21 março 2013

"Dangerous"


Capítulo 12 - Walk in the sun

Em meia hora estávamos dentro de um avião, não me pergunte como. Só sei que ele deixou a moto no estacionamento do aeroporto e saímos correndo para pegar a última chamada do vôo, para o qual ele já havia arranjado as passagens. Aviões podem ser divertidos quando não se está atravessando um oceano inteiro, principalmente se você pode ficar olhando sem nenhuma restrição pro cara mais gostoso que você já conheceu na vida e que ainda usava uma blusa justa, sentado no banco ao seu lado, com uma mão entrelaçada frouxamente na sua e dormindo profundamente.
O mais divertido foi ver a cara da aeromoça quando eu perguntei pra onde o avião ia. Geralmente as pessoas sabem pra onde o ônibus que pegaram vão, mas eu não sabia nem pra onde ia o avião em que estava, além de ter deduzido que seria algum lugar na costa.
Quando pousamos ainda era dia, mas Arthur – com a cara amassada – disse que iríamos para algum hotel até amanhã de manhã.
- Você vai querer um quarto só pra você? – ele perguntou gentilmente para mim enquanto atravessávamos o saguão do hotel que, mesmo não sendo temporada, estava bastante movimentado.
Eu sorri, e tirei os óculos escuros quando chegamos ao balcão da recepção. Uma bonita mulher loira nos perguntou se eram dois quartos, e eu percebi que ela olhava de um certo jeito para Arthur. Sabe aquele jeito de “me come”? Então, era esse mesmo.
- Um quarto de casal – eu disse antes que Arthur abrisse a boca.
- Identidades? – ela pediu com uma cara um tanto amarga, mas mantendo a voz gentil.
- Já tenho reservas se não me engano – disse Arthur, passando um braço por meus ombros. – Arthur Aguiar.
Ela mexeu no computador por alguns instantes. Arthur pegou seus documentos na mochila e colocou-os sobre o balcão. Ela conferiu com alguma coisa no computador.
- Preciso da sua identidade – ela me pediu com a voz um tanto afiada.
Eu remexi no bolso da frente da minha mochila e entreguei meus documentos a ela. A cara azeda que ela fez quase me fez rir.
- Emancipada – disse ela, devolvendo meus documentos. Ela pegou uma chave em algum lugar e entregou-as a Arthur. – Boa estada – disse ela, apesar de não desejar aquilo.
- Não sabia que você era realmente emancipada – disse Arthur, passando novamente seu braço por meus ombros.
- Minha mãe achou mais fácil me emancipar pra facilitar minhas coisas por aqui – eu disse. Ele apertou o botão do elevador e ficamos esperando. – Como você conseguiu um quarto se ainda é menor de idade?
Ele deu uma risadinha.
- Primeiro que dinheiro compra tudo, segundo que não sou mais menor de idade – ele disse entrando comigo no elevador. – Sou mais velho que você, esqueceu, mocinha?
Eu achei que o hotel era grande, mas percebi que era mais sofisticado do que eu esperava quando entramos em nosso quarto. Grande, limpo e com uma decoração esplêndida.
Eu deixei minha mochila no chão pelo caminho até a cama e me joguei nos lençóis brancos e macios, cheirando a amaciante. Eu senti o efeito da poltrona do avião na minha coluna então.Arthur riu.
- Tá com sono? – ele perguntou.
- Não, apenas um pouco cansada – eu respondi preguiçosamente.
- Que pena, ia te chamar pra conhecer um pouco da cidade…
Eu levantei animada. Adoro lugares novos, isso era sempre estimulante.
- Vou tomar banho – eu corri para o banheiro.
Tomei um banho rápido e me sequei com a toalha branquinha felpuda, só então me tocando que minha mochila com roupas limpas havia ficado no quarto. Me enrolei na toalha e entreabri a porta. “Arthur?”, eu chamei, mas não houve resposta. Eu saí do banheiro pra pegar minha mochila jogada no meio do quarto, percebendo que Arthur estava na cama, escutando música tão alta com os fones de ouvido que eu podia ouvir o chiado de onde estava. Ele me olhou pior do que a forma como a recepcionista tinha o olhado. Sentindo meu rosto esquentar e tratei de voltar rapidinho para o banheiro, só saindo de lá completamente vestida.
- Aah! – lamentou-se Arthur. – De toalha tava mais legal!
Eu tive que rir dessa. “Vai tomar banho”, eu pedi. “E não demore.”
Ele deu aquele sorrisinho malicioso. “Vem comigo?”
Eu ri alto. “Não”, eu cortei a alegria da criatura. Ele fez carinha de cachorrinho sem dono. “Vai, fedor!”, eu o zoei. Ele arrancou a camisa no caminho até o banheiro, me deixando ver aquelas trabalhadas costas. Eu quase me arrependi de não ter aceitado o convite dele. O tempo de ele tomar banho foi praticamente sincronizado ao meu de pentear o cabelo e passar uma maquiagem básica.
Saímos do hotel e fomos para a praia, que ficava a menos de cinco minutos do hotel, nos dando chance de ver o pôr-do-sol, sentados na areia branquinha e fina – diferente da amarelada e grossa da maioria das praias as quais eu costumava ir no Brasil.
Aqui o sol parecia um pouco mais pálido também, mas isso não me incomodava nem um pouco. Nunca fui muito fã de dias de sol escaldante. Eu estava com um short branco e meu adorado agasalho verde de linho, por isso a brisa fraca e gelada vinda do mar não me incomodava. Meus tênis descansavam lado a lado aos de Arthur, então eu podia sentir aquela areia gostosa em meus pés. Eu abracei meus joelhos, apoiando a cabeça neles, e observando o sol ser engolido calmamente pelo mar, misturando no céu tons lindos de rosa, laranja e azul.Arthur passou o braço por meus ombros, me encostando a seu corpo. As religiões falam de um paraíso na terra e que os verdadeiros devotos estariam nele. Bem, eu não me lembro de ter feito coisas o bastante para merecer isso. Talvez eu tivesse sido uma boa samaritana nas outras vidas, vai saber. O fato era que eu estava conhecendo o paraíso naquele exato momento, com aquela brisa deliciosa e carregada do cheiro do mar, a sensação da areia em meus pés, o barulho das ondas quebrando sem violência, o sentimento de pura paz, aquela paisagem maravilhosa e quem eu mais desejava nesse mundo bem ao meu lado, me abraçando e fazendo carinho em meu braço. Apenas sentindo a presença um do outro, isso era o bastante.
O sol sumiu totalmente no horizonte, mas a luz de seus raios ainda cobria um pouco da imensa escuridão da noite que avançava pacientemente pelo céu. Arthur se levantou, limpando um pouco da areia em sua bermuda e me estendeu a mão para me ajudar a levantar em seguida. Com o par de tênis em uma mão e a outra entrelaçada a dele, seguimos caminhando devagar pela praia, nos aproximando aos poucos do mar. Chegamos a uma parte em que a areia estava molhada e fofinha, e a água gelada alcançou meus pés, me fazendo pular soltando um gritinho. Arthur riu e se abaixou, pegando alguma coisa na areia.
- Que lindinha! – eu disse pegando a conchinha colorida que ele me estendia, e tirando a areia dela com o dedão, já que a outra mão estava ocupada. – Guarda pra mim? – eu pedi e ele a guardou no bolso da bermuda.
Entrelaçamos nossas mãos novamente e ele me puxou novamente para onde a água alcançava. Dessa vez eu não me assustei com a temperatura da água, apenas dei um chutinho nela, espalhando-a no ar a minha frente. Arthur me levou até a parte em que o mar chegava à metade da minha perna. Ele soltou minha mão e jogou um pouco de água em minha direção, e eu instintivamente tentei me proteger com as mãos, o que não foi muito eficiente. Rindo, eu revidei água nele, com um pouco mais de força do que devia, e a água acertou seu moletom, rosto e cabelo.
- Ah não! – reclamou ele. – Meu cabelo, dude, sacanagem - eu ri da careta dele. – Vai rir mesmo? Você vai ver também! Agora eu te afogo!
Ele se precipitou em minha direção e eu saí correndo, espalhando água ao meu redor.
- Não, Arthur! – eu gritei quando ele me alcançou. Ele me pegou no colo e eu me agarrei forte ao seu pescoço, com medo de que ele me jogasse naquela água gelada. – Por favor!
Ele me rodou no ar. “E por que eu não deveria?” Ele meio que me deixou cair por meio segundo, me firmando novamente logo em seguida, apenas como ameaça. Eu me agarrei mais forte ao seu pescoço.
- Nãão! – eu implorei, começando a rir. Era bom ficar ali, em seus braços. – Porque eu sou muito boazinha, ganhei presente no natal. Papai Noel vai ficar bravo com você se você me jogar. - Ele gargalhou alto e eu ri junto. – Por favor!
- Está bem. Mas pra sair daqui também, vai ter que pagar pedágio – e lá estava aquele sorriso infantil e feliz dele, me fazendo quase suspirar.
Eu não me importaria de ficar em seus braços pra sempre. Ele aproximou o rosto até que nossos narizes estivessem encostados, com aqueles olhos me hipnotizando. Ele juntou nossos lábios e deixei que sua língua passasse por eles, sentindo seu gosto quente em contraste com a brisa fria e salgada. Eu só percebi que ele havia andado quando me abaixou, até me deitar na areia sequinha. Agora o céu estava escuro e as pessoas passeavam tranquilamente pela areia a longa distância. Arthur sabia até onde podia ir, principalmente em público. Ele afastou meu cabelo do rosto e eu me virei, deparando novamente com aqueles perfeitos olhos castanhos. Eu dei um selinho nele e, não me sentindo satisfeita, dei outro, e outro, até que estávamos em um beijo profundo novamente.
Após tirar a areia dos pés e calçar os tênis, caminhamos até um sofisticado e calmo restaurante, de onde podíamos ver a praia pela janela. Na verdade, tudo naquela praia parecia ser calmo e sofisticado. Ninguém aqui andava rápido, todos pareciam felizes e, apesar de ser bastante movimentada, não havia tumultos. O que jantamos? Frutos do mar, claro.
Voltamos ao hotel caminhando também, e Arthur parecia conhecer aquela cidade. Quando perguntei, ele respondeu que costumava passar alguns feriados em família por aqui antigamente.
Fomos pegar a chave na recepção e lá foi a loira-água-de-privada com suas asinhas pra cima dele. Eu esperava a típica reação masculina, ainda mais de alguém como Arthur, que ele começasse a jogar charme pra cima dela também. Mas não, até meu desejo de ter um bastão em chamas pra acertar aquela vaca passou quando ele simplesmente não deu atenção a ela. Apenas pegou a chave e passou a mão por meus ombros novamente, deixando que toda a água oxigenada escorresse de dentro do couro cabeludo dela e escorresse por sua boca. Ele a deixou babando sozinha, e eu postei um sorriso vitorioso em meu rosto enquanto nos encaminhávamos para o elevador. Ele me deu passagem após abrir a porta e eu fui direto sentar na cama e tirar meus tênis. Eu estava cheia de areia e com cheiro da água do mar. Com certeza precisava de mais um banho. Me levantei e fui para o banheiro mas, antes de fechar a porta, senti meu braço ser puxado e em milésimos de segundos estava correspondendo animadamente a um beijo de Arthur. Devagar ele foi me empurrando para trás, até que eu estava com as costas pressionadas contra o vidro do Box. Ele tirou meu agasalho de linho, dando chance as suas mãos de passearem por minhas costas, por baixo da blusa branca que eu ainda vestia. Eu me livrei do casaco dele também, sentindo meu corpo esquentar em cada parte em que nossas peles se encontravam. Eu mordi seu lábio com um pouco de vontade demais.
- Ai, Lu – reclamou ele, parando de me beijar. – Não precisa ser tão violenta também.
Eu fiquei sem graça enquanto ele passava a mão por dentro da boca para verificar se não havia sangue.
- Desculpa – eu murmurei, sentindo meu rosto esquentar.
Ele deu um sorrisinho. “Eu sobrevivo” - e me deu um selinho, saindo do banheiro para que eu pudesse tomar banho.
Minha mochila por sorte ainda estava no banheiro, porque eu havia me esquecido dela novamente. Vesti a baby look e o shortinho de pijama, e voltei ao quarto. Arthur entrou no banheiro cheio de vapor e, antes que eu terminasse de escutar uma música que havia colocado para tocar no celular, ele estava saindo do banheiro com uma bermuda de algum tecido aparentemente confortável e… a toalha que ele esfregava nos cabelos conta? Eu fiquei lá, que nem idiota babando nele. Afinal, por que um cara gostoso daquele estava com uma garota como eu? Não que eu fosse feia, mas, cara, olha só pra aquele corpo totalmente trabalhado, aquele rosto perfeito, aquele jeito…
Eu poderia ficar ali a noite toda pensando em tudo sobre ele, mas ele tinha que estragar meu interessante devaneio:
- Avril Lavigne? – meu celular estava em sua mão.
Eu chacoalhei a cabeça para voltar a realidade. “É.”
Ele jogou o celular de volta na cama. Do nada, tudo ficou branco e úmido.
- Arthur! – eu reclamei, brava, arrancando a toalha da cabeça com violência, me arrependendo logo em seguida, pois meu cabelo havia virado uma bagunça. Para irritar uma garota basta bagunçar o cabelo dela, dica. - Eu te enforco com essa mesma toalha, Aguiar! – ameacei e fui pra cima dele, que se encontrava sentado ao lado do meu celular na cama.
Bom, é um fato que Arthur sempre foi mais ágil do que eu. Ele segurou meus braços e me jogou de costas contra a cama, fazendo meu celular voar no chão. Ele prendeu minhas pernas com as deles e me encarou. Por que eu estava querendo enforcar ele mesmo? Como eu poderia querer fazer qualquer coisa contra ele? Essa ideia só não era mais absurda do que a intensidade de nossos olhares, praticamente tocável. Era como se ele tentasse me dizer alguma coisa, e eu finalmente estivesse começando a pegar a mensagem. Eu enxergava um aviso de que tudo isso era perigoso, mas havia algo ainda mais forte do que isso, e ele me disse antes que eu pudesse conseguir decifrar por completo:
- Eu amo você – aquela voz parecia atravessar minha pele, e eu não conseguia ter reação, a não ser a de corresponder aos beijos que se seguiram.
Apesar de eu estar em quarto de hotel, em um lugar desconhecido e paradisíaco com o cara mais perfeito do mundo, eu tinha meus limites. Alguns pais matariam seus filhos, minha mãe não fazia nem ideia. E eu não estava nem ligando. Eu confiava nele, realmente confiava. Tudo parecia simplesmente certo. Mas eu não estava mentalmente realmente preparada para seguir adiante, precisava de mais tempo. E ele sabia disso.
Uma noite tranquila com sonhos felizes e os braços de Arthur a minha volta. Minha mãe sempre disse que eu gritava à noite, que meus sonhos sempre eram perturbados. Hoje eu acordei sorrindo.
- O Arco-Íris resolveu despertar? – sussurrou Arthur.
Eu senti um arrepio percorrer minha espinha. Preguiçosamente me virei na cama, ficando com o rosto a centímetros do de Arthur. Ele me deu um selinho.
– Bom dia, linda.
Eu sorri. “Bom dia, amore.” Passei a mão por seu cabelo, sem conseguir bagunçá-lo mais do que já estava.
Ele deu um beijo em minha testa. Sentou na cama, se espreguiçando, e pegou o telefone que ficava na cabeceira. Enquanto ele pedia nosso café da manhã eu me ajoelhei na cama e abracei-o por trás, dando um beijo em seu pescoço. Ele desligou e passou a mão por cima dos meus braços em volta de seu pescoço. Eu me assustei quando ele segurou firme meus braços e se levantou, me puxando com ele.
- Arthur! – eu gritei quando ele começou a me arrastar para fora da cama. – Eu vou cair! Me solta!
Ele me soltou. Eu desequilibrei, quase caí de cara no chão, se não fosse por minhas mãos na frente.
- Wow! – ele correu para mim assustado, me ajudando a levantar.
Assim que eu estava novamente segura sentada na cama, aproveitei que ele estava perto e dei um belo e estalado tapa em seu braço. Ele reclamou de dor.
- Como você ousa me largar desse jeito no chão! – eu ralhei, apontando o dedo na cara dele.
Ele fingiu que ia morder meu dedo, e eu recolhi minha mão.
- Você falou pra eu te largar e eu larguei! – ele se defendeu.
Eu o fuzilei com o olhar. “Aguiar, era pra você me largar em segurança!”
- Aah, vem cá, amor – ele se aproximou, passando os braços a minha volta.
Há, depois dessa ele não vai me bajular tão fácil. Eu afastei seus braços e me levantei, indo para o banheiro para uma rápida higiene. Quando abri a porta o café-da-manhã estava sendo colocado em cima de uma cômoda por um funcionário – jovem, mas que não fazia meu tipo – e Arthur estava parado, segurando a porta aberta.
Eu tive que respirar fundo com a imagem daquele peitoral descoberto ali. Peguei meu laptop dentro da mochila e sentei na cama com ele no colo. Eu quase o derrubei com o barulho da porta batendo com força. Arthur de repente parecia bravo.
- Que foi? – perguntei inocentemente.
Foi a vez dele de me fuzilar com o olhar. “Você podia esperar aquele cara sair, em vez de ficar desfilando com essas roupas indecentes pelo quarto.”
Eu pisquei duas vezes antes de assimilar, depois olhei para minhas roupas. “Arthur, é só um pijama, você pirou?”
Do jeito que ele falava parecia que eu estava pelada, meu Deus.
- Curto o bastante pra aquele cara ficar olhando suas pernas e... - Eu dei de ombros e ele me olhou indignado. – Você nem liga?
- O cara passa por isso o dia todo, você acha realmente que alguém vai perder o tempo olhando pras minhas pernas? Qual é, já vi meninas no Brasil usando coisas bem mais curtas – ele me olhou um tanto confuso. – Lá é muito calor em alguns lugares.
- Quer dizer que você usava roupas assim lá? – ele sibilou ficando um tanto vermelho.
Nossa, amor, desestressa.
- Não exatamente. Mas, ah, Arthur, saí dessa. Você fica tão exagerado quando está com ciúmes! – ele abriu a boca para retrucar, mas o cortei: - Respire fundo, querido, temos um fim de semana maravilhoso pela frente.
Achei melhor não mencionar a recepcionista que tinha água oxigenada nas veias em vez de sangue, para nos poupar de outra discussão à toa.
Ele se virou e foi pegar a bandeja do café-da-manhã, colocando-a em cima da cama. Eu observei bem aquela bandeja farta e fechei o laptop que mal havia acabado de ligar.
Nós comemos em silêncio, e aquilo estava começando a me incomodar.
- Arthur? – eu chamei, manhosa. Ele ergueu o olhar pra mim. – Você tá bravo comigo?
Eu não consegui decifrar sua expressão, que mudou de repente.
- Claro que não, meu amor – ele fez carinho em minha bochecha com o polegar. Nós ficamos ali nos olhando durante alguns segundos. – Agora vamos, pequena, se arruma logo – e me deu um selinho.
Eu sorri timidamente, e ele fez o mesmo, se levantando em seguida. Devo ter ficado um minuto ou mais ali, simplesmente observando Arthur mexer na mochila, andar daqui para lá no quarto, até que ele entrou no banheiro e fechou a porta. Eu suspirei e me levantei para me arrumar.
Felizmente, a vaca que deveria mamar água oxigenada todo dia de manhã não estava lá quando fomos fazer o check-out. Com as mochilas nas costas, caminhamos pela praia. Arthur queria almoçar antes de pegar um barco, e seria um pecado não aproveitar um pouco daquela praia com um sol tão radiante no céu. Estava calor o suficiente para meu short branco e uma camiseta regata serem usados.
Arthur estendeu um pano leve na areia e nós sentamos nela. Dali a um tempo, um grupo de amigos apareceu, sentando um tanto próximos a nós. Três deles estavam com pranchas nas mãos, outros dois de bermuda e com a camisa jogada por cima dos ombros. Havia também três garotas, todas de biquínis e cangas. Eu as invejei por poderem estar usando aquilo, enquanto eu fiquei receosa de colocar qualquer coisa mais curta do que meus shorts brancos com Arthur por perto, depois de seu showzinho mais cedo. Notei que um dos garotos de bermuda carregava um violão, e depois das garotas estenderem suas cangas na areia, ele o largou ali.
- O último a chegar na água paga o meu almoço! – gritou o mais garoto mais alto, disparando para a água e carregando sua prancha.
- O meu também! – gritou outro também com uma prancha e seguiu o primeiro.
Todos os outros dispararam atrás dos dois primeiros, fazendo algazarra pelo caminho. As meninas riram e deitaram em cima das cangas.
Eu observava os garotos nadando na água e os surfistas sendo engolidos pelas ondas. Apenas o mais alto parecia estar lidando bem com a água hoje. Arthur se levantou e eu o observei confusa, enquanto ele se aproximou das garotas estiradas. O que ele achava que estava fazendo? Será que vou ter que fazer uma plaquinha escrita “Oi, Arthur, ainda estou aqui, seu desgraçado” e assobiar pra ele me notar?
Uma das garotas levantou os óculos escuros e o olhou de cima abaixo, enquanto ele falava algo que eu não conseguia ouvir. Eu estava prestes a me levantar e afogar aquela garota na areia e depois matar Arthur com um pedaço de pau, quando ela consentiu alguma coisa com a cabeça e ele pegou o violão encapado em uma capa preta e voltou para mim.
Sentando ao meu lado com as pernas cruzadas em estilo índio, ele desencapou o violão de madeira clara e o apoiou na perna direita.
- Arthur, você... – ele levantou o dedo indicador pedindo um minuto, e eu me calei, voltando a olhar para os garotos no mar.
Primeiro ele tentou algumas notas, e murmurou coisas tão baixinho que eu não conseguia ouvir. Aquela brisa calma e salgada batia em minha pele descoberta, e eu comecei a brincar com a areia ao meu lado. Então a melodia tomou forma, abafando todos os outros sons quando sua voz se juntou aos acordes. Eu me virei para contemplar aquele rosto perfeito.

- I wonder what it's like to be loved by you
I wonder what is like to be home
And I don't walk when there're stones in my shoe
All I know that in time I'll be fine

Ele se virou para mim, deixando que nossos olhos formassem algum tipo de conexão, e eu podia novamente ver através deles.

I wonder what it's like to fly so high
Or to breathe under the sea
I wonder if someday I'll be good with goodbyes
But I'll be ok if you come along with me

Ele respirou fundo e eu senti meu coração acelerar de um modo que deveria ser até perigoso.

It's such a long long way to go
Where I'm going, I don't know
Yeah, I'm just following the road
Through a walk in the sun
Through a walk in the sun

I wonder how they put a man on the moon
I wonder what is like up there
I wonder if you'll ever sing this tune
All I know is the answer is in the air

Um sorriso totalmente puro se formou em seu rosto. Não havia mais dúvida, eu estava onde queria.

It's such a long long way to go
Where I'm going, I don't know
I'm just following the road
Through a walk in the sun
Through a walk in the sun

Eu olhei para o sol por um milésimo de segundo, e Arthur parou por esse instante, procurando a nota correta, para então prosseguir.

Sitting and watching the world going by
Is it true when we die, we go up to the sky oooh
so many things that I don't understand
Put my feet in the sand when I'm walking in the sun oooooh
Walking in the sun

Sua voz tomava conta não somente de minha mente, mas de todo o meu ser, de toda a minha alma.

It's such a long long way to go
Where I'm going, I don't know
I'm just following the road
Through a walk in the sun
Through a walk in the sun
yeah...
ohhhhh

Ele deu uma última batida lenta no violão e só então eu percebi que eu estava sorrindo largamente.
- Arthur, é linda – eu disse finalmente. – Foi você quem compôs?
Ele sorriu todo feliz. “Foi. Ela meio que apareceu em partes na minha cabeça hoje de manhã, enquanto eu te observava dormir.” Eu franzi a testa. Ele tinha me observado dormir? “Mas aqui, com você, eu consegui entendê-la.” Eu tive que suspirar com essa. “Mas então, que você estava escrevendo aí?”, ele perguntou, curioso, se esgueirando para ver.
Sem perceber, antes de ele começar a cantar, eu havia escrito nossos nomes na areia, dentro de um largo coração. Olhei para nossos nomes ali e depois olhei eu seus olhos, dando graças a Deus por estar sentada, pois minhas pernas bambeavam.
- Arthur – ele ergueu o olhar dos nomes para mim. – Eu... – aquilo parecia absurdo depois de tantas coisas pelas quais havia passado, depois de tantas decepções com as pessoas, depois de tanto sofrimento e promessas de nunca mais gostar de um homem. Mas eu não gostava de Arthur, isso era superficial demais. Arthur era mais do que tudo que eu já havia conhecido, o que eu sentia era simplesmente inevitável. – Eu... – a conexão entre nós estava mais uma vez ali, em nossos olhos. Eu estava segura com ele, sabia disso. – Eu amo você.
Eu vi um brilho em seus olhos, e segundos depois, ele estava me beijando como nunca antes.

Eu não entendia nada de barco, por isso não me atrevi a opinar em qualquer escolha dele além de um “aham” quando ele apontava para algum barco e dizia alguma coisa sobre o motor dele. Depois de uns dez barcos rejeitados naquele deck, ele escolheu um que eu particularmente gostei por dentro. Madeira era o que definitivamente definia aquele barco por dentro. Desde as paredes à cama, era tudo em madeira envernizada. Até tinha um nome! “Saint Louis” estava escrito em marrom no lado de fora.
- Arthur – eu chamei, manhosa.
Ele tirou os olhos do oceano a nossa frente, esperando por nós e me olhou achando graça na minha voz. “Quê?”
- Tá calor e eu quero sorvete.
Ele riu.
- Está bem, pequena, temos que comprar mantimentos para hoje à noite mesmo – ele concordou, dando de ombros, já me guiando para fora do barco. – Mas eu escolho o sabor.
- Nem pensar! – eu protestei, pulando para fora do barco com sua ajuda.
- Vamos ver então.
Eu cruzei os braços e fiz cara de brava.
- Eu vou ficar com esse até amanhã antes do almoço – disse ele, se dirigindo ao dono do barco. – Nós já voltamos.
A primeira coisa que eu fiz ao chegar ao mercado foi correr para a geladeira dos sorvetes; sem perder tempo, achei o meu preferido, e me agarrei a ele.
- Hey, eu escolho! – protestou Arthur, aparecendo atrás de mim.
- Mas eu quero esse – eu fiz manha novamente.
- Garota mimada – reclamou ele, levando um tapa meu como castigo. – Eu quero de gelo azul, beijo azul... Não lembro o nome.
- É céu azul, criatura – eu disse rindo. – E foi esse que eu peguei.
Ele me olhou desconfiado e tirou o pote de sorvete da minha mão para checar, depois começou a olhar em volta, como se procurasse alguma coisa.
- O que foi? – eu perguntei confusa.
- Cadê as câmeras? É pegadinha?
- Você é maluco?
- Qual é, a garota que eu amo gosta do meu sorvete preferido? Sem chance. Alguém deve estar tirando uma com a minha cara.
Eu ri alto.
- Você é tão bobo – disse rindo dele, que me abraçou, largando o sorvete em uma estante próxima, e me beijando em seguida.
Amortentia¹ para mim provavelmente só teria um cheiro, e não três como para a maioria das pessoas. Teria o cheiro dele. E se tivesse nosso gosto preferido, não seria de sorvete sabor céu azul, mas teria o gosto dos beijos dele.

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