Capítulo 14 - Bleed It Out
- Chay – eu chamei manhosa, me virando e seguindo ele pelo corredor. Ele ignorou. – Chay – insisti, continuando sem resposta. Apressei-me e passei à sua frente, parando e fazendo-o parar. Ele me olhou, impaciente. – Qual é, eu tive problemas no fim de semana – me defendi, mesmo ele continuando calado. – Me desculpa.
- Que tipo de problemas? – ele levantou as sobrancelhas, falando alto o suficiente para que somente eu escutasse, enquanto os alunos nos empurravam às vezes, no corredor lotado. – Estava muito ocupada na cama daquele idiota? Pensei que você era diferente, mas vejo que estava enganado. Você é igual a qualquer outra vadia dessa escola.
Na maioria das vezes meus impulsos são mais rápidos do que meu raciocínio. E essa foi uma das vezes, quando meti minha mão aberta na cara dele com força, olhando tempo suficiente para ver as marcas dos meus cinco dedos ficando vermelhas em seu rosto. Me virei, sentindo meus olhos arderem, e segui cegamente alguns passos pelo corredor.
- Hey, hey, pequena – ouvi aquela voz rouca próxima a mim, e então senti seus braços ao meu redor. – O que houve?
Me encostei em seu peito sentindo as lágrimas molharem sua camisa.
- Vocês se merecem – eu ouvi Chay dizer ao passar, me fazendo começar a soluçar.
- Já entendi – Arthur disse, com os dentes trincados.
Passei a mão por meu rosto, enxugando as lágrimas e sentindo-me desprotegida pela repentina falta de seus braços ao meu redor. Quando abri novamente os olhos foi em tempo de verArthur puxando a mochila nas costas de Chay, socando-o em seguida. O corredor, que até então estava barulhento, se silenciou no mesmo segundo.
Eu entrei em desespero. Sai correndo até eles, enquanto Arthur o empurrava, gritando “O que você fez a ela?”
- O que eu fiz a ela? – Chay respondeu com desprezo, e cuspiu sangue no chão. Senti meu coração congelar completamente. – O que você está fazendo com ela?!
- Seu loser idiota – os estudantes haviam formado uma roda em volta dos dois, e eu tive que dar mais alguns passos e empurrar pessoas do meu caminho para continuar a enxergá-los.Arthur partiu para cima dele, mas alguém segurou seus braços.
- Loser? – Chay repetiu com desdém. – Eu a trataria bem melhor do que você. Mas é claro, você a está iludindo. Eu conheço o seu tipo. – Arthur fazia força para se desvencilhar do cara que o segurava, mas não conseguia. Mas por que ninguém estava segurando Chay, sendo que ele estava chegando mais perto do Arthur? Foi então que percebi: Maker era quem seguravaArthur. – Você a enche de mentiras, leva para cama e depois vai a dispensar. Fique longe dela! – e com isso ele deu um soco na barriga de Arthur.
Senti como se o soco fosse em mim, tirando meu fôlego. Era como se meu mundo estivesse sendo destruído. Corri para eles, tentando segurar o braço de Chay, mas ele se desvencilhava de mim com facilidade.
- Deixa de ser idiota, Chay – eu gritei, chorando. – Solta ele!
Ele levantou o braço para socá-lo e, antes que eu pudesse gritar de novo, Chay foi atirado longe. Demorei alguns instantes para localizá-lo com Micael montado sobre ele, socando-o.
Percebi tarde demais que não estava respirando direito. Vi Arthur se soltando e batendo em Maker antes que eu caísse de joelhos, minhas pernas fracas demais para me sustentar e sentindo-me totalmente tonta.
Arthur me percebeu e largou Maker, vindo para mim desesperado.
- O que foi? – ele perguntou me sacudindo.
- Larga o Chay – eu choraminguei com o resto de oxigênio que ainda tinha.
- Micael, larga ele – gritou Arthur, autoritário.
Micael saiu de cima de Chay na mesma hora, olhando confuso para Arthur.
- Se acalma, Lu, por favor – ele pediu todo desesperado.
Chay me viu e seus olhos se arregalaram. Ele se levantou com dificuldade e veio até mim, o rosto coberto de sangue.
- Eu vou te levar pra enfermaria – ele disse me puxando para cima, mas minhas pernas estavam bambas demais para que eu conseguisse me levantar.
- Tira a mão dela – eu ouvi Arthur esbravejar.
- PAREM! – eu gritei de modo histérico.
Minha mente estava cada vez mais turva e meu corpo mais mole ainda, sustentado apenas por Arthur me segurando pelos braços.
- Lu – eu ouvi a voz de Sophia anormalmente estridente.
- Ai, meu Deus! – exclamou Ane, vendo o meu estado.
- Você, leva ela pra enfermaria – eu a ouvi dizer pra alguém.
Em seguida senti braços me erguerem no ar e me deslocarem dali. Meus pés bateram em algumas pessoas pelo caminho. Não devíamos ter ido muito longe e eu senti minha garganta queimar violentamente. Bati no peito do cara que me carregava, com uma das mãos tampando a boca.
- Ai, meu Deus, solta ela – ouvi Sophia dizer com a voz ainda estridente. – Rápido, coloca ela no chão!
- Tá bom, tá bom – percebi pela voz que era Micael que me carregava.
- Vem cá – Sophia me segurou de um lado e Micael continuou a segurar do outro. Entramos no banheiro e eu não tive tempo de chegar à privada. Minha garganta queimou ainda com mais intensidade e eu não consegui aguentar e vomitei, sentindo aquele gosto horrível na boca.
- Lu, o que você tem? – Arthur perguntou com a voz estranha.
Eu cuspi e puxei o ar para dentro dos pulmões, sentindo minha garganta arder.
- Vamos logo pra enfermaria – ouvi a voz de Chay.
- Não – eu disse passando a mão pelos olhos.
Sentei ali no chão mesmo, com a ajuda de Micael e Sophia.
- Você tem que ir – Ane insistiu.
Eu balancei a cabeça, negando. Arthur passou mão pelo meu rosto.
- Hey, pequena, eu estou aqui – ele disse tentando me acalmar, mas eu via as lágrimas escorrendo por seus olhos. – Nada vai te acontecer.
Ele me abraçou, e eu deixei minha cabeça descansar em seu peito. De repente eu me senti violentamente cansada.
- I wonder what it's like to be loved by you – ele começou a cantar baixinho, enquanto eu fungava e soluçava. - I wonder what is like to be home.
And I don't walk when there're stones in my shoe.
All I know that in time I'll be fine.
And I don't walk when there're stones in my shoe.
All I know that in time I'll be fine.
Ele passava a mão por meus cabelos, me apertando forte contra ele. Comecei a me acalmar e minha respiração começou a melhorar. Minhas mãos diminuíram o formigamento.
- Por favor, Lu – ele disse me afastando o bastante para que pudesse ver meu rosto passando uma das mãos carinhosamente por ele, limpando minhas lágrimas. – Se alguma coisa acontecer a você eu... – percebi que seus olhos estavam vermelhos. Ele estava chorando. Isso cortou meu coração.
Passei um dedo por seus lábios, impedindo-o de continuar.
- Continua cantando – eu pedi com um sorriso triste, fungando em seguida.
- I wonder what it's like to fly so high – ele continuou, me abraçando novamente e voltando a fazer carinho e meus cabelos. - Or to breathe under the sea.
I wonder if someday I'll be good with goodbyes,
But I'll be ok if you come along with me.
I wonder if someday I'll be good with goodbyes,
But I'll be ok if you come along with me.
- Te amo – disse, me encolhendo contra seu peito.
- Vou te levar pro seu quarto, vem – ele me levantou e então ameaçou me pegar no colo.
- Não, você e o Chay vão para a enfermaria – eu disse séria, respirando fundo. – A Sophia me leva.
- Mas... – ele protestou preocupado.
- Tudo bem, eu já consigo andar – eu disse com um sorriso torto. – Vai lá. Sophia, vamos?
Ela assentiu silenciosamente com a cabeça e saímos do banheiro com Ane em nossa cola.
- Tem certeza de que está melhor? – perguntou Ane, preocupada.
- Tenho – respondi, mesmo sem tanta certeza.
- Dude, o que foi aquilo?! – disse Sophia, sentada em sua cama com Ane ao seu lado.
- São dois idiotas – reclamei, cruzando as pernas e abraçando-as.
- Dá um desconto, o Chay tava meio estressado – Ane tentou defendê-lo.
- E por isso ele precisava falar daquele jeito comigo? – questionei indignada.
- Ele não passou nos testes – Ane prosseguiu, tentando amenizar minha raiva. – E o cara que foi escolhido pra vocalista nem cantava tão bem.
Sophia soltou o ar pesadamente, balançando a cabeça em desgosto. “Tadinho, achei realmente que ele ia conseguir.”
- Eu também – continuou Ane. – Ele estava super nervoso. O cara era gato, mas não melhor do que o Suede.
- Injusto – concordou Sophia.
- É – eu concordei. – Mas ele não precisava pegar pesado desse jeito comigo.
- Você sabe que ele morre de ciúmes do Aguiar, Lu – disse Sophia tranquilamente.
Ergui as sobrancelhas, surpresa. “Por quê?”
Ela e Ane se entreolharam.
- O Chay gosta de você – explicou Sophia. – E todos na escola conhecem o Aguiar.
- O Arthur me ama, será que ele não pode aceitar isso? – eu disse, indignada. – Certo, eu gosto muito do Chay. Muito mesmo. Mas, com o Arthur tudo é tão... – eu suspirei com um sorriso.
- Os olhos dela até brilham – disse Sophia sorrindo.
Eu ri, sem graça.
- Mesmo assim, todos conhecem o histórico de Arthur Aguiar – Ane ignorou minha felicidade. – E você sabe, não é dos melhores.
- Isso é passado – eu disse séria. – Não me importa como ele era antes. O que me interessa é o que nós dois temos agora.
- E o que é exatamente? – questionou Ane. Eu a encarei sem entender. – O que vocês têm agora, exatamente? Vocês namoram? Porque eu não ouvi nada sobre isso nos últimos dias.Aguiar continua como solteiro para as piranhas da escola.
- Eu vou deixar bem claro pra todos que ele é só meu – eu disse brava.
- Isso inclui a Brooklie? – perguntou Sophia preocupada.
- Com certeza – confirmei, séria.
Ouvimos batidas na porta.
- Quem é? – Sophia gritou.
- É a Brooklie – a voz enjoada da mesma respondeu do outro lado da porta. – E a Mel. Lu, abre aí.
Eu abanei a cabeça negativamente para Sophia e Ane. Puxei a colcha da cama e me enfiei embaixo dela.
- Quanta coragem – ironizou Ane baixinho.
Antes de Sophia abrir a porta, fechei os olhos e fingi estar dormindo profundamente.
- Ela está dormindo – ouvi Sophia avisar.
A porta rangeu.
- Ah, certo – ouvi a voz de Brooklie dizer. – Na hora do almoço eu falo com ela.
Assim que Sophia fechou a porta, eu abri os olhos.
- Tem certeza que isso inclui a Brooklie? – Sophia perguntou divertida.
- Não duvide de mim – desafiei, voltando a me sentar.
- Temos que voltar pra aula – avisou Ane se colocando de pé. – Você vem?
Fiz uma careta. Já tínhamos perdido uma aula mesmo.
- Meu próximo horário é de geografia. Acho que vou ficar por aqui mesmo.
As duas riram.
- Vai ficar bem? – perguntou Ane preocupada, já na porta. Assenti com a cabeça. – Então, até o almoço – as duas deixaram o dormitório.
Aproveitei o tempo livre para ficar lendo meu livro da Mediadora. Finalmente, quando meu estômago já se acabava de roncar, o sinal tocou, anunciando o almoço.
Fui tranquilamente até o refeitório, pois todo o caminho se encontrava praticamente vazio.
Me assustei com o número de pessoas que viravam a cabeça quando eu passava e até apontavam, aos cochichos nada discretos, no refeitório. Antes que eu pudesse escapar, Brooklie eMel estavam ao meu lado enquanto eu colocava comida em meu prato.
- E aí, desembucha o que aconteceu – disse Brooklie, ansiosa.
Garota fútil, pensei. Só quer fofoca.
- Você está melhor? – perguntou Mel, preocupada. - Fiquei sabendo que passou mal.
- Estou melhor – murmurei, pegando uma lata de refrigerante diet.
- Vai, conta – insistiu Brooklie enquanto caminhávamos até a mesa.
Tentei desviar para minha mesa, onde Sophia e Ane sentavam, mas então vi Chay e Maker, ambos com o rosto machucado. A raiva borbulhou dentro de mim e segui para mesa ondeArthur já estava sentado com Micael e mais dois garotos grandes ao seu lado.
Respirei fundo. Brooklie queria uma resposta? Ela iria ter.
Coloquei minha bandeja na mesa, mas não no lado onde costumava, e sim ao lado da de Arthur. Ele me olhou surpreso, enquanto eu me sentava.
- Tá melhor, amor? – perguntei de um jeito meloso, dando um selinho nele.
- Ahn, tô – disse ele desconsertado. – E você?
- Aham – concordei com um sorrisinho.
Ouvi um estrondo. Olhei para frente e Brooklie havia jogado sua bandeja no chão.
- O que é isso? – ela perguntou, praticamente gritando.
O refeitório ficou totalmente em silêncio.
Ah, não, já havia tido confusão o bastante por um dia, pensei, mas a raiva foi mais forte que o cansaço.
- O quê? – eu perguntei cinicamente.
O canto da boca dela tremeu enquanto ela apertava as mãos em punho.
- Isso – ela apontou para nós dois.
- Ah! Isso sou eu – eu apontei para mim mesma. – E isso é o meu namorado – apontei para Arthur. – Por que o interesse?
Algumas pessoas fizeram barulhos e ovacionaram como “uuu”
- Eu mato você! – ela ameaçou vir para cima de mim, mas Mel a segurou.
- Qual é, Brooklie, tá na hora de superar, não acha? – provoquei.
- Vamos sair daqui, já está ficando ridículo – Mel tentou a tirar dali, mas ela resistiu.
- Está mesmo – concordei, mantendo o sorriso cínico. – Sua popularidade está caindo, querida.
Se não fossem as mãos de Mel em seus braços ela teria voado em mim por cima da mesa mesmo.
- Vamos – Mel esbravejou a arrastando para longe dali até saírem do refeitório.
- Você pirou? – Arthur finalmente se manifestou, e jogou o garfo em sua mão de volta na mesa. – Qual é o seu problema, garota?
- Não gosto do jeito que ela te olha e não gosto do jeito que ela te ronda – eu disse mexendo tranquilamente em seus cabelos. – Já estava na hora de ela se tocar que vocês não têm mais nada.
- Ah, ótimo – ele esbravejou, ainda que em voz baixa. – Nos exponha ao extremo.
Dei de ombros. “Se os caras que tentaram nos matar já sabem, que diferença vai fazer?”
- Mas a Brooklie é...
- Uma piranha que quer meu namorado – eu o cortei. – Se você pode bater no meu melhor amigo, eu posso dar esse recadinho pra ela.
Ele bufou irritado.
- Arthur – dei um beijinho em sua bochecha. – Eu sei o que estou fazendo, ok? Posso dar conta dela.
- Vocês já estão ferrados mesmo – Micael se intrometeu. – Mais cedo ou mais tarde ela descobriria.
Eu sorri vitoriosa para Arthur.
- Micael, tá a fim de um novo amor? – eu perguntei displicente, mudando de assunto.
- Se esse amor tiver belas curvas, por que não? – ele respondeu divertido.
- Acho que você devia chamar minha amiga para sair – eu continuei, torcendo para que desse certo. – Acho que vocês dois se dariam certo.
- Que amiga? – ele perguntou dando uma garfada na comida.
- A Sophia – eu respondi.
Ele engasgou. Arthur deu um tapa em suas costas - que eu diria desnecessariamente forte.
- Aquela da aula de inglês? – ele perguntou depois de se recuperar.
- Essa mesma.
Ele deu um sorriso tarado, do qual eu tive medo.
- É, acho que eu me daria bem com as curvas dela.
- Respeite minha amiga, mocinho – avisei. – Ela é uma moça de família.
Ele recompôs a expressão.
- Certo, vou tentar me lembrar disso – ele disse pensativo.
Balancei a cabeça em desaprovação, voltando minha atenção em seguida para a comida.
- Amor, você não acha que tá na hora de ir no médico? – perguntou Arthur, enquanto caminhávamos pelo gramado nos fundos da escola. Eu o olhei sem entender. – Você sabe, por causa dessas suas crises, falta de ar, essas coisas.
Ele me olhava preocupado e eu sabia que ele estava escolhendo as palavras para falar.
- O que te leva a pensar que eu já não fui? – perguntei displicente.
Ele me olhou confuso. “E não resolveu nada?”
Dei de ombros.
- Por enquanto ainda não. Mas ele disse que vai melhorar. - Olhei para as nuvens cinzentas lá em cima que indicavam a chegada de uma forte chuva. - Mas confesso que nunca cheguei ao ponto de vomitar antes.
- Talvez você devesse ir ao médico novamente – ele sugeriu.
- Talvez – respondi, mas não iria fazer isso. Estava cansada de médicos. Eles nunca resolviam nada direito. – Tenho um teste hoje no teatro – comentei, desviando o assunto.
- Nervosa? – ele perguntou com um meio sorriso.
- Um pouco – confessei.
- Você vai se sair bem – ele me encorajou. – Só não vou lá te dar uma força porque tenho futebol.
- Se você fosse, eu iria ficar ainda mais nervosa.
Ele deu um beijo em minha bochecha “Te amo, pequena.”
- Te amo, meu anjo – eu disse sorrindo.
Algumas gotas de chuva começaram a cair, nos fazendo voltar para dentro da escola.
Arthur me levou até a porta da sala de inglês, onde Sophia me esperava, já sentada na carteira. Eu diria que havia sido uma aula normal, se não fosse pelo fato de Micael espalmar as duas mãos em cima da carteira de Sophia assim que o sinal de fim da aula soou.
Ela olhou para cima sem entender, até se deparar com os olhos dele e ficar com cara de idiota.
- O que você vai fazer hoje à noite? – ele perguntou casualmente, como se os dois conversassem todos os dias.
Ela ficou muda. Eu chutei sua perna e ela pareceu acordar. “E-eu vou estudar”, ela gaguejou.
- Que pena – ele disse balançando a cabeça. – Achei que poderíamos sair para jantar – ele tirou as mãos de cima da carteira.
Sophia quase surtou. “Eu posso estudar outro dia!”, ela disse, desesperada.
Ele se virou para nós novamente.
- Te pego às oito então - piscou e saiu da sala.
Ela me olhou boquiaberta, enquanto eu começava a rir da cara dela.
A única coisa boa de ter uma próxima aula é que Arthur estava nela. Sentado ao meu lado, conversando comigo. E agora não precisávamos disfarçar, todos já sabiam que estávamos juntos. O que só serviu para que aquelas olhadas nada discretas me perseguissem o dia todo. Inclusive no teatro.
Mas nem isso, nem meu nervosismo, impediram que eu me saísse bem ao ponto de conseguir o papel principal.
E um garoto muito, muito bonito iria fazer para romântico comigo. Loiro, alto, olhos cinzentos e um corpo extremamente convidativo.
É, talvez essas coisa tenham me incentivado a atuar bem para conseguir o papel.
- Sabe, garota, você devia parar de ficar se escondendo atrás dos remédios – Micael estava na porta do meu quarto me olhando.
- O que você esta fazendo aqui? – perguntei assustada, escondendo o frasco em minhas mãos.
- Vim buscar a Sophia – ele disse descontraído. - Ele adentrou o quarto sem ser convidado e sentou na cama vazia de Sophia. - Você tem gel ai? Preciso arrumar meu cabelo.
Eu rolei os olhos e fui até o banheiro procurar. “Sophia está no quarto da Ane se arrumando”, eu avisei. O máximo que achei foi um spray fixador.
- Serve spray? – perguntei voltando ao quarto com o tubo na mão e me deparei com ele segurando o meu frasco de remédios. Puta merda.
- Por que você toma anti-depressivos? – ele perguntou, balançando o frasco.
- Isso não é da sua conta – peguei o frasco da mão dele e joguei dentro da primeira gaveta do guarda-roupa que vi.
- Por que você precisa tomar anti-depressivos? – ele insistiu, me deixando nervosa.
- Vou chamar a Sophia – eu disse com raiva, largando o spray na cama e saí do quarto batendo o pé.
- Sophia – chamei batendo na porta do quarto de Ane.
- Entra – ouvi a voz de Ane.
- Uau! – exclamei, aprovando Sophia.
- Gostou? – perguntou Sophia feliz.
- Eu que fiz! – brincou Ane.
Eu ri. “Está linda”, confirmei. “Micael já está te esperando lá no quarto.”
- Ai, Deus – ela disse nervosa. – E se der alguma coisa errada?
- Relaxa, Sophia – me diverti com seu nervosismo. – Tudo vai sair bem.
Ela respirou fundo. “Obrigada, Ane”, ela agradeceu.
- Boa sorte – eu e Ane desejamos juntas antes de ela deixar o quarto com seu lindo vestido curto e a maquiagem impecável.
Durante as aulas do dia seguinte, fiquei impaciente, pensando no que Micael poderia fazer. E se ele contasse para a escola inteira? Não, ele não faria isso. Mas e se ele contasse ao Arthur? Isso iria me trazer problemas, explicações que eu não queria dar. Coisas que eu não queria lembrar.
Por sorte, meu uniforme de líder de torcida estava no armário do vestiário, pois lá fora caia uma chuva desgraçada e a ultima coisa que eu queria era ter que atravessá-la para trocar de roupa quando as aulas acabaram.
Pelo menos o treino me distraía, apesar de a Brooklie amarrar a cara para mim e tentar me sabotar. Mas eu não iria sossegar enquanto não soubesse se Micael tinha contado ou não.
- Vem comigo – Micael me chamou enquanto eu saía da quadra para a chuva. Corri com ele até o prédio dele e ele me puxou pra dentro de uma das salas do primeiro andar. – Espera aí, já volto - e saiu da sala.
Me sentei no chão. Estávamos na sala de espelhos, o que deveria ser uma sala de balé, mas até onde eu sabia, ninguém a usava. Micael logo voltou carregando duas luvas aparentemente de textura fofa e jogou-as em um canto. Trancou a porta, guardando as chaves no bolso. Ele tirou o casaco da escola e jogou junto com as luvas. Abriu três botões da camisa, abriu os botões nos pulsos e enrolou a manga.
- Levanta – ele mandou. Eu continuei o encarando.
- Ficou louco? – eu ralhei com ele. - Nem minha mãe fala comigo desse jeito!
- Deve ser por isso que você é tão mimada – ele retrucou.
- Eu não sou mimada! – reclamei, indignada.
- É claro que é – ele continuou. – Mimada e indisciplinada.
- Olha só quem fala – me levantei. – O que você quer afinal?
- Você quer ficar com o Aguiar, certo? – ele perguntou calmo.
- É claro – respondi firmemente.
- E você está disposta a qualquer coisa por isso, de verdade? – ele perguntou me encarando.
- Estou – respondi, convicta.
- Então você vai ter que aprender algumas coisas – ele disse. – Vai ter que aprender a cuidar de si mesma. Arthur tem que saber que você é capaz disso, ele não vai estar sempre lá pra te proteger e você sabe disso. Você já teve sorte muitas vezes, mas em outras não conseguiu escapar. Eu vou te ensinar a se defender.
- Como assim, Micael? – perguntei, confusa. – Como você pretende me ensinar?
- Do meu jeito – ele respondeu simplesmente. – Quero ver o que você sabe fazer. Me bate.
- O quê? – perguntei, incrédula. Ele só podia estar brincando.
- Me bate – repetiu, ainda me encarando.
- Não – respondi firmemente.
- Por que não? Não tem coragem? – ele provocou.
- Não adianta, não vou te bater.
- Medrosa. Mimada. Indisciplinada. – ele disparou.
- Eu não sou nada disso.
- É claro que é, você não é capaz de defender a si mesma. Seus pompons não vão te ajudar em nada. Você é só uma perdedora de quem o Arthur ficou com dó.
- Cala boca, Micael.
- Você afronta os outros porque tem medo de ser você mesma.
- Não enche o saco.
- Você tem medo de tudo, de todos. É uma paranóica, é por isso que toma anti-depressivos, porque não se suporta, não consegue superar. O que foi que te aconteceu, hein, garotinha?
- Me deixa em paz – comecei a sentir meus olhos molharem e as lembranças começaram a passar pela minha mente.
- Me fala o que aconteceu com você – ele disse, grosso. – Vai garota, você só sabe chorar, nunca vai conseguir superar, você não é forte o bastante.
As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
- Pare, Micael! – eu implorei chorando.
- Eu não vou parar. Por que o Arthur te esconde tanto? Ele não quer te mostrar a ninguém, ele tem vergonha de você.
- Ele gosta de mim! – gritei pra ele com raiva.
- Não, ele tem pena de você. É isso que você provoca nas pessoas, pena. Me fala o que aconteceu!
Eu só conseguia chorar, as lágrimas como se me sufocassem, tapando meu ar.
- Reage, Lu, enfrente isso!
Eu não conseguia puxar o ar para os pulmões mais.
- VAI, REVIDA – ele gritou próximo a mim e segurou meus pulsos, me sacudindo. – REAGE!
Eu tentei soltar meus pulsos, mas ele os apertava.
- VAI GAROTA, VIRA MULHER!
- FILHO DA PUTA, ME SOLTA! – eu gritei em resposta.
- Se solte sozinha! – ele instigou, e eu tentei puxar meus pulsos com força. – Você tem que soltar girando os pulsos, não usando a força, idiota!
Eu gritei de raiva e girei os pulsos, conseguindo me soltar das mãos deles. Corri para a porta forçando a maçaneta, mas ela não abria de jeito nenhum.
- Não tem como escapar! – ele disse vindo atrás de mim.
- Abre isso, Micael!!! – pedi, desesperada para sair dali e apagar tudo aquilo da minha mente.
- Me enfrenta, vadia! Me diz o que aconteceu!
- CALA BOCA! – eu urrei de raiva.
- Não vou calar, e você também não pode me fazer, porque você é fraca, estúpida, frágil. Eu posso fazer o que eu quiser.
- Não, não pode!
A raiva estava esquentando o meu sangue, meu coração pulsava acelerado.
- Você não conta porque tem medo. Já passou, mas você continua aí, sempre com medo. Você vai ser uma eterna covarde, admita.
Eu gritei de raiva de novo.
- Gritar não vai adiantar de nada! Isso vai se repetir, porque você vai deixar!
- Não!
- Arthur não vai estar lá. Arthur vai ter se cansado da garota fraca e dependente. Você vai perdê-lo e tudo vai acontecer de novo.
Ele estava próximo de mim e eu comecei a estapear ele.
- Ele não vai me deixar!
- Vai, e tudo vai se repetir.
- NINGUÉM VAI ENCOSTAR EM MIM DE NOVO!
- Vão sim. Pare de me estapear, me bate de verdade!
Eu gritei de raiva e comecei a socá-lo sem dó. Chutei-o e ele bloqueou.
- ME BATE DE VERDADE OU VÃO FAZER TUDO DE NOVO!
Eu bati com mais força nele, agora socando.
- Pare de gritar e use o fôlego pra bater! Deixa os braços na altura do peito garota! Fecha essas mãos direito. ME BATE COM VONTADE!
Eu estava começando a voltar a chorar.
- BATE NELE PRA ELE NUNCA MAIS ENCOSTAR EM VOCÊ.
Eu usei todas as forças que eu tinha e saí socando ele de tudo quanto era jeito, tentando achar algum ponto que ele não estivesse cobrindo. Chutei-o e consegui acertar suas pernas, ele se curvou levemente com dor e eu consegui socá-lo algumas vezes. Bati nele até não ter mais forças e cair no chão, cansada. Ele deitou ao meu lado ofegante. Depois que me acalmei, ele me estendeu a chave da porta. Peguei-a e saí dali o mais rápido que meu corpo permitiu.

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aaaaaaaaaaaaaaaaaaaah tem que postar mais por favor!
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