Capítulo 6 - No Worries
- Dude, para de olhar pra trás e me ajuda aqui! – eu exigi, vendo Sophia virar a cabeça para trás pela milésima vez naquela aula. Ela sempre fazia isso, era irritante.
- Oi? – ela perguntou, meio confusa. Em que mundo essa garota vive?
- Eu não entendi isso aqui – eu apontei para o meu caderno. Enquanto ela me explicava, a peguei olhando rapidamente para trás novamente. Eu olhei para trás e me deparei com Micael. Certo, haviam várias outras pessoas ali, mas Micael era bem mais notável, fato.
- Eu acho o Micael bonito – eu disse, distraída.
- Engraçadinha – reclamou Sophia, e eu a olhei sem entender.
- Qual o problema com ele?
- Além de que a Brooklie tomou posse e de que ele é um idiota, nenhum – ela disse com raiva.
- Eles são namorados – eu disse, rolando os olhos. – E ele não me parece tão idiota.
- Namorados? Qual é! – ela respondeu, copiando a matéria do quadro, enquanto a ponta de sua lapiseira quebrava algumas vezes. – Eles pegam geral, eles nem são namorados de verdade. É totalmente ridículo.
- Como assim? – eu perguntei, franzindo a testa. - É um relacionamento aberto?
- Deve ser – ela bufou. – Quer dizer, ela é ex-namorada do melhor amigo dele, isso já é bem estranho pra mim.
- Quem? – eu perguntei apertando uma de minhas mãos.
- Dã – ela zombou. – O Arthur. Vai me dizer que sua amiguinha nunca contou?
- Namoraram? E o que aconteceu? Há quanto tempo? – eu disparei sem conseguir me controlar.
- Ano passado – ela disse, apertando novamente a lapiseira, cuja ponta tinha quebrado. – Mas eu não sei muita coisa, eu comecei esse ano aqui também, lembra?
- Ahn, ok – eu murmurei voltando a copiar a matéria silenciosamente.
Quer dizer que Arthur e Brooklie namoravam, e agora ela “namorava”, ou seja lá o que fosse, o Micael? E ela havia feito os dois repetirem de ano. Isso é estranho. As pessoas daqui são estranhas de qualquer jeito, mas eles superam. Será que era por isso que Arthur me escondia, porque ele não queria que ela soubesse? Porque ele ainda gostava dela, mas ela estava com o melhor amigo dele?
Durante o almoço eu passei rapidamente pela mesa de Brooklie, preferi ficar com Sophia e os outros. Eles me faziam sentir como se estivesse em casa.
- Suede – eu disse, irritada. – Se você tacar mais alguma coisa em mim, juro que vou te fazer engolir!
Ele não parava de jogar mini bolinhas de papel em mim, e aquilo estava ficando chato. Ele esperou até que eu estivesse distraída e tacou mais uma, me desafiando. Eu peguei três bolinhas do chão e me levantei, dando a volta na mesa e comecei tentar enfiar a bolinha na boca dele, enquanto ele segurava meu braço.
- Eu não joguei! – ele se defendia. – Foi o Maker, eu juro!
Eu fiz mais força tentando enfiar a bolinha na boca dele, e ele teve que segurar meu pulso com mais força, me fazendo gritar de dor, e me soltando na mesma.
- Lu! – ele exclamou desesperado e se levantou, me abraçando. – Foi sem querer, desculpa!
- Não foi sua culpa – eu disse baixinho. – Já tava machucado.
Ele se afastou e me encarou, com a testa franzida. Eu me aproximei e cochichei em seu ouvido: “Sabe, daquele dia lá no dormitório.” Ele me olhou, fechando a cara. Eu levei um dedo a boca em pedido de silêncio. “Depois”, eu murmurei, voltando ao meu lugar na mesa.
- E você tá marcado, viu, Maker – eu avisei, apontando para a cara dele.
- As meninas estavam hoje falando na hora do almoço sobre você e o Suede – Arthur disse, olhando sério para o quadro. Eu fiquei em silêncio para que ele continuasse. – Parece que vocês estavam juntos ontem à noite – ele continuou, e eu percebi que ele estava tentando não rir.
- Que mais elas disseram? – eu ri de leve.
- Que vocês eram um casal estranho, e que a cena na hora do almoço provou que vocês estavam juntos. - De repente sua expressão estava séria. – Melanie não pareceu muito feliz em perder o admirador.
- Não sabia que Chay tinha alguma coisa com Melanie – eu murmurei. Pelo jeito eu estava totalmente por fora dos romances do colégio.
- Não tem – ele respondeu. – Mas o Suede vive correndo atrás dela. É de dar dó um homem se comportar assim.
O sinal bateu e eu esperei até que todos saíssem, enrolando para guardar meu material. Arthur fez menção de levantar e eu o puxei pela calça, fazendo-o sentar novamente. Eu me levantei e saí da sala, já que o professor ficaria ali, eu precisava de outro lugar para falar com ele.
- A sala de filosofia tá vazia hoje? – eu perguntei indo para o andar de cima. Ele assentiu com a cabeça, me acompanhando silenciosamente. Para minha surpresa a sala estava trancada, mas pelo jeito não para ele. Ele tomou minha frente, e em dois minutos a porta estava aberta.
- Você arrombou a porta? – eu perguntei, fechando a porta atrás de nós.
- Na verdade eu tenho a cópia das chaves de algumas salas – ele disse dando de ombros. Eu franzi a testa. – Tá, eu roubei e copiei, satisfeita? Mas a chave dessa ficou no meu quarto, então, sim, eu arrombei. O que tem de errado nisso?
Eu rolei os olhos e me sentei na mesa do professor. Ele se aproximou de mim e tentou me beijar, mas eu virei o rosto.
- O que foi? – ele perguntou, afastando o próprio rosto.
- Eu não entendo por que temos que ficar sussurrando, por que você me esconde, por que não posso contar sobre nós para ninguém. – Ele continuou me olhando, como se pedisse para que eu continuasse. – Tudo bem, não temos nada, eu sei. Mas por que tanto segredo? O que tem de errado comigo?
- Não tem nada de errado com você – ele disse com a expressão séria. – Mas é melhor assim. Eu não sei se posso te contar ainda.
- É a Brooklie, não é? – eu perguntei, olhando em seus olhos.
- O que a Brooklie tem a ver? – ele perguntou surpreso.
- Me diz você, Arthur – eu disse, ríspida.
- Ela é só minha ex-namorada, o que isso teria a ver? – ele perguntou, me encarando com a mesma intensidade.
Ficamos um momento em silêncio, até eu quebrá-lo: “Você ainda gosta dela.”
- De onde você tirou esse absurdo?
- Do fato de que tudo que envolve eu e você ter que ser um segredo.
- Certo, ela até tem a ver com isso – ele desabafou. – Mas eu não gosto dela, de maneira alguma. Ela é que ainda gosta de mim, ou melhor, pelo que tenho visto, ela é praticamente obcecada por mim. E ela é uma das pessoas que eu tenho medo que te façam mal por isso.
- Mas pelo jeito vocês dois ainda andam juntos, não é meio estranho? – eu perguntei, ponderando se acreditava nele ou não.
- Ela pega o Micael – ele disse rolando os olhos. – Ela é que não desgruda da gente, não é minha culpa.
- Certo, porque a sua ex é maluca, nós somos um segredo, então se resume a isso?
- Não – ele suspirou. – Não é só isso. Apesar da Brooklie ser perigosa, não é dela que eu tenha mais medo.
- Você não confia em mim o bastante pra me contar, não é mesmo? – eu o olhei de um modo triste.
- Eu confio – ele disse. – Mas não quero te preocupar com isso agora. Só preciso que você confie em mim.
- Certo – eu disse finalmente e pulei da mesa. – Mas eu estou de olho em você, mocinho – eu coloquei dois dedos em frente a meus olhos e depois os apontei para ele, sorrindo, e saí da sala.
- Lu – ele me chamou antes que eu chegasse na metade do corredor. Eu parei e esperei que ele me alcançasse. – Quer dar uma volta? – ele sussurrou em meu ouvido, me fazendo arrepiar.
Os corredores estavam desertos, pois no terceiro andar haviam poucas salas, e todos os alunos estavam nelas. Eu pensei por um instante, e então o segui pela escola. Passamos despercebidos por todos, já que podíamos estar simplesmente em um horário vago. Matar a terceira aula de física que teria em um dia não me parecia uma má idéia, já que tinha perdido metade dela mesmo. Quando dei por mim, já estávamos no estacionamento. Eu observei a moto vermelha em minha frente.
- É sua? – ele assentiu com a cabeça. – Mas você já pode dirigir?
- É claro – ele respondeu e eu montei na moto depois dele. Eu havia me esquecido que lá se podia tirar carteira mais cedo, e ele pelo jeito já tinha idade suficiente para isso. – Segura firme – ele avisou e eu o abracei pela cintura.
Ele acelerou a moto de uma vez me fazendo segurar mais forte em sua cintura. O porteiro mal teve tempo de falar qualquer coisa e já estávamos longe. O vento fazia barulho e tudo passava rápido demais para que eu conseguisse distinguir muita coisa. Eu fechei meus olhos com um pouco de medo. Devem ter se passado uns quinze minutos ou uma vida ali, até que ele diminuiu e parou. Se eu não tivesse prendido tão bem minha saia, Londres inteira teria visto meu short durante o trajeto. Eu desci da moto me sentindo meio tonta.
- Você é um perigo na direção – eu disse vendo ele desmontar da moto. – E você por acaso não esqueceu os capacetes?
- É mesmo – ele levou uma mão à testa. – Mas agora já era – e então deu de ombros.
- Onde vamos? – eu perguntei olhando em volta. Estávamos no estacionamento aberto de algum outro lugar, e parecia ter bastante mato em volta.
- Dar uma volta no parque – ele disse com um sorriso infantil no rosto, que me fez sorrir também.
Ele segurou uma de minhas mãos enquanto caminhávamos em direção ao parque e entrelaçou-as, me fazendo corar ligeiramente. Seguimos por um caminho de asfalto, onde pedestres e ciclistas tinham seus lugares demarcados. O caminho era ladeado por arvores, uma brisa batia em meu rosto, apesar de minha roupa curta demais para um lugar sem aquecedores me dar frio, aquela brisa era gostosa. À nossa direita, além de um longo gramado onde pessoas estavam sentadas ou até deitadas e crianças corriam, havia um grande lago.
Uma coisa vermelha a minha frente me assustou, até perceber que Arthur estendia uma flor vermelha para mim. Eu sorri e a peguei, dando um beijo em sua bochecha.
- Aqui não há ninguém que nos vigie – ele disse sorrindo. – Eu posso mostrar a todos o quanto a minha garota é linda.
Eu senti meu rosto esquentar e meu coração disparar ainda mais, além do que a presença dele já me causava. Eu fiquei nas pontas dos pés para beijá-lo, que correspondeu. Era um beijo calmo, carinhoso, mas que ainda assim disparava mais meu coração e fazia com que correntes elétricas tomassem o lugar do sangue no meu corpo. Ele parou de me beijar e mordeu forte minha bochecha. Eu reclamei de dor e ele saiu correndo, olhando pra trás e sorrindo. Eu saí correndo atrás dele, que foi em direção ao gramado. Por mais que eu fosse rápida na corrida, ele conseguia se desviar de mim, sempre por um triz. Em alguns minutos já estávamos cansados, não somente pela corrida, mas também porque ríamos que nem dois babacas. Ele finalmente deixou que eu o alcançasse, e eu pulei em cima dele, o derrubando no chão. Mas o espertinho não podia cair sem levar junto para o gramado, claro. Eu já estava pronta para revidar a mordida, mas, antes que conseguisse, ele me beijou, me fazendo esquecer qualquer outra coisa no mundo.
- Sabia que você é a garota mais linda desse mundo? – ele disse, colocando uma mecha de cabelos atrás da minha orelha.
- Sabia que é feio mentir? – eu respondi, sentindo meu rosto queimar, e dei um selinho nele.
- Mas eu não estou mentindo – ele rebateu, e aqueles olhos me faziam sentir como se nada de ruim poderia acontecer no mundo. – Você é a garota mais linda do mundo.
Eu sorri sem graça, sentindo meu rosto queimar mais ainda.
- E fica uma gracinha assim, toda vermelhinha. – Ele sorriu abertamente.
- Eu não tô vermelha – eu protestei, cobrindo meu rosto com as mãos.
Eu escutei ele rir, e então afastou minhas mãos do meu rosto e me beijou. O beijo começou calmo, então foi aumentando a intensidade. Ele rolou na grama trocando de lugar comigo e ficando por cima de mim.
- Arthur, estamos no meio de um parque – eu disse, ainda sem parar de beijá-lo, quando me dei conta de que minhas pernas involuntariamente levantavam enquanto ele estava deitado entre elas. – E sabe, eu tô de saia.
Só então ele considerou que estávamos em público.
- Quer comer alguma coisa? – ele perguntou se apoiando nos cotovelos e me observando.
Será que se eu responder “você” fica muito feio? Ok, se controla.
- Aham – eu respondi, passando a mão por seus cabelos.
Nós nos levantamos e limpamos a grama. Fomos até uma barraquinha de cachorro quente ali perto e só quando eu dei a primeira mordida foi que percebi que realmente estava com fome.Arthur pegou o ketchup e desenhou uma carinha feliz no cachorro-quente dele, me fazendo rir. Eu desenhei um coração torto no meu que fez até o dono da barraquinha rir. Depois de termos comido e estarmos satisfeitos... já sei, eu tenho a mente maliciosa e sei que ficou estranho, então, depois de termos comido, voltamos para a parte gramada e sentamos ali. Eu me recostei em Arthur e ficamos ali observando o lago e as pessoas. Eu e Arthur rimos alto quando uma criança caiu logo à frente, e uma outra tropeçou nela e caiu também.
- Para de rir, não seja malvado com as criancinhas – eu censurei, tentando conter minha próprias risadas.
- Nem vem, você também riu dela – ele reclamou. – E eles nem se machucaram, já estão até correndo de novo.
Ficamos ali conversando e observando o pôr-do-sol. Aquele parque era simplesmente encantador, e as pessoas ali pareciam sempre felizes. O mesmo garoto que caiu correu para perto de nós e tocou em Arthur enquanto gritava “Tá com ele!” e então saiu correndo de novo. Antes que eu entendesse, Arthur saiu correndo atrás do grupo de crianças, não correndo tão rápido, apenas o suficiente para assustá-las. Eu ria enquanto ele corria atrás de uma menininha, e então a levantou no ar, a fazendo rir alto. “Tá com ela agora!”, ele gritou e colocou-a no chão de volta.
- Se você não fosse tão grande, nunca conseguiria te distinguir entre as outras crianças – eu disse rindo, enquanto ele voltava a se sentar encostado na árvore.
Em pouco tempo as crianças já estavam indo embora com seus respectivos pais, enquanto o dia ia se tornando noite.
- Vocês formam um casal lindo – a garotinha que Arthur havia erguido no ar parou de mãos dadas com a mãe ao seu lado. Ela era loirinha, com cabelos compridinhos e uma franjinha. Eu tive vontade de apertar as bochechas dela e a encher de carinho.
- Pode falar, minha namorada é perfeita – eu olhei para trás e Arthur estava com um sorriso convencido no rosto. – Só não sei se é mais bonita que você.
A menina deu uma risadinha e ficou vermelhinha, o que só me deu mais vontade ainda de brincar com ela.
- Pá você – ela disse e me entregou uma flor amarelinha. – Presente de casamento.
- Obrigada, fofinha – eu agradeci pegando a flor e a cheirando.
A menina e a mãe se afastaram.
- Não sabia que eu era sua namorada – eu disse observando a flor em minhas mãos.
- Quer dizer que você está precisando aprender mais – ele disse e eu boiei por um instante. – Eu só traria uma pessoa muito especial até aqui. Você pode não ser minha namorada, ainda, mas temos algo mais especial que isso.
Então tá, né.
- Agora vamos embora, já está ficando tarde, e já devem estar dando por nossa falta na escola – ele disse, depois de alguns momentos de silêncio.
Crescer é uma merda, responsabilidade é uma merda, escola é uma merda, tudo é um coco.
Continua..
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