18° e 19° Capítulos
'O Noivo da minha melhor Amiga'
Na noite seguinte Sophia me telefona exatamente quando estou chegando do trabalho. Ela está histérica. Preciso me manter fria e calma..
Será que aconteceu? Será que Arthur cancelou o casamento?
- O que houve, Sophia? - pergunto.
Minha voz está tensa e artificial, meu coração em conflito: o amor por Arthur versus a amizade por Sophia. Preparo-me para o pior, embora não saiba o que seria pior, perder minha melhor amiga ou o amor da minha vida. Sou incapaz de imaginar as duas possibilidades.
Sophia grita algo incoerente, alguma coisa sobre seu anel.
- O que é, Darce? Calma ... O que houve com o anel?
- Perdi! - ela cai no choro.
Não parece possível sentir um desespero e ao mesmo tempo um alívio tremendo, mas é o que acontece enquanto percebo que a conversa se trata apenas de uma jóia perdida.
- Onde foi que você perdeu? Está no seguro, não está?
Pergunto como uma amiga responsável faria. Estou sendo prestativa. Mas pareço muito mecânica. Se ela fosse menos histérica, perceberia que não dou a mínima para a perda do anel. Digo que ela é uma desleixada, que provavelmente colocou em algum lugar e esqueceu.
- Lembra quando você pensou que tinha perdido e depois achou em um dos seus chinelos? Você está sempre colocando as coisas no lugar errado, Darce.
- Não, dessa vez é diferente! Dessa vez já era! Já era! Arthur vai me matar! - a voz dela está trêmula.
Talvez não, penso. Talvez seja essa a oportunidade que ele espera. Então eu me odeio por pensar uma coisa dessas.
- Você disse a ele?
- Não. Ainda não. Ele ainda está no trabalho ... O que vou fazer?
- Bem, onde você perdeu o anel?
Ela não responde, apenas continua chorando.
Repito a pergunta.
-Não sei.
- Quando você viu o anel pela última vez? - pergunto. – Você estava com ele no trabalho hoje? Você tirou para lavar as mãos?
- Não, eu nunca tira o anel para lavar as mãos! Que tipo de idiota faria isso?
Penso em retrucar, lembrar que é ela a idiota que perdeu o anel de noivado. Mas estou solidária, digo que ele certamente vai acabar aparecendo.
- Não, não vai.
Ela chora ainda mais alto.
- Como você sabe?
- Porque simplesmente sei.
Não tenho mais sugestões.
- Posso passar aí? Eu realmente preciso conversar com você – diz ela.
- Pode vir, vem agora - digo, imaginando se há algo mais além do
anel perdido. - Você já comeu?
- Não - diz ela. - Pede para mim uma sopa de bolinho de carne do restaurante chinês?
- Claro.
- E rolinhos-primavera?
- Está bem. Vem logo.
Telefono para o restaurante e peço duas sopas, dois rolinhos-primavera, duas Sprites e uma porção de carne com brócolis. Sophia bate na minha porta 15 minutos depois. Ela está meio desarrumada, usando uma calça Levi's que reconheço dos tempos da escola - ainda cabe direitinho nela - e um top branco. Está sem maquiagem, com os olhos muito vermelhos e um rabo-de-cavalo todo desgrenhado. Ainda assim consegue estar bonita. Digo a ela para sentar e me contar tudo.
- Já era -lamenta ela, mostrando a mão esquerda sem o anel.
- Onde você acha que perdeu? - pergunto com calma, lembrando que Sophia já fez isso uma centena de vezes. Estou sempre ajudando e1a, arrumando sua bagunça, seguindo e consertando suas burradas.
- Eu não perdi. Alguém roubou o anel.
- Quem roubou?
- Uma pessoa.
- Como você sabe?
- Porque desapareceu!
Nós não progredimos. Suspiro e peço que Sophia me conte tudo. Ela me encara, os olhos lacrimosos e os lábios trêmulos.
- Lua...
-o quê?
- Você é a minha melhor amiga.
Ela começa a chorar novamente, as lágrimas escorrem graciosamente por suas bochechas e caem em seu colo. Ela sempre fica bonita quando chora.
Concordo.
-Sou.
- Minha melhor amiga no mundo todo. Preciso contar para você uma coisa.
- Você pode me contar o que quiser - digo, em pânico e certa de que Arthur sinalizou o rompimento.
Ela olha para mim e choraminga. Por mais confiante que seja, ela pode parecer bastante digna de pena e desprotegida quando está deprimida. E o meu instinto sempre foi, e ainda é, ajudá-la.
- Conta para mim, Darce - digo com delicadeza.
- Lua... eu... eu tirei meu anel no apartamento de alguém.
-Sei.
- No apartamento de um cara.
Sinto como se olhasse através de uma câmera, tentando encontrar o foco. Será que ela está dizendo isso mesmo?
- Lua- repete Sophia, dessa vez num sussurro. - Eu traí o Arthur.
Olho para ela, visivelmente chocada.
Sim, Sophia é uma namoradeira. Sim, ela vive se arriscando. Sim, ela é egoísta. E sim, ela adora a atenção masculina. Os atributos se somam e fazem sentido. Não me surpreende ela ser capaz de trair Arthur. Quer dizer, Arthur não é como ela e também é capaz disso. Ainda assim, estou chocada. Ela vai se casar, em menos de dois meses. Ela é uma noiva com um vestido
estonteante, sonhado por toda menininha. E ela está com Arthur.
Como alguém no mundo teria coragem de trair Arthur?
As seis perguntas básicas do jornalismo me ocorrem. Estou em ritmo de repórter do segundo grau, fazendo entrevistas para o jornal da escola.
-Com quem?
Ela funga. Sua cabeça está baixa.
- Um cara lá do trabalho.
- Quando?
- Algumas vezes. Hoje - ela esfrega os olhos com os pulsos e olha de lado para mim.
Não sei o que o meu rosto deixa transparecer. E nem tenho certeza de como estou me sentindo. Aliviada? Ultrajada? Enojada? Esperançosa? É cedo para pensar nas implicações da questão para mim e Arthur.
- E foi assim que você perdeu o anel?
Ela confirma balançando a cabeça.
- Estive com ele hoje, depois que saí de casa, antes de ir para o trabalho - ela engole a saliva e depois solta um pequeno suspiro. – Nós ficamos juntos, você sabe, ficamos de sacanagem ...
- Você transou com ele?
O rabo-de-cavalo balança para cima e para baixo.
- Tirei o meu anel porque ...bem, eu não queria usar o anel enquanto
fazia sexo com outra pessoa - ela assoa o nariz com o lenço já encharcado.
- Você quer outro lenço?
Ela faz que sim mais uma vez. Dou um pulo até o banheiro para buscar minha caixa de lenços.
- Aqui está - digo, entregando a caixa para ela.
Ela pega um lenço e assoa o nariz bem forte.
- Então, enfim, tirei o anel e deixei no peitoril da janela, perto da
cama dele. - Ela aponta para a minha cama. - Ele tem um apartamento parecido com o seu.
Um apartamento como o meu. Então ele não é um alto executivo, o que me surpreende. Eu imaginaria Sophia envolvida com um cara poderoso. Um homem mais velho. Pensava em alguém como o Richard Gere em Uma linda mulher. Agora penso em Matt Damon em Gênio indomável.
- Então nós ficamos juntos, você sabe. - Ela gesticula. - Então a gente se veste e vai até o metrô. Vamos para o trabalho.
-Ahã ...
- ...quando chego ao trabalho, percebo que esqueci de colocar o anel. Então telefono a ele e digo que tenho de voltar e pegar o anel. Ele diz que não há problema, mas terá uma longa reunião às três, por isso pergunta se a gente pode se encontrar lá às sete. Concordo ... Então, quando a gente entra, o lugar está totalmente arrumado. Mas quando saímos, estava a maior bagunça. E ele diz: "Merda, a faxineira esteve aqui." Vamos até o peitoril da janela e o anel não está mais lá. - Agora ela chora ainda mais. - Aquela piranha pegou o anel.
- Tem certeza? Não acredito que alguém seja capaz de fazer uma coisa dessas ...
Ela olha para mim como se dissesse: "Não seja tão otimista."
- O anel se foi, Lua. Já era. Já era!
- Bem, será que ele não pode simplesmente falar com a faxineira e
esclarecer tudo?
- Nós tentamos isso. Ela não fala inglês bem. Ela só ficava repetindo "não vi anel nenhum, não" - Sophia imita o sotaque da empregada. Eu até mesmo peguei o telefone. Ofereci uma ótima recompensa se ela achasse o anel. A piranha não é burra. Ela sabe que dois quilates correspondem a vinte milhões de privadas sujas.
- Tudo bem - digo. - Mas está no seguro, não é?
- É, está no seguro. Mas como vou contar ao Arthur?
- Eu não sei. Inventa que caiu no ralo no banheiro do trabalho ... Ou então diga que você tirou na academia e alguém arrombou o seu armário.
Ela me dá um meio-sorriso.
- Gosto da idéia da academia. Isso é verossímil, certo?
- Totalmente.
- Não consigo acreditar que aconteceu.
Posso dizer o mesmo. Não consigo acreditar que Sophia tenha traído Arthur com um cara qualquer. Não consigo acreditar que esteja ajudando a acobertar o caso de Sophia. Será que todo mundo trai quando está noivo?
- Esse é um caso antigo? - pergunto.
- Não, não mesmo. Foram apenas algumas vezes.
- Então não é sério?
- Não sei. Realmente não sei - ela sacode a cabeça e depois apóia a testa nas mãos.
Talvez o comportamento de Sophia nos últimos tempos tenha a ver com esse cara.
- Você está apaixonada por ele?
- Não, meu Deus, não - diz ela. - É só diversão. Não é nada.
- E você ainda quer se casar? - pergunto.
- Sabia que você me questionaria - Sophia começa a chorar de novo.
- Será que você não pode simplesmente me ajudar sem ser puritana?
Acredite em mim, não estou sendo puritana.
- Sinto muito, Sophia, não quis ser puritana ... estou apenas sugerindo uma saída, se você quiser uma.
- Eu não quero uma. Quero me casar. É só que ... não sei... Às vezes entro em pânico achando que isso será o fim. Que nunca mais vou ficar com ninguém novamente. Então eu apenas tive essa pequena aventura. Não foi nada.
- Tudo bem - digo. - Só quero que você tenha certeza do casamento ... só quero que você saiba que apóio qualquer que seja sua decisão...
Ela me interrompe.
- Não há nenhuma decisão a ser tomada. Eu vou me casar. Eu amo o Arthur.
- Sinto muito - digo. E eu sinto mesmo. Sinto muito que eu também ame Arthur.
- Não. Eu sinto muito, Lua - diz ela, tocando minha perna.Hoje foi um dia horroroso.
- Entendo.
- Será que você entende mesmo? Você pode imaginar o que significa estar a poucas semanas de fazer uma promessa que deve durar para
sempre?
Oh, pobrezinha. Será que ela imagina quantas garotas matariam alguém para fazer uma promessa como essa para alguém como Arthur?
Sou uma delas.
- Para sempre é muito tempo - digo, sarcástica.
- É realmente muito tempo - diz ela. - E às vezes duvido da minha capacidade de compromisso. Quer dizer, sei que quero me casar, mas às vezes não consigo me imaginar passando mais quarenta anos, ou seja lá quanto tempo for, e nunca mais sentir aquela emoção de beijar alguém diferente. Olha só a Mel. Ela está nas nuvens, não está?
-É.
- E não é mais assim com Arthur. Nunca mais será. É apenas rotina: ele trabalha o dia todo, deixando para mim toda a organização do casamento. Nós nem nos casamos ainda e a parte divertida já acabou.
- Darce - digo -, o seu relacionamento evoluiu. Não é mais aquele frenesi inicial, o desejo, a novidade.
Ela olha para mim atenta e pensativa. Não posso acreditar no que estou falando. Estou convencendo Sophia de que seu relacionamento é ótimo, especial Não sei por que estou fazendo isso. Provavelmente apenas nervosismo. Continuo.
- A emoção da conquista é sempre excitante. É diferente do amor, duradouro, real. A paixão inicial, aquela coisa "não consigo tirar minhas mãos de você" acaba para todo mundo.
Exceto Arthur e eu, penso. Seríamos eternamente apaixonados.
- Você tem razão - diz ela. - E eu o amo.
Sei que ela acredita em mim, mas duvido que ela realmente o ame. Duvido que ela seja capaz de amar alguém de verdade além de si mesma.
José toca o interfone para me avisar que a comida chegou.
- Obrigada. Pode deixar ele subir - respondo pelo interfone.
Quando abro a porta para o entregador, meu telefone toca. Entro em pânico. E se for o Arthur? Entrego o dinheiro a ele, disparo para dentro, jogo a sacola sobre a mesa e tiro o telefone do gancho exatamente quando a secretária eletrônica está prestes a ser acionada. Como era de se esperar, é o Arthur.
- Oi - diz ele. - Sinto muito por não ter ligado para você antes.
Hoje o dia foi um verdadeiro pesadelo. Roger me pediu para ...
- Tudo bem - digo, interrompendo-o.
- Posso passar aí? Quero ver você.
- Hum, não - digo.
- Não posso?
-Não ...
- Tudo bem. Por quê? Você está com alguém? - ele abaixa a voz.
- É - digo, tentando controlar a voz para ambos os ouvintes. – Na verdade estou.
Olho para Sophia. Ela mexe os lábios, sem emitir nenhum som:
"Quem é?"
Eu a ignoro.
- Tudo bem. Tudo bem, então ... Não é o Micael, é? - Arthur pergunta.
- Não ... Sophia está aqui - explico.
- Ohhhh. Merda. Ainda bem que liguei antes - ele sussurra.
- Então a gente se fala amanhã?
- É - diz ele. - Sem falta.
-Está bem.
- Quem era? - pergunta Sophia enquanto desligo o telefone.
- Era o Chay.
- Ah, vai, era o Micael? - pergunta. - Você pode falar para mim.
- Não, realmente era o Chay.
- Talvez ele esteja telefonando para dizer que é gay.
- Ahã - digo, abrindo as embalagens da comida.
Enquanto comemos, pergunto como Arthur está.
- O que você quer dizer?
- Será que ele suspeita de alguma coisa?
Ela revira os olhos.
- Não, ele trabalha demais.
Ela ignora o tempo verbal: tanto faz "suspeita" ou "suspeitou", presente ou passado.
-Não?
- Não. Ele continua o mesmo, o bom e velho Arthur de sempre.
- Sério?
- É sério. Por quê? - Ela abre a Sprite e bebe da lata.
- Só fiquei pensando - digo. - Já ouvi falar que, quando alguém trai, a outra pessoa no fundo acaba percebendo a traição.
Ela toma a sopa com a colher de plástico e olha para mim sem entender.
- Não acredito nisso - diz.
- É - digo. - Acho que também não.
Depois que terminamos o jantar, pego dois biscoitos da sorte.
- Qual dos dois você quer?
Ela aponta para a minha mão esquerda.
- Este aqui - diz. - E é melhor que diga alguma coisa boa. Chega de má sorte.
Tenho vontade de dizer que transar com um colega de trabalho e esquecer o anel no apartamento dele não têm nada a ver com sorte. Abro a embalagem de plástico do biscoito da sorte murcho e silenciosamente leio o meu pedacinho de papel. Você tem muito o que agradecer.
- O que diz? - Sophia quer saber. Digo a ela.
- Essa é boa.
- É, mas não é uma previsão. É uma declaração. Detesto quando eles fazem declarações em vez de previsões.
- Então faz de conta que diz "você terá muito o que agradecer" ela comenta, abrindo o papel. - É bom que o meu diga "você vai conseguir o seu anel de volta daquela piranha porto-riquenha".
Ela silenciosamente lê o seu papel e então ri.
- O que foi?
- Diz: "você tem muito o que agradecer" ... Isso é bobagem. Previsões
coletivas!
Apenas uma de nós vai ter muito o que agradecer.
Sophia avisa que vai embora, que ela terá de arcar com as conseqüências.
Ela chora mais uma vez enquanto pega a bolsa.
- Será que você pode contar ao Arthur por mim?
- Absolutamente não. Não vou me envolver nisso - digo, me divertindo com o absurdo do pedido.
- O que é mesmo que eu digo?
- Que você perdeu na academia.
- Será que vou conseguir um novo antes do casamento?
Digo que sim, percebendo seu desapego ao anel que Arthur escolheu para ela.
- Lua?
-Hum?
- Você acha que sou um monstro? Por favor, não pense que sou um monstro. Nunca tinha traído Arthur antes. Não vou mais fazer isso. Eu amo o Arthur de verdade.
- Tudo bem - digo, imaginando se ela vai continuar traindo o noivo.
- Você acha que sou horrível?
- Não, Sophia - digo. - As pessoas cometem erros.
- Eu sei, foi isso mesmo. Um erro completo. Eu realmente me arrependo.
- Vocês usaram camisinha, não foi? - pergunto.
Lembro da aula de educação sexual, da professora explicando que para cada parceiro que você tenha, há essencialmente dúzias completamente desconhecidos: todo mundo com quem você dormiu e assim por diante ...
-É claro!
- Ótimo! - Pelo menos isso. - Pode ligar mais tarde se precisar.
- Obrigada - diz ela. - Obrigada por me apoiar.
- Bobagem.
- Oh, e nem preciso lembrar ... não conte para ninguém. Quer dizer, para ninguém. Chay, Mel ...
E que tal Arthur? Posso contar para o Arthur?]/i]
- É claro. Não vou contar para ninguém.
Ela me abraça, dando uns tapinhas nas minhas costas.
- Obrigada, Lua. Não sei o que faria sem você.
Quando Sophia vai embora, encaro meu óbvio dilema ... contar ou não contar. Tento ser racional, deixando a emoção de lado:
À primeira vista, a resposta parece clara: contar. Tenho três grandes razões para essa decisão. Primeiro, quero que ele saiba. Desejo que ele saiba. Se ele ainda não decidiu cancelar o casamento, saber da traição vai provavelmente impulsioná-Io a terminar tudo com Sophia. Em segundo lugar, amo o Arthur, o que significa que tenho de tomar decisões considerando o que for melhor para ele.
Portanto, quero que ele esteja ciente dos fatos quando estiver tomando uma decisão tão crucial para sua vida. Em terceiro lugar, a moralidade impõe que Arthur saiba; tenho obrigação moral de contar para ele a verdade sobre Sophia. (Isso não deve ser confundido com vingança, emboraSophia mereça uma boa dedurada.) Por fim, valorizo e respeito a instituição do casamento, e a infidelidade de Sophia certamente não é o prenúncio de uma união longa e duradoura. Essa terceira razão não tem nada a ver com meus próprios interesses, já que o raciocínio se aplicaria mesmo que eu não estivesse apaixonada pelo Arthur.
Contudo, a lógica da terceira razão indica tanto que Sophia também tem o direito de saber da traição de Arthur quanto que eu não devia esconder minhas ações dela (porque Sophia é minha amiga e confia em mim, e porque é errado mentir). Portanto, alguém poderia argumentar que contar a verdade a Arthur é fundamentalmente incoerente com a decisão de não contar a Sophia sobre a minha própria má conduta.
Entretanto, esse raciocínio ignora um detalhe essencial e básico para a minha análise final: há uma
diferença entre achar que a pessoa deve ser informada e ser quem vai contar. Sim, Arthur precisa saber o que Sophia fez e (talvez? provavelmente?) vai continuar a fazer.
Mas será que cabe a mim contar? Acho que não. Além do mais, o motivo de Arthur não se casar com Sophia não é a traição de ambos, nem o nosso amor. Essas coisas são todas verdadeiras, mas são meros sintomas de um problema maior, isto é, a relação imperfeita deles.
Sophia e Arthur não foram feitos um para o outro. O fato de os dois terem sido infiéis, apesar de movidos por razões distintas (amor versus uma mistura egoísta de medo do compromisso e de desejo), é apenas um indicador.
Mas mesmo que nenhum dos dois tivesse sido infiel, a relação ainda assim seria equivocada. E se Sophia e Arthur não podem enxergar essa verdade por causa do envolvimento deles, dos sentimentos e dos anos de convivência, então a traição é um erro necessário e não cabe a mim bancar a delatora.
Talvez pudesse também fazer um adendo a respeito da discussão moral,
no qual eu abordaria a traição de Sophia:
Sim, contar o segredo de Sophia seria errado, mas, comparado à minha traição, não é nada. Por outro lado, alguém poderia alegar que contar o segredo é pior. Dormir com Arthur não tem nada a ver com Sophia, mas revelar a traição envolve Sophia diretamente. Entretanto, considerando-se que a
decisão final é não contar, essa discussão não tem significância legal.
Então, eis a minha resposta. Meu raciocínio pode ser um pouco inconsistente, particularmente no final, em que termino abruptamente com "Então, eis". Vejo as anotações em vermelho nas margens da folha. "Confuso!" e "Por que se trata de um erro que eles devem cometer? Você os está punindo pela estupidez deles ou pela sua infidelidade? Explique!".
Apesar do meu raciocínio imperfeito e de saber que Mel e Chay me acusariam de estar sendo passiva como sempre, resolvo não "contar" nada para Arthur.
19° Capítulo
Preciso acreditar que um casamento ainda pode ser cancelado depois que os convites já foram enviados. Este é apenas mais um obstáculo. Sim, torna tudo mais doloroso, mas é apenas uma formalidade, um detalhe técnico. Ainda assim fico tonta e meio enjoada enquanto abro o envelope e encontro outro envelope dentro dele, com o meu nome e as humilhantes palavras: "e acompanhante”. Deixo de lado esse pequeno envelope e seus dois convites individuais quando uma folha de papel de seda cai no chão, deslizando para baixo do sofá. Não tenho energia para apanhá-la.
Em vez disso, sento e respiro bem fundo, reunindo coragem para ler o que está impresso, como se as palavras pudessem melhorar ou piorar as coisas:
NOSSA ALEGRIA SERÁ INFINITA SE COMPARTILHADA POR VOCÊS NO CASAMENTO DE NOSSA FILHA Sophia Abrahão com o SR. Arthur Aguiar.
Eu pisco para conter as lágrimas e suspiro lentamente, passando direto para o final do convite:
CONVIDAMOS VOCÊS A CELEBRAREM CONOSCO,
TESTEMUNHAREM SUAS PROMESSAS E SE JUNTAREM A NOS NUMA RECEPÇÃO NO
CARLYLE DEPOIS DA CERIMONIA.
CASO NÃO POSSAM COMPARECER, PEDIMOS QUE ESTEJAM
PRESENTES EM PENSAMENTO E EM SUAS PRECES.
DR. E SRA. HUGO RHONE
É, realmente as palavras podem piorar ainda mais as coisas. Largo o convite na minha mesa de centro e fico olhando para ele. Imagino a senhora Rhone pondo os envelopes no correio da rua Jefferson, suas longas unhas vermelhas alisando a pilha de convites com seu orgulho maternal.
Ouço sua voz nasalada dizendo: "Nossa alegria será infinita" e "Pedimos que estejam presentes em pensamento e em suas preces".
Vou oferecer a ela uma prece ... uma prece para que o casamento jamais aconteça. Uma prece para que chegue ao meu apartamento outra correspondência.
DR. E SRA. HUGO RHONE
ANUNCIAM QUE O CASAMENTO DE
SUA FILHA Sophia COM O
SR. Arthur Aguiar
NÃO SE REALIZARÃ
Essas palavras sim, posso admirar. Poucas e doces, na medida certa. "Não se realizará”.Os Rhone serão obrigados a abandonar seu estilo pomposo. Quero dizer, eles não podem fornecer mais detalhes: "Lamentamos informar que o noivo está apaixonado por outra': ou "Infelizmente anunciamos que Arthur partiu o coração da nossa querida filha".
Não, essa correspondência será objetiva: papel barato, letra de forma e impressa em casa mesmo. A senhora Rhone não vai querer gastar mais dinheiro ainda com papel caro e caligrafia. Posso imaginá-la no correio, não mais triunfante, recusando os selos em forma de coração; selos comuns serão bastante.
Já estou deitada quando Arthur telefona e pergunta se pode vir me ver.
Mesmo no dia em que recebo seu convite de casamento eu ainda digo "venha agora mesmo". Tenho vergonha da minha fraqueza, mas aí me lembro de todos que já fizeram as coisas mais patéticas em nome do amor. E é inegável: eu amo Arthur. Mesmo que ele seja a última pessoa no mundo pela qual eu deva sentir isso, eu o amo de verdade. E ainda não desisti dele.
Enquanto espero pela sua chegada, fico pensando se devo esconder o convite ou deixá-lo sobre a mesa, bem à vista. Decido enfiá-lo entre as páginas da revista de moda. Minutos depois, abro a porta vestida com a minha camisola branca de algodão.
- Você estava dormindo? - pergunta Arthur.
-Ahã.
- Bem, deixa eu levar você de volta para lá.
Vamos para a cama. Ele nos cobre.
- Você é tão macia - diz ele, acariciando meu quadril por dentro da camisola.
No começo resisto, mas depois acabo cedendo. Nossos olhos se encontram antes de ele me beijar bem lentamente. . Não importa o tamanho da minha decepção, não consigo me imaginar interrompendo esse momento.
Quase não me mexo enquanto fazemos amor. Ele fala o tempo todo, o que normalmente não acontece. Não consigo entender quase nada, mas ouço as palavras "para sempre". Ele quer ficar comigo para sempre, penso. Ele não vai se casar com Sophia. Ele não pode. Ela o traiu. Eles não estão apaixonados. Ele me ama.
Enquanto fazemos amor, minhas lágrimas molham o travesseiro.
- Você está tão quieta hoje - diz ele.
- É - respondo, tentando manter a voz firme. Não quero que ele saiba que estou chorando. Meu último desejo é que Arthur sinta pena de mim. Sou passiva e fraca, mas tenho algum orgulho, apesar de limitado.
- Fala comigo - diz ele. - O que está se passando na sua cabeça?
Quase pergunto do convite, dos planos dele, de nós dois, mas em vez disso falo despreocupada.
- Nada, sério ... só estava imaginando se vocês vão para os Hamptons neste fim de semana.
- Eu prometi ao Micael que iria. Ele quer jogar golfe de novo.
-Ah.
- Você não parece querer ir, não é?
- Não acho uma boa idéia.
- Por favor.
- Não, acho que não.
Ele beija minha nuca.
- Por favor, vai, por favor.
Três vezes "por favor" me convence.
- Está bem - murmuro -, eu vou.
Pego no sono odiando a mim mesma.
No dia seguinte Mel invade minha sala.
- Adivinha o que recebi pelo correio - o tom dela é agressivo, nada simpático.
Não me ocorreu que Mel também receberia um convite. Por isso, não preparei uma defesa.
- Eu sei - digo.
- Então você tem a sua resposta.
- Ele ainda pode cancelar - argumento.
- Lua!
- Ainda há tempo. Você deu a ele duas semanas, lembra? Ele ainda tem alguns dias.
Mel ergue as sobrancelhas e tosse com desprezo.
- Vocês têm se encontrado ultimamente?
Penso em mentir, mas não tenho forças para isso.
- Ontem à noite.
Ela arregala os olhos para mim, incrédula.
- Você disse a ele que recebeu o convite?
-Não.
- Lua!
- Eu sei - digo, envergonhada.
- Por favor, diz para mim que você não se tornou uma dessas mulheres.
Sei o tipo ao qual ela está se referindo. Uma mulher que mantém um relacionamento com um homem casado por anos e anos, esperando, até mesmo acreditando, que um dia ele vai resolver abandonar a esposa.
O rompimento está prestes a acontecer ... se ela continuar com ele, não vai se arrepender no final. Mas o tempo passa e os anos apenas criam novas desculpas. As crianças ainda estão na escola, a esposa está doente, um casamento está sendo planejado, um neto vai nascer. Há sempre um motivo uma razão para manter o status quo.
Mas aí as desculpas acabam e finalmente ela aceita que ele jamais abandonará a esposa, que ela vai terminar sempre em segundo lugar. Ela passa a acreditar que o segundo lugar =melhor do que nada. Ela se rende ao destino. Começo a sentir empatia por essas mulheres, apesar de ainda não acreditar que tenha me juntado a elas.
- Não me chame assim - protesto.
Ela olha para mim como se dissesse: "É mesmo”?
- Arthur não é casado.
- Você tem razão. Ele não é casado. Mas é noivo. O que pode ser pior. Ele pode mudar a situação dele assim - ela estala o dedo. – Mas não está fazendo porra nenhuma.
- Olha aqui, Mel, nós temos ainda um tempo até o casamento se concretizar ... eu só posso ser umas dessas mulheres por mais um mês.
- Um mês? Você vai levar adiante essa história até o último segundo?
Olho pela janela.
- Lua, o que você está esperando?
- Quero que seja uma decisão dele. Não quero ser responsável...
- Por que não?
Dou de ombros. Se ela soubesse da traição de Sophia teria um chilique.
Ela suspira.
- Você quer um conselho?
Não quero, mas aceito mesmo assim.
- Você deve acabar tudo com ele.Agora. Faça alguma coisa enquanto ainda tem escolha. Quanto mais tempo isso durar, pior você vai se sentir quando estiver parada naquela igreja, observando os dois selarem os votos matrimoniais com um beijo que Sophia prolongará por mais tempo do que manda o bom gosto... Depois você vai ficar olhando eles cortarem o bolo, darem garfadas, e ela limpando o rosto dele sujo de cobertura.
Em seguida vai observá-los dançando a noite toda ... e então ...
- Eu sei, eu sei.
Mel não terminou.
- Vai assisti-Ias escapando noite adentro para sua lua-de-mel na porra do Havaí!
Faço uma cara de dor e digo a ela que já consegui imaginar a cena.
- Só não entendo por que você não faz alguma coisa, não força a barra.
Repito que não quero ser responsável pelo rompimento deles, que só Arthur pode decidir.
- Vai ser uma decisão dele. Você não pode fazer uma lavagem cerebral nele. Mas pode lutar por aquilo que você quer. Por que você não está lutando por algo tão significante e importante?
Não tenho resposta. Pelo menos nenhuma aceitável. Meu telefone toca, interrompendo o silêncio constrangedor.
Olho para o identificador de chamadas. É o Les.
- É melhor atender - digo, sentindo-me aliviada com o fim do interrogatório. Se fiquei satisfeita em receber um telefonema de Les é porque o dia está realmente muito triste.
Mais tarde, dou um tempo nas minhas pesquisas e deslizo a cadeira até a janela. Fico olhando lá para baixo, para a Avenida Park, observando as pessoas enfrentarem seu dia-a-dia. Quantas delas se sentem desesperadas, eufóricas ou simplesmente mortas por dentro? Será que alguém está prestes a perder sua maior chance? Será que já perdeu?
Fecho os olhos e imagino as cenas de casamento que Mel descreveu. Então, acrescento minha própria seqüência da lua-de-mel: Sophia usando as lingeries novas e fazendo poses sedutoras na cama deles. Posso imaginar a cena perfeitamente.
E, de repente, de uma vez, fica claro por que não forço a barra. Por que não disse nada no Quatro de Julho, por que fiquei calada desde então, até mesmo na noite passada. Tudo tem a ver com expectativas.
No fundo, duvido que Arthur vá adiar o casamento e ficar comigo, não importa o que eu faça ou diga. Acredito naquelas cenas de Sophia e Arthur se casando e partindo para a lua-de-mel, enquanto sou deixada de lado, sozinha. Antevejo minha tristeza, meus momentos finais com Arthur, se isso ainda não aconteceu.
É claro, de vez em quando imagino um final diferente, eu e Arthur juntos, mas essas imagens são sempre passageiras, nunca escapam da esfera do "e se". Em resumo, não levo fé na minha própria felicidade. Por outro lado, há Sophia. Ela é uma mulher superconfiante e, conseqüentemente, consegue tudo. Tem sido sempre assim. Ela ganha porque espera ganhar. Eu não espero conseguir o que quero, então não consigo. E nem mesmo tento.
Sábado de manhã, estamos nos Hamptons. Peguei o trem hoje bem cedo e agora estamos reunidos novamente no jardim. A proximidade é um convite ao desastre. Julian e Mel estão jogando badminton. Eles perguntam se alguém topa desafiá-Ios numa partida de duplas. Arthur aceita.
Mel olha para ele séria.
- Quem você quer que seja seu par, Arthur?
Até agora, Arthur não sabia que eu contara para Mel sobre nós. Eu tinha duas razões para não revelar isso a ele: não queria que ele ficasse desconfortável perto dela, nem que se sentisse no direito de contar para um amIgo.
Mas Mel fez seu comentário sarcástico de uma maneira que quem estivesse a par da situação simplesmente não deixaria de perceber. O que aparentemente é a condição de Julian, porque ele lança a ela um olhar de censura. Fica claro que Julian será a força que vai manter firme o relacionamento dos dois.
Ela não pára por aí.
- E então, Arthur? Quem vai ser? - ela coloca a mão na cintura e aponta para ele com a raquete.
Arthur olha furioso para Mel. O maxilar dele trava.
- E se por acaso duas pessoas quiserem formar dupla com você?
E aí? - Mel provoca.
Sophia parece não perceber a tensão. Assim como Micael e Luciane.
Talvez todos já estejam acostumados com o tom de confrontação que
Mel adota de vez em quando. Talvez eles apenas o atribuam à advogada
que existe nela.
Arthur vira e olha para nós.
- Alguém de vocês quer jogar?
Micael abana a mão dispensando a oferta.
- Não, cara. Não, obrigado. Este jogo é de mulherzinha.
Sophia ri.
- É, Arthur. Você é um homem feminino.
Luciane recusa também, ela odeia esportes.
- Badminton nem mesmo é um esporte - diz Micael, abrindo uma lata de cerveja. - É como chamar jogo-da-velha de esporte.
- Você precisa escolher entre Sophia e Lua. Não é? - pergunta
Mel. - Você quer jogar, Lua?
Estou paralisada junto à mesa de piquenique, entre Sophia e Luciane.
- Não, obrigado - digo com suavidade.
- Você quer que eu seja sua parceira, querido? - pergunta Sophia.
Seu olhar cruza o jardim na direção de Arthur, enquanto ela protege os olhos da luminosidade com as mãos.
- Claro - diz ele. - Então vem.
Mel bufa enquanto Sophia logo pula da mesa dizendo que não joga bem badminton.
Arthur olha para a grama, esperando que Sophia pegue a quarta raquete e se junte a ele no espaço verde demarcado por uma fileira de chinelos e tênis.
- Jogamos até dez - diz Mel, lançando a peteca para o alto a fim de dar o primeiro saque.
- Por que você vai começar a sacar? - pergunta Arthur.
- Aqui está - diz ela, jogando a peteca por cima da rede. – Faço questão.
Arthur agarra a peteca e olha sério para ela.
A partida é violenta, pelo menos todas as vezes em que Mel e Arthur têm o controle. A peteca é como a munição e eles rebatem com toda a força, mirando um no outro. Micael imita um comentarista esportivo:
- E o clima está tenso aqui em East Hampton, onde os dois tim disputam o campeonato.
Luciane torce para todos. Eu fico calada.
O placar está 9 a 8, Mel e Julian lideram. Julian saca por baixo.
Sophia dá um gritinho e joga de olhos fechados conseguindo acertar a peteca por pura sorte. Ela rebate para o outro lado em direção a Mel.
Mel prepara o movimento e lança a peteca com força. A peteca voa. Zunindo bem acima da rede em direção a Sophia. Sophia se encolhe, pronta para rebater, quando Arthur grita.
- Fora! Vai para fora! - O rosto dele está suado.
A peteca aterrissa bem ao lado do chinelo de Luciane.
- Fora! - grita Arthur, enxugando a testa com as costas da mão.
- Bobagem. Foi dentro! - Mel grita de volta. -Acabou a partida!
Micael comenta conciliador que um joguinho de badminton não merece ser chamado de partida. Luciane se levanta do banco e caminheaté a peteca para verificar o alinhamento com o seu chinelo. Mel e Julian se juntam a ela. Há cinco pares de olhos sobre a peteca. Julian diz que é difícil decidir. Mel olha séria para ele antes de Arthur e ela começarem a gritaria de "fóra" e "dentro", como jogadores de times rivais.
Luciane manda voltar o ponto num clima de "vamos fazer as pazes". Ela obviamente não era uma criança que brincava fora de casa porque mandar voltar o ponto é uma das maiores causas de desavenças na vizinhança.
Mel comprova.
- Bobagem - diz ela. - Nada de voltar o ponto. A peteca passou o dia inteiro caindo do lado de dentro.
- O dia inteiro? Nós estamos jogando há apenas vinte minutos Arthur diz, sarcástico.
- De qualquer forma, não acho que tenha caído na linha – Sophia palpita, indiferente. Apesar de competitiva na vida real, esportes e jogos não a preocupam muito. Ela costumava comprar propriedades no Banco Imobiliário baseada no tamanho. Achava as casinhas muito mais bonitinhas
do que "aqueles hotéis horríveis de tão enormes".
- Está bem. Se você quer trair as regras - diz Mel para Arthur, disfarçando sua alfinetada com um sorriso amigável, como se estivesse apenas brincando. Seus olhos estão arregalados, inocentes.
Acho que vou desmaiar.
- Está bem, você venceu - diz Arthur para Mel, como se não se importasse. Mel ganhou seu joguinho bobo. Mel se recusa. Ela parece desorientada, indecisa entre discutir ou saborear a vitória. Estou com medo do que ela possa dizer.
Arthur joga a raquete na grama, sob uma árvore.
- Vou tomar uma chuveirada - diz, indo em direção à casa.
- Ele está puto - comenta Sophia, com uma expressão ofuscante de tão óbvia. Ela acha que é por causa do jogo. - Arthur detesta perder.
- É, ele sabe dar uma de bebezão - diz Mel enojada.
Percebo (com satisfação? esperança? superioridade?) que Sophia não defende Arthur. Se ele fosse meu noivo, eu o defenderia.
É claro, se eu estivesse no lugar de Sophia, Mel não teria sido tão impiedosa.
Olho firme para ela, como se dissesse "chega".
Ela dá de ombros, cai na grama e coça uma mordida de mosquito no tornozelo até sangrar. Depois, limpa o sangue com um pedacinho de grama e olha para mim novamente.
- E então? - diz ela, desafiadora.
Naquela noite, Arthur está muito quieto, quase mal-humorado. Não sei se ele está furioso com a Mel ou comigo por ter contado a ela sobre nós.
Ele ignora nós duas. Mel também o ignora, a não ser por algumas provocações ocasionais, enquanto eu tento inutilmente falar com ele.
- O que você vai pedir? - pergunto enquanto ele examina o cardápio.
Ele nem ergue o olhar.
- Não sei ainda.
- Não é novidade - resmunga Mel. - Por que você não pede dois pratos?
Julian aperta o ombro dela e me olha sem graça.
Arthur se volta para Micael e faz de tudo para evitar qualquer conversa ou mesmo cruzar o olhar comigo e com Mel até o final do jantar.
Estou muito preocupada. Você está com raiva? Você está com raiva? Você está com raiva?, penso enquanto luto para comer meu peixe-espada. Por favor, não fique zangado. Estou desesperada, aflita para conversar com Arthur, esclarecer tudo e aproveitar o tempo que ainda nos resta. Não quero terminar de um jeito assim tão amargo.
Mais tarde, no Talkhouse, Arthur e eu ficamos finalmente sozinhos. Estou pronta para pedir desculpas por Mel quando ele olha para mim, seus olhos verdes faiscando:
- Por que diabos você contou para ela? - ele murmura.
Não sou muito bem treinada em conflitos e sua hostilidade me pega de surpresa. Olho para ele sem entender, fingindo estar confusa. Será que devo pedir desculpas? Dar alguma explicação? Sei que tínhamos um acordo tácito de manter segredo, mas eu precisava contar para alguém.
- Mel, você contou para ela - diz ele, afastando o cabelo da testa.
Ele é ainda mais atraente quando está com raiva ... seu maxilar fica de alguma forma mais quadrado.
Desprezo o comentário dele quando de repente me bate uma sensação estranha. Como ele se atreve a ficar com raiva de mim! Eu não fiz nada! Por que estou enlouquecida, desesperada para ser perdoada?
- Posso contar para quem eu quiser - digo, surpresa com a dureza da minha voz.
- Fala para ela ficar fora disso - diz Arthur.
- Ficar fora do quê, Arthur? Do nosso relacionamento fodido?
Ele está chocado. E depois magoado. Ótimo.
- Não é fodido - diz ele. - A situação é, mas o nosso relacionamento não.
- Você está noivo, Arthur. - Minha indignação aumenta e se transforma em fúria. - Você não pode ignorar isso.
- Eu sei. Ainda estou noivo ... mas você ficou com Micael.
- O quê? - pergunto incrédula.
- Você deu um beijo nele no Aubette.
Não posso acreditar no que estou ouvindo - ele está noivo e reclama de um beijinho de nada! Rapidamente me pergunto há quanto tempo ele sabe disso e por que não disse nada até agora. Luto contra o instinto de me arrepender.
- É, eu beijei o Micael. Grande coisa.
- Para mim é grande coisa, sim. - Ele está tão perto de mim que sinto seu cheiro de álcool. - Eu odeio isso. Não faça de novo.
- Não me dê ordens - sussurro de volta bem agressiva. Lágrimas de raiva escorrem dos meus olhos. - Eu não digo a você o que fazer... Quer saber do que mais? Talvez eu devesse...Que tal: Case-se com a Sophia. Eu não me importo.
Saio de perto de Arthur, quase acreditando no que disse. É o meu primeiro momento de liberdade do verão. Talvez o momento mais livre da minha vida. Estou no comando. Eu decido. Vou para os fundos, sozinha entre a multidão, o coração acelerado. Minutos depois, Arthur me encontra e me segura pelo cotovelo.
- Você não falou aquilo a sério ... sobre não se importar.
Agora é sua vez de ficar desesperado. Sempre me impressiono em ver como esta regra é infalível: a pessoa que se importa menos (ou que finge se importar menos) tem o poder. Mais uma vez tenho a prova. Sacudo meu braço para me desvencilhar dele e o encaro com frieza. Ele se aproxima e segura meu braço novamente.
- Sinto muito, Lua - ele sussurra, inclinando-se em direção ao meu rosto.
Resisto. Não vou amolecer.
- Estou cansada dessa espiral de emoções, Arthur. O interminável ciclo de esperança, culpa e ressentimento. Estou cansada de imaginar o que vai acontecer com a gente. Estou cansada de esperar por você.
- Eu sei. Sinto muito - diz ele. - Eu te amo, Lua.
Sinto que estou enfraquecendo. Apesar da fachada de mulher forte, tremo por estar tão perto de Arthur, por causa de suas palavras. Olho no olho dele. Todos os meus instintos e desejos ... tudo me leva a fazer as pazes, a dizer a ele que eu também o amo. Mas resisto como alguém que se afoga numa correnteza. Sei o que preciso dizer. Penso nos conselhos de Mel, seus alertas para uma atitude. Mas não estou fazendo isto por ela. Isto é por mim. Formulo as frases, as palavras que estiveram martelando na minha cabeça durante todo o verão.
- Quero ficar com você, Arthur - digo com firmeza. - Cancele o casamento, fique comigo.
Aí está. Depois de dois meses de espera, depois de uma vida inteira de passividade, as cartas estão na mesa. Sinto-me aliviada, liberada, modificada. Sou uma mulher que quer ser feliz. Eu mereço a felicidade. Certamente, ele vai me fazer feliz.
Arthur inspira, prestes a me responder.
- Não - digo balançando a cabeça. - Por favor, não fale comigo outra vez, exceto para me dizer que o casamento foi cancelado. Nós não temos nada mais para discutir até lá.
Ficamos nos olhando fixamente. Por algum tempo, nenhum de nós pisca. E então, pela primeira vez, venço Arthur no jogo de quem consegue ficar sério por mais tempo.

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