas não tinha levado realmente a sério. Qual é, quem iria a uma festa a fantasia? Bom, pelo jeito, todos os meus melhores amigos. E eu só estava me dando conta disso agora.
- Você pode ir de brasileira – Sophia se intrometeu. Arthur não se manifestava para me ajudar, apenas enfiava mais comida na boca, como se estivesse tentando tapá-la de propósito. Voltei minha atenção para Sophia, sem entender a sugestão. – É só você pegar uma bandeira do Brasil e fazer um vestido com ela.
- Perfeito! – exclamei, ironizando em seguida: – Você pode pegar a cortina da sua casa e fazer um vestido com ela.
Ela deu língua. “Só estava tentando ajudar.”
- Ninguém vai vestida de cortina ou bandeira nessa festa! – reclamou Mel.
- Mas eu nem conheço o dono da festa! – protestei. – Seria praticamente entrar de penetra.
- Eu nunca entraria de penetra em uma festa! – indignou-se Mel.
- Você não é considerada penetra porque pega um dos convidados – ela abriu a boca para me responder, mas não saiu nenhuma palavra. Ela balançou o cabelo e espetou a comida com raiva.
Aproveitei para dar mais uma boa garfada na comida também, eles sempre me atrapalhavam quando estava comendo.
- Vocês não são penetras – Chay parecia de saco cheio. – Ele me mandou convidar vocês. Eu disse quantos eram e ele respondeu que quanto mais, melhor.
Engoli a comida antes de falar. “E se o James não gostar de mim? Ele pode me expulsar da festa.”
Chay rolou os olhos. “O James é legal, você vai ver. Mesmo sabendo que não tem como não gostar de você, vocês dois se dariam bem.”
- E o que importa o que ele vai achar de você? – Arthur parecia zangado, me pegando de surpresa.
- Ahn, ele é o dono da festa – respondi.
- Nós vamos à festa, mas você que não desgrude de mim – ele falava sério.
Ergui as sobrancelhas, indignada. Maker soltou um “ui”.
- Isso aqui é uma aliança – mostrei minha mão a ele, enfezada. – Não uma coleira.
Me levantei da mesa com o nariz em pé. Ele não iria mandar em mim. Eu sabia por que isso me deixava nervosa, mas não quis pensar nisso. Comecei a me afastar da mesa. Olhei em volta e todos comiam em meio ao barulho de conversa. Eu não tinha chegado nem na metade do meu prato ainda, e eu pude sentir a fome falar mais alto que meu orgulho, até eu não aguentar mais e me virar de volta para mesa.
Todos me encaravam surpresos na mesa, enquanto eu voltava a me sentar.
- Lu, você não acha que tem comido um pouco demais, não? – perguntou Mel, totalmente indiscreta enquanto eu enchia minha boca de comida, me sentindo feliz novamente.
Mastiguei com dificuldade, sentindo minhas bochechas esquentarem. Finalmente engoli, todos eles ainda me observando, em silêncio.
- Eu tenho fome, qual o problema?
- É que... – ela parecia estar sendo cuidadosa agora – bem, você não está exatamente engordando.
- Que bom, né – eu disse, feliz em saber que ainda era considerada magra.
- Acho que é pelos treinos – todos olharam para Micael e eu prendi o ar. – De líder de torcida – ele completou.
A comida ficou presa na garganta e corri para o suco em caixinha na minha frente.
- Não acho que seja só isso – Mel disse. – Eu também sou líder de torcida e não como desse jeito.
- Elas acham que você está vomitando – todos olharam para Maker. Eu engasguei com o suco. – Que é? – as meninas olhavam feio para ele agora. – Eu ouvi vocês falando – e voltou para mim: – Elas acham que você tem bulimia.
Nas últimas semanas eu havia vomitado umas três, quatro vezes no máximo. Mas eu não tinha forçado nada. Eu não tinha isso. Todos me encaravam, um silêncio incômodo tomou conta da mesa.
- Vocês não estão falando sério? – retruquei. – O Arthur também come assim! – apontei para o mesmo, que parou com o garfo na metade do caminho para boca.
- Mas ele é homem – disse Ane.
- Eu não tenho bulimia – cruzei os braços, emburrada.
- Você diz que vai à academia lá do prédio, mas eu nunca te acho lá – Sophia disse, e eu a olhei sem acreditar.
Arthur agora me encarava friamente, esperando uma resposta. Fingi não notá-lo.
- Você tem tonturas – disse Chay.
- Isso é um complô contra mim? – perguntei incrédula. – Parem com isso, eu não tenho nada – voltei à minha comida, mas ainda sentia os olhares sobre mim. – E parem de me olhar!
Após mais ou menos um minuto em que concentrei minha atenção somente na comida, eles voltaram a conversar.
Não era como se eu não tivesse notado o quanto eu comia, mas vamos lá, eu não parava quieta o dia todo. E é claro que os treinos de Micael deveriam ser tão responsáveis quanto os de líder de torcida em relação à queimação das minhas calorias. Mas é claro que eles não sabiam disso, então, a preocupação deles era quase justificável.
Eu já havia até me esquecido de que precisava inventar alguma coisa quando encontrei Arthur fora do ginásio, me esperando. Sorte minha ter tido tempo para uma chuveirada no vestiário antes que a aula acabasse.
Sorri e fiquei na ponta do pé para dar um selinho nele, mas ele virou a cara, me deixando dar um beijo apenas em sua bochecha.
- O que foi? – coloquei as mãos na cintura.
Em um movimento rápido ele me colocou contra a parede que antes estava, uma das mãos na parede ao lado de meu ombro esquerdo. Minha respiração falhou quando ele se aproximou.
- Será que você pode me explicar o que está acontecendo? – ele exigiu.
Encarei duramente seu olhar de volta, mas sentindo meu estômago embrulhar.
- Não sei do que você está falando – tentei transmitir o máximo de segurança possível em minha voz.
- Você sabe muito bem.
O sinal soou estridente. A porta do ginásio se abriu, e minha turma de educação física saiu fazendo estardalhaço ao passar pelo corredor, inclusive Brooklie.
Sim, mesmo ela não sendo mais líder de torcida, eu era obrigada a aguentá-la nas aulas de educação física. Ela passou atrás de Arthur e ele deu um passo para mais próximo de mim, com uma feição raivosa. Eu não precisava ver pra saber o que ela tinha feito: passado a mão na bunda dele. Senti meu sangue entrar em combustão dentro de mim quando ela virou, andando de costas agora, e mandou um beijo para ele.
Meus instintos me empurravam direto para cima dela, mas o braço de Arthur ao lado de meu ombro desceu e me segurou firmemente.
- Vamos para outro lugar – ele me puxou em direção às portas que davam para os fundos do colégio, a expressão nada amigável em seu rosto.
- Pira... – eu gritei com raiva para Brooklie, mas Arthur tapou minha boca antes que eu terminasse.
Tentei morder sua mão, mas ele apenas riu, fazendo conchinha com ela para que meus dentes não a alcançassem. Chutei sua canela, e, aproveitando que ele havia sido pego pela surpresa e pela dor e soltado destapado minha boca, continuei a xingá-la aos berros.
Arthur se recuperou e voltou a tapar minha boca, me arrastando para fora da escola. Ele voltou a me socar contra a parede, e eu senti minha coluna reclamar.
- Qual é o seu problema, Lua? – ele perguntou sério. Abri a boca para responder, mas ele me cortou antes que eu começasse a me defender. – Você sabe que quanto mais você der atenção, mais ela vai provocar. Uma das coisas que ela mais ama é atenção.
- Desculpe, se eu não quero que ela fique passando a mão no meu namorado! – ironizei ainda irritada.
Ele revirou os olhos. “Como se ela nunca tivesse encostado em mim antes” ele murmurou.
Eu o olhei de boca aberta, totalmente ofendida. Me virei para sair, mas lá estavam seus braços à minha volta novamente, me impedindo.
- Desculpe, desculpe – ele se apressou a dizer. – Prometo que não vou mais deixar isso acontecer, ok?
- Já não devia acontecer – o encarei séria.
- E desde quando você perde o controle desse jeito? – ele perguntou, me pressionando contra a parede. – Você está se irritando fácil demais, ultimamente – ergui as sobrancelhas para ele. – Não, não quero dizer agora, exatamente. Estou falando no geral. E ainda tem esse negócio de você estar comendo tanto e não engordar.
- Algumas pessoas simplesmente comem e comem, e não engordam! – me defendi, sentindo uma tristeza estranha tomando o lugar da raiva. – Está relacionado ao metabolismo e...
- Você costumava controlar o que comia quando te conheci – ele me cortou. Por que ele adora tanto me cortar? – E ficava desesperada quando começava a engordar. O metabolismo de ninguém muda desse jeito se não houver uma razão. Você tem que me contar o que está havendo.
- Eu tenho teatro, sou líder de torcida, a cada cinquenta e cinco minutos tenho que trocar de sala, estudo que nem uma condenada, e depois de tudo isso ainda sou obrigada a... – me calei, sentindo meu escorregão. Eu quase contei sobre Micael. Arthur estava aguardando minha conclusão, engoli em seco antes de terminar. – Malhar.
- E aí vem a pior parte – ele disse. – Porque você não está malhando. Sophia deixou isso bem claro. Você está mentindo para ela, e eu não esperava por isso, para mim. – Certo, eu também não esperava por essa. – Eu quero saber exatamente o que está acontecendo.
Seus olhos pareciam tentar penetrar nos meus novamente, mas desviei meu olhar do seu, com medo que ele enxergasse a verdade neles.
- Lu, assim não dá – ele continuou. – Só vejo duas possibilidades: Ou você não confia em mim o suficiente, ou você está escondendo alguma coisa realmente ruim de mim.
- Talvez eu só queira um pouco de espaço – me esquivei instintivamente.
- Espaço? – ele perguntou incrédulo. – Você tem o seu espaço. Você tem o seu tempo com suas amigas e pra tudo que você quer. É tão difícil assim, pra você, me contar o que há de errado? Estou tentando te ajudar. Aliás, não só eu. Desculpe, se eu gosto de saber que você está segura quando não posso estar lá para te proteger.
- Mas que saco, Arthur – de repente notei que estava gritando, lágrimas haviam tomado conta de meus olhos, mas eu não fazia ideia de onde toda essa raiva vinha. – Eu não preciso ser vigiada vinte e quatro horas. Não preciso da proteção de ninguém, eu já sei me defender sozinha. Não preciso de ninguém me rondando. Vocês estão me sufocando!
- Então é isso que você quer? – seus olhos estavam tão enraivecidos quanto os meus. – Espaço? Ok – ele apontou para minha face –, é isso que você vai ter – virou as costas e andou apressado para longe de mim.
Deixei meu corpo escorregar pela parede atrás de mim, chorando.
Achei que aquilo era só mais uma briga, como todo casal tem. Eu já havia passado por isso antes. Mas Arthur era diferente, e agia diferente do que eu esperava. Na aula de história, ele não apareceu e, na hora do almoço, ele não olhou diretamente para mim sequer uma vez.
Quando terminamos de comer, nosso grupo, como em geral, se deslocou para os dormitórios. Aproveitei para me aproximar de Arthur, que caminhava lentamente atrás de nós com as mãos no bolso.
- Desculpa, eu estava meio estressada, ontem – eu disse, andando ao seu lado.
Ele continuou sem me olhar. “Não me importo por você se irritar, por você gritar, por você se debater ou o que for, só quero que você me conte.”
- Arthur, não há o que contar – observei-o, e sua feição se fechou.
- Então acho que você precisa de mais espaço – ele apressou o passo, se distanciando de mim e juntando-se aos amigos.
#Comentem :)

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