25 março 2013

"Dangerous"


Capítulo 16 - Misery Business

-Bom, só para comunicar, Brooklie está expulsa do nosso grupo, ela não é mais uma líder de torcida – comunicou Mel com um sorriso presunçoso no vestiário, enquanto arrumávamos o uniforme.
- Foi expulsa? – perguntei, quando a maioria das meninas já tinha se retirado do vestiário.
- É, parece que o diretor quer cortar qualquer tipo de contato que vocês possam ter – ela contou, e eu passei pela porta logo atrás dela. – E me perguntou quem eu preferia na equipe. Chegou a ficar surpreso quando te escolhi.
- Ela é melhor do que eu nos movimentos, não entendo por que fez isso – eu disse, confusa.
- Mas você se dá melhor no trabalho em equipe, pra começar – ela puxou o rabo de cavalo, apertando-o. – Ela roubou meu posto de chefe das líderes de torcida no meio do ano passado, é claro que não iria deixar isso acontecer de novo.
Ergui as sobrancelhas, surpresa “Vocês não eram melhores amigas?”
- Brooklie só é amiga de si mesma – ela disse, então se dirigiu a todas que tagarelavam no meio da quadra: – Ok garotas, alongando!

Mesmo toda suada e sentindo meus músculos começarem a reclamar, fui até a sala de espelhos do prédio masculino, sabendo que precisaria sair de lá em uma cadeira de rodas.
- Aguiar está puto com você – Micael me avisou assim que fechei a porta.
- Ah, legal, ele já está sabendo – respondi, infeliz.
- E tem alguém na escola que não está? – ele ergueu as sobrancelhas. Eu ri, sem-graça. – Por onde quer começar hoje?
- Não podemos sair e tomar um refresco? – pedi com carinha de cachorro sem dono. – Tive um dia difícil.
Ele sorriu. “Está bem”, concordou, se levantando do espelho onde estava encostado e vindo em direção à porta.
Mal pude acreditar quando ele segurou a porta para que eu passasse, mas não me atrevi a questionar.
E minha felicidade durou pouco, pois a cara de Arthur ao parar na minha frente quando já estávamos próximos ao portão me assustou.
- Onde você pensa que vai? – ele questionou, autoritário.
Eu franzi a testa. “Por que você está falando comigo desse jeito?”
- Você chegou a pensar em me procurar? – ele continuou, ignorando meu protesto. – Isso chegou a passar pela sua cabeça, ou você estava ocupada demais com seus lindos movimentos na quadra? – ele ironizou na última parte.
- Quando eu voltasse...
- Ah, claro, eu aqui, o otário aqui se matando de preocupação e você ia me procurar quando voltasse? – ele estava realmente bravo, e meu orgulho estava começando a afetar meu humor. – Por que não me ligou pelo menos?
- Arthur, eu não tenho celular – me justifiquei, com a voz um pouco alterada.
- Podia ter pego o do Micael – ele sugeriu.
- Não gosto de ficar pedindo nada – cruzei os braços na frente do corpo.
Ele me observou um minuto, até que sua cara de bravo se desfez.
- Pode ir, Micael – ele disse, então voltou a mim. – Vem cá, pequena.
E me abraçou. Fiquei confusa por um instante, mas o efeito de seu perfume e o calor de seu corpo tão próximo a mim me derreteu, me fazendo envolver os braços a sua volta também.
- Desculpe – ele sussurrou contra meu cabelo.
- Tudo bem – eu disse, sentindo seu peito firme contra minha bochecha. – Te amo.
- Também te amo, pequena – ele segurou as laterais de meu rosto e me deu um beijo na testa. – Aonde você quer ir? – dei de ombros. – Quer aproveitar e jantar comigo? – ele pediu com um sorrisinho, segurando minhas mãos.
- Humm – fiz uma cara de pensativa. – Quero – respondi, sorrindo.
Ele abriu mais o sorriso e me deu um selinho.
- Vou pegar a moto, troque de roupa enquanto isso.
Assenti e fiz o que ele pediu. Afinal, minha saia de líder de torcida não era a coisa mais recomendada para ir jantar, ainda mais se o transporte for uma moto que me dá a impressão de estar a ponto de voar.
Dentro de quinze minutos, estávamos adentrando uma ampla e fria garagem.
- Shopping? – perguntei, confusa, quando as portas do elevador em que entramos se abriu novamente para o grande complexo de lojas.
- Que foi? Achei que você gostasse disso – ele passou as mãos por cima de meus ombros, caminhando ao meu lado.
Ele ainda não devia ter percebido o brilho nos meus olhos, mas eu sabia que eles estava lá. O brilho, quero dizer. Aquilo não era um shopping, ah não, aquilo era uma insanidade. Se isso era um shopping, o que era aqueles lugares por onde eu tanto andava no Brasil? Galerias?
Eram tantas lojas que me senti zonza por um instante. Por dois, por três... Arthur segurou firmemente meu corpo.
- Lu, o que foi? – ele perguntou.
Respirei fundo, voltando a sustentar meu próprio peso aos poucos.
- Nada, só uma tontura – dei um sorrisinho triste. – Já estou bem.
Ele me observou pelo canto dos olhos, suspeitando, enquanto eu o puxava em direção a loja mais próxima que vi.
- Vai me dizer que você gostou disso? – questionou Arthur com uma careta, observando a mesma vitrine que eu.
Um vestido de estampa florida bege e verde estava exposto em uma das manequins.
- O dia que eu vestir uma coisa dessas vai ser o mesmo em que darei um tiro na minha testa – sentenciei puxando ele para prosseguir pelo corredor. – Mas por que afinal viemos para cá?
- Bom, ainda está um pouco cedo para jantar, então por que não dar uma volta com a minha linda namorada? – ele ergueu as sobrancelhas, me deixando sem graça. – E acho que estou te devendo roupas novas.
- Arthur, odeio que paguem as coisas para mim – eu disse com uma careta.
- Encare como um reembolso.
- Sério, Arthur, isso realmente me incomoda – segurei suas duas mãos ficando de frente para ele, e de costas para o caminho que seguíamos enquanto andávamos. – Você não devia se preocupar com isso.
- Quero ver minha namorada bem vestida pra poder exibir ela, pode ser então? – podia ver naqueles olhos castanhos que ele não desistiria tão fácil. – Você não pode negar que seu guarda-roupa deve estar meio escasso para o inverno que está chegando.
- Tá bom – concordei a contra gosto. – Mas não se acostume a gastar comigo! Odeio isso.
- Bom, dinheiro é uma coisa que não vai me fazer falta tão cedo, então, relaxe – ele me deu um selinho.
Me virei novamente para nosso caminho, mantendo apenas uma mão entrelaçada a dele.
Achei que Arthur iria se encher disso rapidinho, mas até que ele aguentou bem. Por sorte, na maioria das lojas que passamos até que eu fui bem rápida, considerando o tempo que geralmente levo para escolher uma peça de roupa. Digamos que o interesse das vendedoras em serem úteis ajudou bastante nisso.
- Ok, Arthur, já são nove horas, podemos comer agora? Estou faminta – pedi, andando ao seu lado com mais uma sacola na mão.
- Ainda falta uma coisa – ele disse com um sorriso que eu não entendi.
- Arthur, já cheguei a comprar sapatos, você tá pior do que um amigo gay! – protestei, sentindo o cansaço me incomodar novamente. Eu amo fazer compras, certo, mas já estava bom por hoje. – O que mais você quer? - ele indicou com a cabeça, e eu olhei na direção. – Ha, nem pensar! – protestei totalmente incrédula. – Não vou entrar aí! Garotas não compram lingeries junto com os namorados!
- Eu sei – respondeu tranquilo. - Por isso eu espero aqui fora.
Ele sentou no banco pelo qual passávamos.
- Você está falando sério?
- Aham, pode deixar isso aqui – ele tirou a sacola que eu levava de minha mão. – Quando terminar, é só me chamar. Pode demorar o quanto quiser aí – eu o fuzilei com o olhar. – Se você não for lá escolher, eu compro e depois te entrego, você decide.
Bati o pé e me virei para a loja, respirando fundo para tomar coragem. “Certo”, disse para mim mesma, “eu posso fazer isso.”
- Amor – Arthur me chamou. Eu estava crente que ele iria dizer que era brincadeira, que eu não teria que comprar nada, mas ele logo cortou minha alegria: - Não tenha vergonha de ousar.
Minha boca deve ter ido parar no chão, de tão absurdo que era aquilo. Demorei um instante para me recuperar novamente. Dei uma bela fuzilada em Arthur antes de voltar a caminhar em direção a loja. “Te amo”, ouvi-o dizer antes de entrar, me fazendo dar um sorrisinho involuntário.
Parei para observar alguns dos sutiãs ali pendurados e uma jovem vendedora não perdeu tempo em vir me rondar.
- Precisa de ajuda? – ela ofereceu com aquele sorrisinho simpático que é paga para dar.
- Ahn, meu namorado me obrigou a vir aqui – eu disse, louca para me livrar disso logo. – Será que tem alguma coisa do meu tamanho? Não sei direito o que escolher...
- Deixe ela comigo, Megan – uma outra vendedora me cortou. Eu nem tinha me dado conta de que alguém mais estava me escutando. – Pode ir – insistiu ela para a vendedora mais jovem, que fechou a cara ao se afastar.
Com um cabelo até os ombros e só um pouco gordinha na barriga, a mulher aparentava menos de quarenta e até era atraente. Mas não entendi o porquê da repentina intromissão.
- Eu sei do que você precisa, querida – ela disse com um sorriso carinhoso. – Por aqui – ela me guiou pela loja, parando em alguns pontos e pegando algumas peças. – Primeira vez que você faz isso sozinha? – ela perguntou inocentemente.
- Aham - me senti extremamente desconfortável, como se fosse uma criança.
- E onde está o seu namorado? – ela colocou outro par de lingeries em meus braços.
- Lá fora – respondi olhando para o chão.
- Espere um instante – ela se afastou até a porta da loja, dando meia-volta e passando por mim, fazendo sinal para que a seguisse mais fundo na loja. – O que você acha desse? – ela perguntou me mostrando um conjunto de espartilho, calcinha e uma rendinha para a perna. Arregalei meus olhos para ela. – É, algumas fazem isso quando eu mostro, mas todas sempre voltam para comprar outro. O seu namorado é aquele sentado no banco, não é? – assenti com a cabeça, observando os detalhes em fita no espartilho preto e vermelho. – E o que ele diria disso?
Minhas bochechas esquentaram. “Acho que uou” disse, pensando em sua reação.
Ela colocou na frente do meu corpo, medindo. Olhei para os lados, querendo me enfiar dentro de um buraco negro.
- Relaxe querida, não tem ninguém olhando – ela parou de medir o espartilho e o colocou na pilha em minhas mãos. – Ele serve. Acho que está bom por hoje, não é? – assenti silenciosamente com a cabeça. – Espere, não esqueça os assessórios – ela deu um sorrisinho e o resto em cima da pilha.
- Na verdade, eu não preciso disso – apontei para a rendinha no topo da pilha. Ela franziu a testa. – Sério, eu já tenho – murmurei baixinho.
- Certo – me arrependi logo em seguida, quando ela trocou a rendinha por algo longo, fino e preto. Meus olhos se arregalaram. – Ah, esse é melhor do que o outro – ela levantou as sobrancelhas. Claro, por que eu tinha que ter aberto minha boca grande? Agora eu tinha um logo chicote na mãos, que lindo. – Pode me dar isso aqui agora, querida, vou mandar embalar pra você.
- Ok, vou chamar meu namorado – sai de lá com a cabeça baixa, e meus olhos arderam de ódio assim que os pus em Arthur. – Será que podemos ir embora?
- Você escolheu alguma coisa? – ele perguntou com um sorrisinho.
- A vendedora escolheu pra mim – eu disse cruzando os braços. – E estou com medo daquilo.
- Vamos, Lu, não pode ser tão ruim.
- Ah, pode sim.
- Então quer dizer que provavelmente eu vou gostar, certo? – ele perguntou com aquele sorrisinho safado no rosto. – Me espere aqui – ele se levantou e me deu um selinho e, sem nem me dar tempo para protestar, entrou na loja, só saindo de lá novamente com uma sacola nas mãos.
- Só me diz que pelo menos você não olhou – perguntei, suplicando por dentro.
- Não, não olhei amor – ele pegou as outras sacolas no banco. – Agora sim, vamos comer.
- Finalmente! – comemorei, caminhando ao seu lado.
Jantamos tranquilamente em um dos restaurantes da praça de alimentação, e que não deixou absolutamente nada a desejar.
- Quer algum doce? – ele perguntou enquanto atravessávamos a praça de alimentação.
- Ah, não sei... – olhei a minha volta, dando uma rápida olhada nas opções. Um forte cheiro de cappuccino ou alguma coisa parecida chegou em meu nariz, vinda provavelmente da Starbucks. Aquilo embrulhou meu estômago violentamente. – Deus, vamos sair daqui, que terrível! – puxei Arthur apressada para longe dali, tentando com todas as minhas forças não vomitar.
- O que foi? – ele perguntou confuso.
Mas já era tarde, aquele cheiro havia me detonado. Uma placa logo a frente indicava um banheiro há alguns metros. Corri pelo corredor deixando Arthur para trás, e entrei apressada no banheiro, empurrando umas duas mulheres que ficaram em meu caminho. Novamente aquela sensação de queimação tomou conta de minha garganta, e eu vomitei pela segunda vez naquele dia.
- Meu Deus, o que houve, Lu? – perguntou Arthur desesperado, me atacando assim que sai do banheiro feminino.
- Um cheiro horrível de cappuccino – eu disse com uma careta.
Ele me olhou, suspeito. “Você adora cappuccino.”
O estranho é que isso era verdade. “Mesmo assim... fiquei um pouco enjoada.”
- Vou marcar uma consulta pra você – ele sentenciou.
- Arthur, eu estou bem – protestei.
- Não, você não está – ele me olhou sério e eu não conseguia acompanhar direito o que ele dizia, pois já havia me perdido naqueles olhos castanhos.
- Acho que é só o cansaço – cortei-o no que quer que ele ainda estivesse falando. – Podemos voltar para escola? Tô morrendo de sono.
Ele bufou. “Vamos.”

- Lu – Arthur me chamou na porta do meu quarto.
- Acho que já está tudo pronto – disse Sophia a mim, fechando sua mochila. – Até segunda, Lu – ela acenou e saiu do quarto.
- Entra, Arthur – eu convidei tacando o resto de roupa embolada dentro da mochila, já que eu sempre deixava para arrumar tudo no último minuto nas sextas nunca dava tempo de dobrar. – Você viu se Rachel já chegou? – ele franziu a testa. – A mãe da Lauren.
- Ah, acho que não – ele disse entrando no quarto e me abraçando pelas costas. – É... pra você – ele estendeu um celular a minha frente.
- Ah, Arthur – me virei para ele emburrada. – Obrigada, mas você sabe que não posso aceitar.
- Qual é, Lu – ele reclamou me abraçando de frente agora. – Você precisa de um e sabe disso.
- Já não bastaram as roupas ontem? – reclamei incomodada. – Pagar um jantar é uma coisa, Arthur, isto já está passando dos limites.
- Prometo que é a última coisa – ele tentou me dar um selinho e eu virei o rosto. Mesmo assim ele me deu um beijo na bochecha. – Por favor, preciso ter contato com você. E além disso, o fato de seu celular ter se explodido foi culpa minha, assim como suas roupas.
- Eu posso muito bem pedir um novo para minha mãe, não sou tão pobre quanto você pensa – é, aquilo me irritava.
- Eu sei que não é – ele me olhou sério. – Mas gosto de manter contato com você, saber que está bem, e até sua mãe te mandar o dinheiro e você comprar um novo...
Bufei impaciente. “Me dá isso aqui, vai.” Arranquei o celular de sua mão e o liguei. Tela grande e ricamente colorida, mostrando uma foto que me derreteu por dentro. O idiota tinha me vencido. Era uma foto nossa. Mas não qualquer uma: era aquela que Micael tinha tirado quando nos conhecemos, quando dormimos – literalmente – juntos. No papel de parede ele estava em um sono profundo ao meu lado, com uma expressão tranquila, quase como feliz. Muito parecida comigo, na verdade.
- Awn, te amo, Arthur! – dei um selinho nele, e isso logo virou um beijo.

Um comentário:

  1. A Lua tá gravida? Pelas coisas que tá aparecendo! Muito linda a ultima a parte posta mais!

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