05 março 2013

"Dangerous"



Capítulo 4 - Don't talk

Eu acordei com uma luz branca batendo na minha cara e sumindo em seguida. Abri os olhos vagarosamente e Micael estava rindo com uma câmera na mão.

- Que gracinha – ele zoou e eu mostrei a língua.
Arthur ainda dormia profundamente e mantinha os braços me envolvendo.
- Melhor acordar o Arthur – continuou Micael. – Ele gosta de acordar mais cedo pra tomar café fora. Aproveita e pede pra ele trazer alguma coisa pra mim. – E, dizendo isso, saiu do quarto.
Eu fiz carinho no cabelo de Arthur enquanto ele dormia. Ele parecia tão tranquilo, tão lindo. Eu sorri ao ver um leve sorriso se formar no rosto dele. Dei um beijo em sua bochecha. “Hora de acordar, Arthur”, eu sussurrei.
- Bom dia, pequena – ele disse, abrindo os olhos preguiçosamente.
Eu me espreguicei, sentando na cama. Arthur me puxou, me fazendo deitar de novo, e passou uma de suas pernas por cima das minhas.
- Vai tomar café comigo? – ele pediu, manhoso.
- Hum... não sei... – eu fiz cara de pensativa. Ele mordeu minha bochecha. – Ai, Arthur – eu disse rindo. – Seu violento. Eu vou.
Ele mordeu minha bochecha de novo.
- E por que me mordeu agora? – eu perguntei, esfregando a mão na bochecha.
Ele simplesmente sorriu e se levantou. Garoto doido.



- Ahn, você não se importa de manter segredo sobre ontem, importa? – ele perguntou um pouco inseguro enquanto tomávamos café-da-manhã em uma Starbucks próxima a escola.
- Não – eu respondi dando de ombros. – Algum motivo especial? – eu perguntei, tentando parecer casual. Se ele disser que tem uma namorada, eu juro que me afogo nesse cappuccino. Ou me jogo da ponte de Londres e me afogo no Tâmisa.
- Não, eu não tenho nenhuma namorada, se é o que você está pensando – ele disse, me deixando aliviada. Eu fui tão óbvia assim?
- Então...? – eu perguntei, tentando fazer com que ele continuasse.
- Só não fala, por favor – ele pediu. – Um dia eu te explico.
- Nem pros meus amigos?
- Já tem amigos, é? – ele perguntou e eu rolei os olhos. – Aquele tal do Chay e do Maker? De preferência não.
- Sophia? – eu perguntei e ele fez cara de dúvida. – A garota de cabelos curtos, minha amiga. Do meu dormitório.
- O menos possível – e deu de ombros.
Eu hein, quanto suspense.
- De quem é aquela música que você cantou pra mim? – eu resolvi mudar de assunto. – Eu não conhecia.
- É minha – ele disse olhando para algum ponto distante. Eu o olhei espantada. – Eu sei, ainda não é exatamente uma música, não está nem pronta...
- Ela é linda! – eu o interrompi sorrindo. – Fora que você canta tão bem quanto o Chay.
- Não sabia que aquele loser sabia cantar – ele disse, franzindo a testa.
- Arthur, para de implicar com o Chay – eu ralhei com ele.
Ele ficou quieto, provavelmente me poupando dos pensamentos dele sobre Chay e evitando uma discussão.
- Arthur – eu chamei baixinho olhando para meu copo, mas sabia que ele me encarava. – Você acha... e se, eu, ahn, ver aquele garoto de novo, sabe?
- Hey, pequena – ele me chamou, mas eu continuei olhando meu copo, até ele colocar a mão em meu queixo e levantar minha cabeça para que eu o olhasse. – Não precisa se preocupar, você não vai mais vê-lo.
- Como você pode ter tanta certeza? – eu perguntei encarando aqueles olhos Castanhos.
- Eu cuido dele – disse, sério. – E não quero mais que você pense nisso, ok? – eu assenti silenciosamente com a cabeça. Uma lágrima teimosa desceu por minha bochecha, mas eu logo me recompus. – E também não quero mais saber de você andando sozinha por aí, muito menos nos dormitórios masculinos. Hora de ir.


Tínhamos a primeira aula juntos, mas ele simplesmente me ignorou desde o momento em que voltamos pra escola. Ele sentou com outro garoto na aula de química no laboratório e eu viMaker me chamando e apontando para a cadeira vazia ao seu lado.
- E aí, Five Colours? – Maker me cumprimentou alegre. Pelo jeito ele está tentando ser bonzinho e me fazer esquecer certas coisas.
- E aí, Maker – eu sorri me sentando ao seu lado.
- Dormiu bem? – ele perguntou e dessa vez eu notei que ele estava tentando ser casual, mas se saindo não tão bem. Não, eu não dei pro Arthur, se é isso que você quer saber, palhaço.
- Dormi – respondi anotando o que o professor começava a passar no quadro. – O Arthur é que deve estar todo quebrado, tadinho, dormiu no chão.
Pelo jeito dessa vez eu fui convincente, porque ele mudou de assunto.


Quando a terceira aula daquele dia acabou, matemática, eu finalmente consegui falar com a Melanie. Os treinos começariam terça que vem. Ela não era tão ruim quanto Sophia havia dito. Quero dizer, ela não me analisou nem mais nem menos do que o resto da escola ainda fazia. Passei o intervalo com Lauren, tentando adiar meu encontro com Sophia e Chay.


Mas a hora do almoço chegou, e eu resolvi sentar com eles, já que a próxima aula seria com Sophia.
- Será que a senhorita pode me explicar o que aconteceu ontem? – ela exigiu assim que eu coloquei minha bandeja em cima da mesa.
- Será que a gente pode esquecer sobre ontem? – eu pedi sentando.
Eles ficaram em silêncio até Ane puxar uma conversa. Ufa, mais fácil do que pensei.
Depois do almoço passei no meu quarto e encontrei um embrulho em cima da minha cama. Estranho. Eu abri o embrulho e haviam duas munhequeiras pretas e uma pomada. Eu peguei as munhequeiras e um bilhete caiu.
“Isso vai ajudar a sumir com o roxo. Se precisar de mim me liga”
Escrevi a mensagem “Obrigada?” e enviei para o número escrito no bilhete.
Estava realmente começando a esquentar, então eu finalmente pude tirar o casaco que vestia desde ontem, e, depois de tomar banho, passei a pomada e coloquei as munhequeiras. Por que ele se preocupava assim comigo?
Na aula de química, Sophia não falou nada sobre a última noite, mas eu podia sentir que ela estava louca pra saber de tudo.
Aula de educação física. Eu troquei o uniforme pela roupa de ginástica da escola, mas fui barrada por uma garota ruiva e maquiada. E bonita, eu admito.
- Por que você tá vestindo o uniforme comum de ginástica, ô Five Colours? – eu encarei ela sem entender. Era a Brooklie, e agora eu tinha um novo apelido, é?
- E não é o que eu deveria estar vestindo?
- Você não está querendo entrar para o grupo de líderes de torcida? – ela tinha uma voz enjoada. Isso me lembrou Sophia imitando ela.
- É.
- Então cadê seu uniforme de líder? Nós não vestimos a mesma coisa que elas – ela apontou para algumas meninas que passavam vestindo o uniforme de ginástica.
- Foi o que me deram – eu disse dando de ombros.
- Eu só vou entregar os uniformes semana que vem, Brooklie – Melanie apareceu atrás dela.
- Você já não deveria ter entregado? – ela perguntou um tanto desdenhosa.
- Não – ela respondeu ríspida.
Eu deixei as duas discutindo e saí de fininho. A professora nos fez ficar correndo em volta da quadra até eu quase morrer.
- Não se preocupe – disse Melanie sentando ofegante ao meu lado na arquibancada -, costumamos usar a aula de educação física – ela fez uma pausa para respirar um instante – para treinar.
- Tomara que essa vaca quebre a perna e morra – praguejou Brooklie se largando ao lado de Melanie.
- O que é que vocês três acham que estão fazendo sentadas? – a professora se esganiçou. Ela era grande e musculosa. Ela me assustava.
- Discutindo sobre nosso passos – mentiu Brooklie.
- Pois arranjem outro horário para discutir – ela esbravejou, e eu juro que vi cuspe voando. Eca. – QUERO TODO MUNDO CORRENDO.
- Não podemos treinar? – tentou Melanie.
- Aaah, então as mocinhas estão achando que vão poder ficar treinando passinhos na minha aula, não é? – ela esganiçou.
- Sempre fizemos isso – disse Brooklie.
- Mas não vão fazer mais! – ela exclamou fazendo uma cara furiosa. – E tratem de voltar a correr agora mesmo se não quiserem ser expulsas de novo!
Eu bufei e voltamos a correr.
- Mulher grossa – reclamou Melanie indignada. – Até parece que não vamos mais treinar na educação física! Isso é totalmente absurdo!
- Vamos discutir melhor aquele lance da perna quebrada? – sugeriu Brooklie.
- Com certeza – respondeu Melanie convicta. – E nosso próximo professor terá que ser um homem, são bem mais fáceis de convencer.
- Se quiserem ajuda pra se livrar da mal-comida, é só falar – eu ofereci e voltamos a correr em silêncio. Todo o oxigênio era precioso para não desmaiarmos.

- Puta que pariu, tô acabada – eu reclamei pra Sophia depois de sair do meu segundo banho em uma tarde.
- É, aquela professora de educação física é um saco. A última aula que tive com ela foi um inferno.
Eu deitei na cama e fiquei lá estirada durante algum tempo.
- Five Colours? – Melanie me chamou na porta do quarto. Sophia lançou um olhar mortal para ela, que apenas ignorou. Eu fui para fora do quarto ver o que ela queria. – Você quer mesmo nos ajudar a expulsar aquela mulher-macho da escola?
- Quero – eu respondi. – Mas eu não quero arranjar problemas na escola, entende...
- Ok, então, nós vamos te explicando no caminho o que você tem que fazer.
Encontramos com Brooklie na escadaria da escola esperando por nós agarrada a Micael. Ele me olhou torto, não sei por quê, quando saímos dali. Entramos na sala do diretor e fiz cara de triste.
- Ah, Srtª Blanco, vejo que você encontrou boas companhias – ele disse sorrindo, então percebeu minha tristeza. – Mas por que vocês estão aqui? Algum problema?
- Sr. Philips – começou Brooklie -, ela não queria vir aqui porque não queria problemas logo na primeira semana, mas nós a convencemos que seria o melhor a fazer.
- Por favor, sentem-se, queridas – ele pediu apontando para as cadeiras à sua frente.
- Obrigada – agradeceu Melanie.
- Continuem, por favor.
- Acho melhor ela mesma contar – disse Brooklie fingindo estar apreensiva.
- Eu estava na aula de educação física – eu comecei a mentir e deixei que meus olhos começassem a lacrimejar -, e então aquela professora começou a implicar comigo.
Eu fiz uma pausa fingindo tomar coragem.
- Calma, querida – incentivou Melanie. – Conte a ele.
- Eu era a última no vestiário, e ela simplesmente chegou gritando comigo – eu comecei a chorar. – Disse que eu estava fazendo corpo mole a aula inteira, e quando eu tentei sair do vestiário, ela agarrou meus pulsos e começou a me sacudir!
- Nós ouvimos os gritos e voltamos para ver o que estava acontecendo – disse Melanie enquanto eu me esforçava para aumentar o choro, e Brooklie me abraçou de lado.
- A professora começou a xingá-la de coisas horríveis – disse Brooklie. – E disse que brasileiras eram imprestáveis e burras, e foi piorando.
- E então nos viu e soltou – continuou Melanie. – Saiu dali como se nada tivesse acontecido.
- Meu Deus – disse o diretor de olhos arregalados. – Espero que você esteja bem, querida!
Nessa hora eu usei o elemento surpresa com que nem as meninas contavam. Tirei as munhequeiras dos pulsos e mostrei ao diretor. Todos me olharam assustados.
- Monstra! – exclamou Brooklie.
- Eu vou tomar providências agora mesmo! – o diretor bateu as mãos na mesa e se levantou. – Senhoritas, sugiro que voltem para seus dormitórios por enquanto. E Srtª Blanco, peço desculpas pelos atos terríveis dessa professora. Eu lhe garanto que ela estará fora do corpo docente dessa escola ainda hoje. Espero que isso não a faça julgar mal os outros professores, nem a escola, e que continue conosco.
Eu assenti silenciosamente com a cabeça, controlando o choro.
- Você é melhor do que eu pensava, garota! – elogiou Brooklie quando já estávamos no pátio.
- É, você foi incrível! – disse Melanie. – Mas aonde você arranjou esse roxos nos pulsos?
Ferrou. O que eu falo agora?
- Foi em uma brincadeira que eu estava fazendo com meus amigos – eu comecei a falar o que vinha na cabeça. – Era um truque de mágica que eu aprendi no Brasil. Mas não deu muito certo, eu fiquei com a mão presa na caixa. – Eu dei de ombros.
- Então era essa a causa dessas munhequeiras – concluiu Brooklie. Nossa, como você é inteligente. – Engraçado, o Arthur tem umas iguais – ela disse, pensativa.
Eu olhei para meus pulsos, eram munhequeiras pretas, comuns o bastante pra que eu simplesmente tivesse iguais. Mas peraí, como ela sabe o que o Arthur tem ou deixa de ter?
- Arthur? – eu perguntei.
- Ah, você nem deve conhecer ele – disse ela dando de ombros. – Ele é amigo do meu namorado, aquele cara que tava comigo na escadaria.
Ela entendeu a pergunta de modo errado. Ainda bem.

- Aonde você foi com aquela vaca? – perguntou Sophia, ríspida, assim que eu entrei no quarto.
- Ajudá-las para termos mais tempo para treinar – eu respondi indo para o banheiro lavar o meu rosto.
- Treinar o quê? – ela perguntou confusa. – Se você me disser que entrou para o grupo de líderes de torcida eu juro que te deserdo!
- Qual é o problema? – eu perguntei voltando pro quarto.
- Qual o problema? – ela perguntou com a voz esganiçada. – Todos as líderes de torcida são metidas, são fáceis e...
- Não me interessa o que elas são ou deixam de ser – eu cortei ela. – Eu não vou mudar só porque seguro pompons.
- Veremos – ela disse brava.
- Ah, qual é, Sophia, você também odiou a professora de educação física – eu disparei.
- O que isso tem a ver? O que vocês fizeram?
- Já disse, arranjamos mais tempo para treinar agora – eu coloquei meus fones de ouvido, impedindo Sophia de continuar a me encher o saco.
Foi aquela vaca da professora que gritou comigo primeiro, eu só estava dando o troco a ela.
Continua..

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