- Como foi o fim de semana? – perguntou Micael abertamente para mim, Brooklie e Mel.
Eu dei de ombros. Não lembrava muita coisa dele, a não ser que a minha terrível dor de cabeça só durou duas horas no domingo, e que os pais de Brooklie pareceram nem ligar para o fato de que eu tivesse bebido tanto naquela festa. Mas também não perguntei nada a elas, com medo de ter passado algum vexame.
- Divertido – respondeu Mel, feliz.
- Muito – concordou Brooklie.
- Eu não me lembro de muita coisa, na verdade – eu confessei, vendo que Mel me olhava curiosa.
- Qual é, você não lembra daquele gato? – perguntou Brooklie indignada.
Eu a olhei sem entender. Tudo o que eu lembrava eram em flashes, algum tempo depois que aquele garoto loiro havia me cantado.
- Ha! Eu achei que você não estivesse a fim de pegar ninguém, dava fora em todo mundo – contou Mel. Eu olhei para minha frente, onde Arthur estava sentado, totalmente em silêncio.
- Mas parece que você descontou todos os pegas que você não deu nos outros naquele pedaço de mal-caminho – continuou Brooklie.
Eu abaixei meu olhar, envergonhada, começando a lembrar de alguns flashes.
- A bebida não afetou seu bom gosto pelo menos – disse Mel com um sorriso.
- Mas afetou meu estômago com certeza – eu disse. - E acho que eu não tô muito a fim de lembrar – eu sussurrei no ouvido de Mel, mas Brooklie continuou:
- Lu, se você não estivesse tão mal, acho que vocês teriam se conhecido melhor ainda.
Ela riu de seu próprio comentário malicioso. Eu não sabia onde enfiar a cara.
- Você não ficou muito atrás, não é? – eu disse em tom de brincadeira, mas com alguma coisa ruim fervendo dentro de mim. Ela se fez de desentendida. – Ah, qual é, Broo, vai me dizer que não lembra dos, quantos mesmo, Mel?
- Parei de contar depois do décimo – ela respondeu baixinho.
- É, por aí – eu continuei e ela estava de olhos arregalados para mim. – Vai me dizer que se esqueceu de todos eles?
Ela ficou sem graça e eu vi de canto de olho a expressão furiosa de Micael, mas não me atrevia a olhar para Arthur.
Comi metade do meu almoço contra a vontade, mas sabia que iria morrer de fome depois se não comesse. Ainda sem olhar para Arthur, fui para a mesa onde Sophia e os outros estavam.
- Oi! – um Chay sorridente me cumprimentou.
- Oi! – eu cumprimentei de volta, me sentando entre Sophia e Ane.
Pelo menos meus amigos me mantinham calma, mas eu sentia a ansiedade e o medo crescendo em mim durante a aula de inglês, enquanto contava aos cochichos tudo para Sophia.
- Cobra! – sussurrou Sophia indignada. – Você acha que a Brooklie sabe sobre você e o...?
- Não – eu respondi. – Mas ela falava como se fosse uma santa, como se não tivesse sequer olhado para alguém. Micael não pareceu nada feliz ao saber que o relacionamento estava tão aberto assim.
- Você acha que ele gosta dela? – perguntou Sophia insegura.
- Não – eu respondi com firmeza. – Ele gosta dela assim – eu fiz gestos desenhando as voltas do corpo de uma mulher no ar. Ela deu uma risadinha. – Mas você acha que o Arthur tá bravo comigo? – eu perguntei, sentindo a angústia dentro de mim.
- Bom, se ele gosta realmente de você... sim – ela respondeu, e eu senti a angústia aumentar. – Você devia conversar com ele, explicar. Você estava tão bêbada que mal lembrava antes da Brooklie mencionar.
- Na verdade eu ainda lembro pouco – eu sussurrei. – Mas eu sempre disse que bebida não justificava, entende?
- Bom, agora você viu que não é exatamente assim – ela disse e piscou para mim. – Você vai ver que...
- Será que eu posso ajudá-las? – perguntou o professor rispidamente, nos assustando e cortando a conversa.
Por sorte, nós estávamos sentadas a uma boa distância de Micael hoje, ou então ele teria nos escutado.
Eu entrei na sala de história olhando para o chão, depois procurando qualquer lugar longe de Arthur, mas o único lugar disponível era a cadeira ao lado dele. Isso só pode ser uma conspiração, não é possível. Eu não tive coragem de olhar diretamente para ele nem quando sentei ao seu lado, sentindo meu coração bombeando sangue duas vezes mais que o necessário e meu estômago revirando de nervosismo.
Ou minha lapiseira quebrava a ponta do grafite ou eu escrevia alguma coisa errada e tinha que corrigir, resultado: última da sala. Mas parecia que alguém lá em cima não se satisfazia apenas me deixando por última da sala, tinham que me deixar com Arthur.
- Sabe, achei que você fosse diferente – eu ouvi ele me dizer, assim que o professor nos deixou lá sozinhos.
Pelo canto do olho vi que ele já havia guardado o material dele. Então era isso, ele estava ali pra jogar na minha cara o quanto eu sou idiota e imprestável.
- Arthur, eu não lembrava nem meu nome de tão bêbada – eu disse, passando corretivo sobre outra rasura na folha.
- Isso não é desculpa, Blanco – ele disse, e eu o olhei, surpresa pelo uso do meu sobrenome.
- Eu nunca bebi tanto na minha vida – eu disse, desviando do olhar duro que ele me dava. – E eu sei que isso não é desculpa, mas eu juro que não sabia o que estava fazendo. Você nunca bebeu na vida? – Eu o olhei e ele ficou em silêncio. – Só... me desculpe, Arthur – eu disse sinceramente.
Guardei meu material sentindo algumas lágrimas passeando por meu rosto.
- Sabe, nós não temos, assim, oficialmente, nada – ele disse quando eu me levantei. – Mas você podia respeitar assim mesmo, seria bom.
Eu me virei para ele, que se assustou ao me ver chorando.
- Eu nunca deixaria outro homem encostar em mim se eu soubesse o que estava fazendo – eu disse, sentindo uma dor rasgar meu peito.
- Já estava na hora mesmo de acabar com isso – ele disse dando de ombros. – Nós nunca poderíamos ficar juntos.
Aqueles olhos castanhos só me transmitiam dor.
- Eu... Ah! Não interessa! – eu gritei e saí correndo dali.
Eu passei as horas seguintes daquele dia na minha cama fazendo o que podia pra me distrair, mas a tristeza era mais forte. Meu celular tocou enquanto eu via um programa entediante de auditório, e eu atendi sem ver quem era.
- Oi – eu disse, engolindo a vontade de chorar.
- Lu, o que você tem? – a voz preocupada de Chay perguntou.
- Nada – eu respondi sem emoção.
- Aham – ele concordou ironicamente. – E eu sou Papai Noel.
- Então o senhor pode desembuchando por que eu não ganhei o presente que eu queria quando tinha sete anos, ainda estou brava.
Ele riu do outro lado da linha.
- Nossa, você é rancorosa, mocinha – ele disse, me fazendo rir. – Mas então, bebê, eu estou com preguiça de ir até a biblioteca sozinho, vai comigo? – ele pediu em uma voz meiga.
- O que você tem que fazer lá? – eu perguntei, antes de aceitar. Passar horas dentro de uma biblioteca agora não era uma ideia atraente.
- Só entregar uns dois livros e pegar outro – ele disse, e eu sabia que ele sorria.
- Tá, eu vou.
- Te encontro em cinco minutos aí na frente então – ele disse e desligou.
- Eu achei que você não tava bem – Chay disse, me abraçando assim que sai do prédio feminino. – Mas pela sua cara de enterro eu tenho certeza.
- Eu tô bem, Chay – eu disse baixo, forçando um sorriso.
- Aham – ele concordou ironicamente de novo. – Agora me conta: o que houve?
- Não quero falar sobre isso, por favor – eu supliquei a ele, me mantendo abraçada.
Ele suspirou e me abraçou de lado, caminhando em direção à escola.
- Você sabe que eu estou aqui, não importa o que aconteça, não sabe? – ele perguntou e eu vi sinceridade naqueles olhos.
- Obrigada, Chay – eu disse carinhosa, e dei um beijo em sua bochecha.
- Quer assistir a algum filme? – ele perguntou, com um sorriso maroto.
- Contanto que tenha muito sangue e nenhum romance, quero.
- Tá, eu vou ligar pro Maker e pedir pra ele trazer o filme – ele pegou o celular do bolso enquanto subíamos a pequena escadaria para entrar na escola. – Hey, dude, pega um filme pra gente antes de voltar – eu observava o corredor e em seguida a escada dentro da escola, praticamente deserta aquela hora. – Mas você ainda vai demorar? Não, então tudo bem. Lu, aAne tá com ele, pode ser no seu quarto? O meu tá uma bagunça... Lu?
Mas eu não estava mais prestando atenção. Estávamos no terceiro andar, já próximos a porta da biblioteca, mas mais além eu conseguia ver uma porta encostada ao invés de fechada, onde vozes e risadinhas chamaram minha atenção. E era a sala de filosofia. Meu coração disparou e eu prendi a respiração, me aproximando silenciosamente daquela sala. Empurrei a porta lentamente, torcendo para que não fizesse barulho. Consegui abrir o bastante para reconhecer o dono de uma das vozes. Pelo feixe de luz que vinha do corredor eu conseguia reconhecer aquele cabelo, aquele corpo. Eu não consegui sair dali, parecia que o mundo estava explodindo e eu estava congelada no lugar, incapaz de fazer qualquer coisa para impedir. As lágrimas desciam e minha garganta queimava junto com todo o resto do meu corpo, enquanto eu observava Arthur e aquela garota praticamente se comendo ali.
Alguém me puxou pelo pulso para me tirar dali, e eu gritei de dor.
- Caramba, Chay, ainda tá doendo! – eu reclamei alto demais, me virando para ele.
Percebendo meu erro, saí andando rápido dali, querendo correr, mas sem forças para isso. Eu ouvi o som de uma porta batendo logo atrás de mim, mas continuei andando rápido. Eu peguei as duas munhequeiras em meus pulsos e as arranquei, jogando-as no chão, com repulsa a elas e a qualquer coisa que me ligasse a ele.
- Você machucou ela? – eu pude ouvir a voz daquele canalha, e sabia que estava falando com Chay.
Eu me virei sentindo cada célula minha arder em ódio.
- NINGUÉM ME MACHUCA MAIS QUE VOCÊ, IDIOTA! – eu gritei me virando para eles, agora vendo o rosto da garota que estava com ele, apesar da minha vista embaçada.
Me virei para meu caminho novamente e corri. Me dei conta na escada de que haviam passos atrás de mim, mas eu não ligava. Nada mais importa, só quero sair daqui.
- LU! – ele gritava, mas sua voz parecia me machucar mais ainda.
Eu corri pelo pátio o mais rápido que pude, sentindo minhas pernas fracas conforme o ar começava a me faltar. Eu adentrei o prédio feminino, mas antes que conseguisse alcançar as escadas, Arthur me segurou pelo braço. Eu tentei me soltar, mas ele me puxou para a sala de dança vazia.
- Lu – ele me chamou novamente, preocupado.
- Sai de perto de mim! – eu exigi, mas ele não se moveu.
- Para com isso – ele pediu, mas eu só conseguia sentir raiva dele.
- Eu te odeio, me solta! – eu exigi, com as lágrimas cada vez mais rápidas percorrendo meu rosto.
- Não sei do que você está reclamando, agora você sabe como eu me senti! – seu tom de voz mudou, de repente nervoso.
- O quê? – eu perguntei, incrédula. – Você, você tá descontando, se vingando, é isso? – Ele ficou em silêncio, e eu observei sua cara fechada, sentindo nojo dele. – Você não presta mesmo. Você e a Brooklie se merecem.
Ele soltou meu braço e eu saí dali, indo o mais rápido que pude para meu quarto, sem olhar para trás, porque eu nunca mais queria ver ele em minha vida.
- Lu? – eu ouvi alguém me chamar no quarto.
Eu havia me trancado no banheiro, eliminando toda a porcentagem de água de qual meu corpo era feito pelos olhos.
- Vai embora! – eu gritei, com a voz totalmente chorosa.
- Lu – eu percebi que a voz pertencia ao Chay. Ele forçou a maçaneta, mas a porta continuou fechada. – Abre a porta, vai.
- Não – eu disse, sentindo um vazio enorme em mim. – Vai embora.
- Eu não vou embora – ele disse firmemente. – Se você não quiser abrir, tudo bem, mas eu vou te esperar aqui fora.
Eu senti a porta em que estava encostada balançar, indicando que ele tinha sentado com as costas contra ela também.
Depois do que me pareceu uma eternidade, eu consegui controlar meu choro, mas a dor dentro de mim só parecia crescer. E Chay ficou no quarto conversando comigo, me distraindo e me fazendo carinho até que eu adormecesse.
Durante o resto da semana eu o ignorei. Na hora do almoço eu inventava o que podia para não sentar com Mel e Brooklie, nas aulas que tinha com ele sentava longe, e quando não tinha jeito, me mantinha quase na ponta da cadeira pra ficar o mais longe dele possível, como se o ar que ele respirasse se tornasse infectado. Aquilo estava me corroendo por dentro, mas não havia o que fazer. Era simples, eu tinha que esquecer, acabou, pronto. Ele me odeia, eu o odeio, nós nos odiamos. Me lembrei daquele dia no parque, peguei meu livro “A Mediadora” no criado-mudo ao lado da cama onde eu estava estirada agora, e dentro do livro estavam as duas flores que ganhei naquele dia.
- Você parece uma morta-viva – reclamou Sophia, me assustando. Eu fechei o livro e o coloquei de volta no criado-mudo. – Por que vocês não tentam se acertar, amiga? Você só tá piorando. E ele também, pelo que tenho visto.
Ela sentou na beira da minha cama e passou a mão por minha perna carinhosamente.
- Eu já disse que não quero saber dele – eu disse, colocando o travesseiro sobre a cabeça.
Uma pontada de preocupação bateu em meu peito, me deixando inquieta.
- Lu, vamos? – Lauren me chamou e eu tirei o travesseiro da cabeça, criando coragem para levantar.
Eu peguei silenciosamente minha mochila e saí dali, louca pra ter um pouco de sossego mental, sem ninguém me olhando com dó. Maker levou um pontapé por baixo da mesa quando perguntou o que eu tinha, mas eu fingi não ver. Chay parecia o mais preocupado comigo, mas não se atrevia a tocar no assunto, apenas ficava perto de mim, fazendo tudo o que ele podia.
Eu estava na cola de Lauren, atravessando o estacionamento, quando vi aquela moto veloz cortou a nossa frente. Eu olhei rápido o suficiente para perceber quem estava na moto vermelha.
- Meu Deus, aquele maluco quase atropelou vocês duas! – disse Rachel, saindo do carro toda alvoroçada.
Sério, titia? Nem notei.
Entramos no carro sem responder. Lauren também não parecia estar com o humor muito bom. Rachel entrou em seguida, ligando o carro e saindo do colégio. Graças a Deus, longe dele finalmente.
Lauren, que estava sentada no banco da frente, ligou o rádio, como sempre fazia. Alguma música estava no finalzinho e logo começou a tocar outra, e ela aumentou o volume.
“Coming out of my cage
And I've been doin' just fine
Gotta gotta be down
Because I want it all
It started out with a kiss
How did it end up like this?
It was only a kiss
It was only a kiss”
Eu prestei atenção na letra e engoli em seco.
- Lauren, troca a rádio – eu pedi sentindo a tristeza me invadir de novo.
- Tá de sacanagem, né? – ela perguntou se virando pra mim. – Eu amo essa música!
Ela começou a cantar junto. Mesmo sua voz desafinada não aliviava o impacto daquilo em mim.
“Now they're going to bed
And my stomach is sick
And it's all in my head
But she's touching his chest now
He takes off her dress now
Let me go
And I just can't look
It's killing me
And taking control…”
É, agora eu tenho certeza que ou alguém lá em cima me odeia ou que alguém lá embaixo invocou comigo. Sério, isso só pode ser perseguição. Por que não jogam logo um raio na minha cabeça e param de me atormentar de uma vez, hein?
Ao longe, eu ouvi um barulho forte e olhei assustada para o céu cinzento e carregado.
- É, parece que a previsão para o fim de semana é de chuva – disse Rachel, distraída com o trânsito.
Tá, esqueçam a ideia do raio, eu já entendi.
Lauren pareceu cansar da rádio, conectando seu Ipod ao som do carro.
- Pode ser Simple Plan? – ela perguntou enquanto escolhia a música.
- Pode – eu concordei e me arrependi em seguida quando começou a tocar “Welcome to my life” – Passa – eu pedi, tentando parecer indiferente. – Melhor, coloca meu celular aí, tem Paramore. – Eu passei meu celular a ela e me senti melhor com aquelas músicas, apesar do vazio dentro de mim tentar me lembrar das coisas que as músicas anteriores me lembravam.
Continua..

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posta + amo essa o web e tds as outras tbm s2
ResponderExcluirASS:TACIANE