24 março 2013

"Dangerous"


Capítulo 15 - Ignorance

Mas é claro que eu não iria contar a ninguém, e Micael sabia disso. Afinal, eu não queria que Arthur ficasse sabendo que eu tomava remédios. Micael estava certo, eu era fraca, e Arthur saber que eu era fraca ao ponto de ter que tomar anti-depressivos não ia me ajudar em nada.
Após uma noite de sono pesado, minha primeira aula era de Física. Eu estava ignorando Suede com todos os meus esforços, mas percebia seus olhares pra mim.
- Me desculpa, Lu – ele insistiu.
Me arrependi de ter chegado cinco minutos mais cedo na sala, vazia exceto por Chay, que havia me seguido desde os armários.
Eu o ignorei, olhando firmemente para o quadro negro. Ele me cutucou.
Outro problema dessa aula é que Chay era minha dupla, então ele estava próximo o bastante pra me encher o saco o quanto quisesse. Meus pedidos para troca de lugar não haviam surtido efeitos, pois os professores não entendiam meu motivo repentino, já que a diretoria não havia tomado conhecimento da briga. A escola inteira ainda comentava da briga, mas a diretoria parecia nem sonhar com ela. E se sabiam, não fizeram nada quanto a isso, o que eu achei um absurdo, apesar de estar feliz por Arthur não ter se ferrado.
- Lu – ele me cutucou novamente. – Por favor, meu Arco-íris. Eu só estava tentando te proteger.
Olhei-o irritada. “Proteger?”
- É, Lu – ele disse, aproveitando a brecha. – Eu só queria que você enxergasse o que estava fazendo.
- Ele gosta de mim, Chay – eu disse devagar, olhando o quadro novamente.
- Eu sei disso – ele disse e olhei-o totalmente confusa. – Agora eu sei disso. Andamos conversando.
- Ah, que coisa linda – ironizei.
Ótimo saber que andaram conversando pelas minhas costas, Chayzinho.
- Ele parece ser legal.
- Ele é.
- Desculpa mesmo por aquele dia. Eu não devia ter pegado tão pesado. Não deveria ter me metido – eu vi seus olhos marejarem por um instante.
- Tudo bem – eu disse, me encostando em seu ombro. – Você só estava tomando conta de mim. Como um irmão mais velho.
- Você é nojenta – ele reclamou.
- Por quê? – perguntei, me afastando um pouco.
- Você agarra seu próprio irmão? Isso é doentio – ele disse, fazendo cara séria.
Soquei seu braço.
- Cala boca – eu disse rindo.
- Você sabe que eu não posso viver sem você, não sabe? – ele perguntou e eu repousei minha cabeça em seu ombro novamente, sorrindo.
O sinal bateu e aos poucos a classe foi se enchendo.
Na aula de história, eu não encarei Micael. Nem por um segundo. Mas ele não podia simplesmente me deixar em paz. Assim que o sinal de término bateu, ele largou um papel dobrado em cima de minha carteira a caminho da porta.
“Se você tiver coragem, mesmo horário e lugar hoje.”
Se eu tiver coragem. Ha, quem ele estava pensando que era?
Aproveitei meu horário vago para dar uma passada no texto da peça de teatro e fazer os trabalhos de química e aritmética.
Como Brooklie havia mudado de mesa desde segunda-feira – para a das patricinhas, o que era de se esperar - e eu não tinha mais problemas com Chay, convidei Arthur e Micael para se sentarem em nossa mesa. Quero dizer, aquela que dividia com Sophia, Ane, Maker e Chay.
Achei que alguém iria protestar, mas Micael logo roubou meu lugar ao lado de Sophia, me fazendo sentar entre Chay e Arthur. E para minha maior surpresa, os dois estavam se dando bem. Quero dizer, Chay e Arthur. Até cheguei a me sentir meio excluída.
E quando reclamei disso, os dois me confortaram. Chay bagunçou meu cabelo – mas eu sei que a intenção foi boa – enquanto Arthur mordeu minha bochecha.
E claro, tudo isso só serviu para atiçar as más línguas no colégio. Mas eu não me deixei levar pelos comentários sobre como Brooklie estava acabada: sabia que ela só estava esperando, como um jacaré espera para dar o bote. E eu estaria pronta quando ela quisesse. Ou pelo menos eu esperava que sim.

Reuni toda a coragem que tinha, pois estava indo para aquela droga de sala de dança por puro despeito, e rodei a maçaneta, sentindo um leve tremor com o estalo que a porta ao ser aberta.
Fiquei aliviada ao me deparar com a escuridão que dominava a sala de espelhos vazia.
- E aí, Five Colours? – Micael perguntou em meu ouvido. Eu gritei de susto. – Pronta pra mais uma?
Ele entrou atrás de mim e acendeu a luz.
- Escuta, eu tive um ensaio duro agora, e tenho muita lição de casa – me apressei a dizer. – Então, se você puder falar de uma vez o que você quer pra que eu possa ir embora...
- Corta essa – Micael trancou a porta, guardando a chave no bolso.
Engoli em seco. Sabia que a tortura iria começar.
Então, por que mesmo eu estava ali? – Ah, é, eu não estava a fim de contar ao meu namorado sobre os remédios que tomava. Pra não ter que aprofundar mais alguns assuntos dos quais eu tentava fugir.
- Bom, vou perguntar só uma vez – ele disse, vestindo as mesmas luvas fofas que vi no dia anterior. – Você vai colaborar comigo ou vai ser na marra?
Soltei o ar pesadamente. “O que você quer afinal?”
- Vai colaborar? – ele insistiu.
- Que seja – respondi, mal-criada.
- Vai?
- Vou! – gritei irritada.
- Ótimo – ele disse com um sorrisinho. – Vamos começar pelo lado mais difícil. Vem cá – me puxando pela mão me colocou em frente ao espelho, permanecendo atrás de mim. – Olhe para si mesma. – Encarei meu reflexo, com suas mãos em meus ombros. – O que você vê?
- Eu... – me analisei. – Ah, dou pro gasto – brinquei.
Ele riu baixinho. “Sério, o que você realmente vê?”
- Uma garota bonitinha e problemática – confessei.
- Estamos evoluindo. Então, vamos pular as preliminares de psicólogo e ir direto ao que interessa. Quais são seus problemas?
- São meus – respondi mal-humorada.
- Você disse que ia colaborar, e tudo o que disser...
- Pode e será usado contra você – eu cortei, sarcasticamente.
- Não, vai ficar entre nós. Prometo.
- Mas por que exatamente precisamos falar disso? – questionei cansada.
- Porque você precisa desabafar com alguém, e eu sei que por mais que confie nos seus amigos, não vai contar nada a eles. Só quero te ajudar.
- E o que te leva a pensar que vou contar logo a você? – me encostei a ele, observando sua imagem refletida no espelho. Ele me encarou de volta através do mesmo.
- Porque estou disposto a ouvir – respondeu sério. – Estou tentando evitar que Arthur termine com você, porque ele realmente gosta de você. Talvez, se você for capaz de se virar sozinha, ele mude de idéia.
Respirei fundo. “Ótimo, por onde quer que eu comece?”
- Olhe para si mesma, somente para si – ele disse em um tom ameno. – Relaxe. No que você pensa quando começa a passar mal?
Minha imagem, eu podia dizer, não era das mais agradáveis ao pensar nisso. Senti um calafrio percorrer meu corpo e me encolhi.
- Fique calma – ele disse passando as mãos por meus braços, esquentando-os.
- Certo – encarei meu próprio rosto. – Eu... sinto um desespero... não sei explicar... É horrível.
- E quando você fica desesperada, o que você sente, com o corpo?
- Bem – isso era mais fácil. – Meu coração fica acelerado e começa a me faltar ar. E junto com a tontura vem o formigamento nas mãos. Conforme vai piorando o formigamento passa pelo meu rosto e eu começo a não sentir minhas pernas mais.
- Lembre-se de que o ar nunca falta. Ele sempre está ali, você só tem que se esforçar em puxá-lo.
- Mas é difícil – eu disse aflita.
- Mas o ar está ali, você nunca fica sem ele nos pulmões. Ele está ali, é sua cabeça que te faz pensar que não está. Você só precisa pensar nisso, que há bastante ar, ok? – eu concordei com a cabeça. – Agora vamos voltar mais um pouco. Você tem isso desde que aquele garoto te agarrou lá no dormitório?
Eu achei graça. “Não.”
Ele franziu a testa. “Então, há quanto tempo?”
- Desde quando morava no Brasil.
- E por que você tem isso? O que houve? – ele perguntou e eu senti uma certa preocupação em sua voz, o que incrivelmente me fez sentir grata por ele estar ali.
Agressão, assédio sexual, tentativa de estupro, seja lá o que eles colocaram naquelas drogas de fixas. Mas eu não contaria a ele. Cheguei a abrir a boca para tentar soltar essas palavras, mas a sensação daquele homem me tocando de novo me travou. Meus olhos marejaram e de repente estava difícil raciocinar. Difícil afastar aquelas malditas lembranças.
- Ok, se acalma – ele pediu, observando minha expressão atordoada.
- Por favor, eu não quero falar disso – choraminguei, me virando e me encolhendo contra seu peito.
Ele me abraçou forte. “Tudo bem, não vamos falar disso então”, ele concordou. “Que tal brigar?”, ele sugeriu após um minuto, se afastando de mim. “Venha, desconte sua raiva em mim.”
Eu ri com a sua tentativa de me fazer sentir melhor.
Eu podia estar longe das minha melhores amigas de anos – com as quais ultimamente eu não andara falando muito -, longe da minha família e do estilo de vida com o qual cresci, mas podia ter certeza de uma coisa: algumas pessoas por aqui se importavam comigo. Não só Lauren e a família. E logo Micael, eu acabava de descobrir, também.
Me aproximei dele, que estava com as duas mãos erguidas em posição de defesa, e o abracei.
- Te adoro, Micael – eu disse sorrindo.
Ele, que fora pego de surpresa, demorou um instante para me abraçar de volta. “Também te adoro, Lu.”
- Agora, eu quero aprender a nocautear uma pessoa – eu disse me afastando e batendo palminhas empolgada. – Vamos, lá, professor, se prepare para apanhar.
- Você deve ser bipolar, dude – ele disse rindo.
- Não me chame de dude – eu reclamei, mesmo não achando realmente ruim. – Eu sou uma dama.
E soquei a mão dele.
- A Rainha Elizabeth sabe bater melhor do que você – ele provocou, arrumando a posição das minhas mãos. – Uma dama tem que ter postura. Corrija a sua. – Coloquei os ombros pra trás, sentindo uma leve dorzinha ao fazer isso. – Observe minhas pernas e faça o mesmo – arrumei minhas pernas conforme as dele. – Isso, agora você soca nas minhas mãos conforme eu contar até o três, ok? – assenti com a cabeça. – E um, dois...

- Caraca, foi no inferno e nem me chamou pra ir junto? – perguntou Sophia com sarcasmo quando apareci na porta do quarto.
Eu dei uma risadinha sem sal, ainda sentindo meu coração acelerado e estando levemente ofegante. E só porque além disso meu cabelo estava molhado de suor, não queria dizer que ela podia ficar tirando sarro de mim de graça. Quero dizer, se eu falasse que tinha sido o Micael quem me deixou naquele estado ela não ia gostar nem um pouco.
- É sério que eles pegam tão pesado assim no teatro? – ela insistiu. – Porque Arthur esteve te procurando agora pouco, então ele não foi o culpado. Você não traiu ele, né?
Eu rolei os olhos.
- Estava na academia, sua besta – entrei no banheiro e fechei a porta.
Nada melhor do que tomar um banho quente depois de tudo isso e cair na cama. Capotar soa mais apropriado, eu acho.
Acordei tremendo de frio. Tudo à minha volta pareceu meio embaçado, até que eu me acostumasse com luz que entrava pela janela e meus pensamentos parassem de rodar assustadoramente. Um pesadelo terrível foi o que eu ganhei por dormir tão profundamente.
Minha mente voltou a rodar e meu estômago acompanhou de um modo insuportável. Com um impulso pulei da cama e corri a tempo de chegar à privada, abrindo seu tampo e despejando toda as minhas ex-refeições de ontem. Respirei fundo sentindo minha garganta queimar e me encostei à parede de azulejos. Alguma coisa estava errada comigo, isso era certo. Quero dizer, quantas vezes eu vomitei antes desde os meus dez anos pelo menos sem que o motivo fosse bebida alcoólica? Que eu lembre, só nos últimos dias. Alguma coisa estava muito errada, eu podia sentir isso dentro de mim. Pensei que pudesse ser pelos meus “ataques”, mas agora eu estava bem. Um pouquinho zonza, é verdade, mas nada de falta de ar ou formigamentos.
- Você está bem? – Sophia apareceu a porta do banheiro esfregando os olhos.
- Preciso de um analgésico – eu disse com um sorriso de lado.
- Tem aí no armário, pode pegar – e saiu do banheiro.
Me levantei com um pouco de dificuldade e lavei minha boca. Peguei a cartela de analgésicos que achei coloquei em minha mochila no quarto, para se precisasse mais tarde, pois sabia que agora provavelmente não me adiantaria. Tontura não é dor de cabeça, mas Sophia não precisava saber disso.
Os únicos fatos incomuns naquela manhã foram Arthur chegar fazendo um toquinho divertido com Maker quando entraram na sala e Melanie voltar a sentar ao meu lado na aula de matemática.
Ela deveria estar brava comigo, pois era amiga de Brooklie, certo? Pelo jeito não. Ela sentou ao meu lado e tentou puxar conversa como se nada tivesse acontecido. Mas eu não engoli tão fácil, principalmente quando ela me disse que estava cansada de Brooklie, que agora definitivamente havia se tornado insuportável. E que eu deveria tomar cuidado com ela.
Por que todo mundo fica dizendo isso pra mim? Brooklie era só uma adolescente metida e mimada. Eu não tinha medo dela.
E Mel, eu não iria confiar tão fácil nela.
Certo, eu ia. Na verdade, eu já estava confiando. Tenho a péssima mania de na hora acreditar no que as pessoas falam, e só depois, quando repasso o assunto mentalmente, percebo se era mentira. Às vezes percebo.
Mas Arthur era mais astuto do que eu, fato.
Assim que na hora do intervalo sentei colocando minha bandeja sobre nossa mesa e dei um selinho nele, Mel apareceu com um sorriso amarelo perguntado se podia sentar conosco. Todos – além de Chay, que a olhava com brilho nos olhos e um sorriso – a encararam, pasmos.
“Pode”, respondi tranquila ao mesmo tempo em que Arthur dizia o contrario.
O olhei torto.
- Qual é, Lu, você está falando sério? – ele perguntou, incrédulo.
- Qual o problema, Arthur? – retruquei indignada. Mel parecia a ponto de enterrar a cabeça no chão de tanta vergonha.
- Você não pensa? Ela é a melhor amiga da Patterson – ele me encarava duramente enquanto falava. Não sei por quê, mas gostei do fato de ele se referir a Brooklie agora pelo sobrenome. – Ela só pode estar querendo alguma coisa ruim.
- Arthur, eu sei que você pensa coisas ruins de mim – disse Melanie sem graça, com a cabeça baixa -, mas estou tão cansada dela quanto você. Por favor, não me faça sentar com as segundanistas de novo, lá é tão sem graça.
Isso era verdade. Não havia prestado muita atenção, mas era verdade que ela havia sentado na mesa onde Lauren costumava sentar ontem. Como eu pude não prestar atenção a isso? E se com Lauren sentanda naquela mesa – o que não estava essa semana, pois estava gripada e de molho em casa – imagine sem ela.
- Senta aí – eu disse a ela.
Chay chegou para o lado dando espaço para que ela se sentasse entre mim e ele. Ele não era tão bobo quando queria.
Arthur bufou em contradição e durante o resto da refeição as coisas foram meio tensas.
- As pessoas merecem uma segunda chance – sussurrei para ele, aproveitando que Chay distraía Mel.
- Segunda chances nunca importam, as pessoas nunca mudam – sussurrou Sophia, sentada em frente a mim e com a cara amarrada.
Por sorte Mel não escutou. Ou pelo menos fingiu que não.
Eu conhecia o trecho da música do Paramore que Sophia acabara de citar, mas tudo o que fiz foi lhe lançar um olhar de repreensão.
Passando pelo corredor com minha mochila nas costas e Arthur segurando minha mão, tudo que eu podia fazer era sorrir. Mas sorrir parecia ser a última coisa em que Brooklie estava pensando quando passou por nós, esbarrando em mim.
Já estava até me virando para puxar aqueles cabelos ruivos e arrancá-los sem piedade quando Arthur me deu um puxão, me abraçando pela cintura firmemente.
- Ignora – ele sussurrou em meu ouvido, me dando um beijo na bochecha em seguida.
Mesmo com a raiva borbulhando em meu corpo, não pude deixar de sentir um arrepio com aquilo.
Bom, eu fiz o que Arthur pediu. Ignorei Brooklie durante toda a aula de Educação Física. Descobri que ela havia se jogado pra cima do professor – musculoso, só pra constar – e tentou convencê-lo a me tirar da equipe. Mas o professor negou seu pedido. Segundo Mel, ele simplesmente gostava de me ver com aquele shortinho e aquela saia, fazendo as acrobacias. Brooklie estava perdendo a posição de garota mais popular e desejada da escola e sabia disso.
Sua seguinte providência me fez esquecer o pedido de Arthur para que a ignorasse. Durante o almoço não cheguei a voltar para o quarto, o que estava me rendendo uma bela surpresa agora.
Se bem que bela certamente não descrevia aquela enorme pichação em vermelho vivo na porta do meu dormitório. “Vadia” era o que ela havia escrito.
Eu já estava na metade do caminho de volta a escola, pronta para achá-la na droga de aula que ela estivesse para sentar um bom murro na cara dela, quando Micael me barrou.
- Onde você vai? – Micael perguntou, me segurando pelos braços.
Estava tão furiosa que provavelmente havia sido minha expressão que me entregara.
- Matar a Brooklie – sibilei com as mãos fechadas em punho.
- Por que dessa vez? – ele perguntou tranquilamente.
- Ela pichou minha porta, com um enorme “vadia” escrito nela.
- E bater vai resolver? – ele ergueu as sobrancelhas.
- Se vai resolver, não sei, mas com certeza vai me fazer sentir melhor – então o olhei confusa. – E afinal, você me ensina a bater, não é?
- Pra se defender, é diferente – ele disse me puxando pelo braço de volta ao prédio feminino, sem se dar ao trabalho de verificar se algum funcionário poderia estar vendo. – E se você quer vingança, eu posso te ajudar.
- Como? – me interessei. Já que ele não me deixaria bater nela, pelo menos haveria justiça.
- Se você prometer me esperar quietinha no seu quarto, eu trago o necessário.
- Certo – concordei.
Ele me deixou na escada e saiu do prédio.
Aguardei ansiosamente sua volta, mal conseguindo me concentrar em meu livro, até a parte em que Suzannah começava a bater em outra pessoa.
Meus olhos brilharam quando Micael adentrou o quarto tirando uma lata de spray da sacola que carregava, uma lata de tinta e verniz.
- Eu te adoro – agradeci com um sorriso maligno.
- Vamos fazer o seguinte então – ele disse, colocando as latas no chão. – Eu restauro a sua porta enquanto você decora o quarto dela. Mas temos que ser rápidos, falta pouquíssimo tempo até que esse corredor volte a ficar lotado.
Assenti com a cabeça, sentindo a adrenalina ganhar vida em minhas veias. Ele jogou a lata de spray na minha mão, mas antes que eu atravessasse a porta, ele me chamou.
- Não conte nada ao Aguiar, não esqueça – e piscou para mim, me arrancando uma risadinha baixa.
Uma lata de spray que eu descobri ser preto ao testá-lo na porta de Brooklie. “lésbica” foi o que tratei de escrever ali. Eu sabia que ela não iria ficar só puta, mas sua fama iria se espalhar como fogo em palha. Além disso, ela tinha nojo; repugnância, como ela mesma descreveu uma vez. Eu nem ligaria, mas ela sim.
Mas as enormes letras em sua porta não me satisfizeram o bastante. Precisa de mais. Abri sua porta e sacudi a lata enquanto pensava no que escrever. Como minha mãe sempre me disse, eu era muito criativa, e não demorou muito para que suas paredes rosa tivessem as palavras “Invejosa, psicopata, demente, puta e lésbica. Essa sou eu” gravadas nelas. Talvez ela pudesse fazer uma música com isto. Me direcionei à porta ouvindo o soar do sino vindo lá de fora, alto como se fosse se viesse do corredor e apertei o spray direcionado para o carpete, só para um toque final antes de deixar aquele quarto. Com um último sorriso satisfeito fechei delicadamente a porta, voltando para a do meu quarto. Micael, passava rápidas pinceladas por ela, tendo quase finalizado. Não havia mais sinais da vandalização que a coitada havia sofrido mais cedo.
- Obrigada – agradeci passando por ele e adentrando o quarto.
- Se divertiu? – ele perguntou. Assenti com a cabeça, o sorriso ainda em meu rosto. – Viu, dar vida à sua expressão artística é melhor do que partir para a violência.
Eu tive que rir alto dessa.
– Opa, começou – ele tirou a lata de tinta de frente da porta e entrou rápido, fechando a porta em seguida.
Ouvi os passos e as vozes começarem a dominar o corredor. Micael levou a lata e o pincel para meu banheiro.
- Estou louca para ver a cara dela – eu disse ansiosa, me largando em minha cama macia.
- Amanhã eu envernizo a porta – ele disse voltando para o quarto.
Muitas risadas foram ouvidas pelo corredor.
- Acho que minha arte está sendo reconhecida – eu disse feliz.
Mais um minuto e um grito agudo me assustou. Alguns segundos depois, a porta do meu quarto estava sendo escancarada, revelando Brooklie e um bando de garotas se amarrotando pelo corredor. Com seu cabelo ruivo ligeiramente armado agora e a expressão furiosa, ela parecia mais do que nunca com um leão.
- Ao que devo esse incomodo? – perguntei cinicamente, levantando as sobrancelhas. Cruzei os braços atrás da cabeça, totalmente relaxada por ter conseguido o que queria.
- Como você ousou fazer isso? – ela gritou ensandecida.
- Estranho como os criminosos amadores sempre se confessam, não? – eu disse olhando para o teto. – Achei que seria falta de educação minha deixar de responder a seus recados.
Ela gruniu alguma coisa ininteligível, e correu para cima de mim. Micael, que estivera parado próximo a porta do banheiro, a segurou na metade do caminho.
- Alguém tem um sedativo aí? – gritei para as meninas no corredor. – Encontrei o tal leão que fugiu do zoológico. Ou era do circo? – perguntei me virando para ela.
Brooklie se debatia nos braços de Micael, tentado se soltar de qualquer forma.
- Ah, em falar nisso, amei a nova decoração do seu quarto – eu disse, dando uma piscadinha.
Ela ficou branca, literalmente. Por alguns segundos, parou de se debater nos braços de Micael, para então voltar com toda força. O que não pareceu ter afetado Micael, que a segurava sem hesitar.
Mel apareceu na porta e entrou com dificuldade para passar pelas garotas apinhadas ali.
- O que está havendo? – ela perguntou com as mãos na cintura e a voz esganiçada. – Que porra é aquela dentro do nosso quarto?
- FOI ELA – Brooklie apontou para mim. Ela berrava, e eu estava começando a me assustar. Seu rosto estava vermelho de raiva. – MEL, ELA ACABOU COM O NOSSO QUARTO!
- Você? – Mel olhou para mim, franzindo a testa. – Valeu, eu também durmo lá, sabia?
- É só você trocar de quarto – eu disse dando de ombros. – Quero dizer, você com certeza estará em melhor companhia.
- MEL, ACABA COM ELA, PELO AMOR DE DEUS – Brooklie continuava surtando nos braços de Micael. Ele parecia estar começando a ter dificuldades em contê-la.
Mel parou e analisou a situação por um instante.
- Certo, mantenha a calma, Broo. - Então se virou para a porta, onde as garotas curiosas disputavam lugar para assistir. - Quem aí tem uma cama sobrando no quarto?
Brooklie parou de respirar, isso era visível. Uma garota gritou lá nos fundos confirmando que tinha uma.
- Ok, vou pegar minhas coisas – se virou para Brooklie, que continuava sem respirar. A única indicação de que continuava viva eram as lágrimas de ódio escorrendo de seus olhos. – Tchauzinho, Broo – Mel disse, dando um sorriso cínico para a garota e saindo do quarto em seguida.
- Gente, alguém chamou o diretor, ele está vindo! – uma garota gritou ao fundo.
Seguiu-se uma confusão em seguida, na qual Micael conseguiu tirar Brooklie de meu quarto, enquanto ela continuava a se debater e as meninas se espalhavam, cada uma correndo para seu próprio quarto.
- Micael, você pode se esconder aqui – eu gritei para ele.
Sophia entrou no quarto às pressas, ofegante.
- Meu Deus, o que houve? – ela perguntou desesperada.
Micael voltou ao quarto e trancou a porta, se encostando ofegante a ela em seguida.
- Vai pro banheiro – eu disse, rindo da situação.
Os gritos escandalosos de Brooklie do outro lado da porta e as batidas fortes que ela dava me assustaram um pouco, mas não mais do que o grito de uma voz grossa que veio em seguida.
- O que está havendo aqui? – reconheci a voz do diretor esbravejando no corredor. – Senhorita Patterson, o que acha que está fazendo?
- AQUELA VACA ACABOU COM O MEU QUARTO – ela gritou.
Eu arregalei os olhos para Sophia, que me encarava boquiaberta.
- Já para a minha sala! – ele disse firme.
Prendi a respiração.
- Mas ela... – ouvi sua voz desesperada.
- Não me faça repetir, senhorita! Para minha sala agora.
Ouvi ela grunir de ódio antes de sair batendo o pé pelo corredor.
Alguns segundos depois novas batidas foram ouvidas na porta.
- Senhoritas, podem abrir a porta? – pediu a voz do diretor.
Okay, respire.
- O que eu faço? – sibilou Sophia desesperada.
Respirei fundo e esfreguei as mãos em meus olhos, provando lágrimas e adquiri uma expressão chorosa.
- Abre – sibilei de volta.
Arranhei de leve minhas bochechas antes que ela abrisse a porta. Essa é a vantagem de se ficar vermelha fácil. Baixei a cabeça e apoiei os braços no joelho.
- Blanco, está tudo bem? – o diretor perguntou preocupado, adentrando o quarto.
Balancei a cabeça negativamente, forçando os olhos até que as lágrimas começassem a cair.
- O que houve? – ele perguntou, provavelmente para Sophia.
- Aquela maluca da Brooklie veio aqui e começou a gritar com ela – disse Sophia.
- Por quê?
Levantei a cabeça, mostrando meu rosto choroso.
- Ela chegou aqui gritando e me acusando de ser a responsável pelo que fizeram no quarto dela – eu disse, dando um belo soluço em seguida. – Eu não entendo, nós éramos amigas, mas ela tem me tratado tão mal nos últimos dias! E agora – outro soluço - isso. Não entendo o que houve!
- Certo, se acalme – ele pediu, se aproximando de mim e sentando ao meu lado na cama. – Vou fazer o possível por você, querida.
- Eu, eu estou ficando com medo dela – eu disse, deixando novas lágrimas escorrerem por meu rosto. – Não consigo entender tudo isso, é confuso demais pra mim. As pessoas no Brasil não eram assim.
- Ok, moça, se acalme – ele tornou a pedir. – Vou dar a ela uma suspensão. Se isso não resolver, quero que me procure imediatamente, entendido?
Assenti com a cabeça. “Obrigada, senhor”, disse com a voz chorosa, dando um sorrisinho triste. “É muito bom ter o apoio de alguém por aqui.”
Ele passou a mão por meu rosto, enxugando uma lágrima.
- Certo – ele disse, ligeiramente desconfortável. – Melhor eu ir logo – se dirigiu a Sophia: – Cuide dela, por favor.
- Claro – ela concordou, tomando seu lugar ao meu lado na cama.
Só bastou que Micael ouvisse o som da porta se fechando para aparecer na porta do banheiro.
- Será que alguém agora me explicar alguma coisa, porra! – exigiu Sophia, estressada.
Eu ri, desmanchando totalmente minha cara de choro.

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